Marie Vibbert é uma autora de ficção científica, mais conhecida pelas histórias mais curtas, publicadas em revistas como Nature, Analog ou Clarkeswold, destacando-se We Built This City, uma noveleta premiada com os prémios Hugo e Nebula (a história encontra-se disponível para leitura gratuita na página da revista). O seu próximo livro tem data de lançamento para o próximo dia 12 de Maio, e a editora Apex Book disponibilizou-me um ARC em formato digital para leitura.
A história apresenta-nos uma raça alienígena de cefalópodes que ascende a um elevado nível civilizacional. A capacidade de partilharem as mentes permite-lhes agir em comunidade, como um todo, fazendo com que as memórias e os ensinamentos dos anteriores membros da espécie se transmitem aos elementos da geração seguinte. Esta civilização vive em harmonia e cooperação do seu planeta, até ao dia em que recebe uma mensagem da humanidade, emitem uma resposta e iniciam a viagem para o planeta Terra.
Alternando com a perspectiva da humanidade, conhecemos uma cientista que recolhe padrões de possíveis comunicações, descobrindo a mensagem emitida pelos alienígenas. Depois de várias validações e de garantir que se trata efectivamente de uma mensagem, espalha-se a notícia entre os restantes cientistas. Decorridos dois anos, ainda ninguém parece ter descodificado totalmente a mensagem – até que, numa publicação recôndita de um país não ocidental, alguém redimensiona a mensagem. A história prossegue, claro, para a chegada dos alienígenas e pela forma como a impossibilidade de comunicação e de entendimento mútuo provocam sucessivos desentendimentos.
A forma como as duas espécies prosseguem os seus relacionamentos recordam a teoria da floresta escura, segundo a qual outras civilizações alienígenas estariam a fazer-se propositadamente silenciosos – lá porque existe outra espécie inteligente, não significa que se reconheçam como tal, nem que tenham o mesmo código ético e moral, com respeito pela vida e pela existência dos restantes. O exemplo clássico pode ser encontrado, claro, na própria humanidade, com a colonização de outros continentes, em que nem membros da mesma espécie eram reconhecidos como tendo as mesmas capacidades intelectuais ou, até, a mesma sensibilidade.
Aqui, em Multitude, o problema estará na oposição de perspectivas. Para os alienígenas a individualidade não existe, e todos os membros da espécie partilham memórias e sentimentos, sendo fácil perceber o que outro senta e pensa. O reconhecimento da inteligência está, também, na forma conjunta como agem, considerando os interesses globais da espécie, característica que é difícil reconhecer na humanidade, com as divisões entre países, as guerras, ou mesmo as interacções individuais com violência e egoísmo. Já na perspectiva humana, as acções dos alienígenas são estranhas e provocam o medo da população e, claro, reacções menos simpáticas.
Em pano de fundo, a narrativa explora alguns detalhes na comunidade científica. Apresentando alguns elementos que tentam ficar com os louros das descobertas de outros, publicitando e dando entrevistas sobre a mensagem dos alienígenas, ou mostrando como descobertas importantes podem ficar escondidas sob o véu de outra língua, sobretudo se forem publicadas em revistas menos conhecidas sob o nome de uma mulher não ocidental.
Apesar de relativamente curto (Multitude tem pouco menos de 200 páginas) é uma leitura interessante, destacando-se pela apresentação de uma perspectiva alienígena, distinta, não propriamente maléfica ou mal intencionada. Esta abordagem permite perceber as diferentes interpretações para as interacções ou acções, um caminho longo, carregado de desilusões, que os alienígenas fazem por si.
