Os Filhos de El Topo – Vol. 1 – caim – Jodorowsky e Ladronn

Os Filhos de El Topo decorre no mesmo Universo que o filme El Topo do mesmo autor, Jodorowsky. O segundo volume encontra-se já publicado em Portugal pela editora Arte de Autor e é nesta onda que comento o primeiro volume, do qual esperava falar apenas após ter visto o filme completo.

Os primeiros 5 minutos do filme definem o mesmo tom de uma parentalidade dura que podemos ver noutras histórias de Jodorowsky – fazer de crianças homens impõe dor e sofrimento, sendo esta dureza demonstrada por um menino motivo de orgulho numa semente poderosa. Assim terá sido com Caim, abandonado pelo pai, El Topo, um bandido tornado Santo.

A história inicia-se com esta introdução curta, demonstrando como Caim procura El Topo para o matar. Mas não conseguindo matar o Santo em que se tinha tornado, jura matar o futuro irmão. Como Santo, El Topo detém poderes que usa para proteger Abel, o segundo filho – um cataclismo levou à aridez das terras e Caim passa a ser invisível aos olhos dos humanos.

Com a morte de El Topo e o seu enterro, surge uma estrutura valiosa que protege os restos mortais. A estrutura recorda uma mão estendida, assemelhando-se a símbolos de várias religiões que visam afastar as energias negativas e trazer sorte e fortuna. Esperançados em obter o ouro da estrutura, vários homens tentam chegar ao centro, ocultando as suas verdadeiras intenções. Mas o Santo não se deixa enganar e só os inocentes, que não cobiçam nada de valioso, conseguem ultrapassar as barreiras que rodeiam a estrutura.

Paralelamente, Caim deambula, invisível (ou ignorado) por todos, sem grandes meios de sustento. A solidão e a frustração atingem-no de forma absoluta. E de povoação em povoação é ostracizado e apagado das memórias, seguindo-se a vontade do Santo. Já Abel anda de terra em terra, realizando, com a mãe, um espectáculo de marionetas – até que esta falece.

Tal como outras ficções de Jodorowsky, a história cruza uma perspectiva implacável com elementos bizarros, não deixando de parte a sexualidade. A narrativa é populada por elementos simbólicos de várias religiões, desde o nome dos filhos de El Topo (com a referência evidente aos filhos de Adão e Eva) à mão estendida que rodeia os restos mortais de El Topo. Este patamar de inspiração é óbvio, mas a história possui outras nuances e alterações em relação às referências mais evidentes.

Visualmente, Os Filhos de El Topo transmite a rudeza das personagens, a aridez dos terrenos e o horror do confronto violento. A bizarria narrativa transmite-se na caracterização de algumas personagens – nas histórias de Jodorowsky não faltam aleijados nem deficientes mentais, e a maioria dos homens são apresentados como feios, porcos e maus, por oposição às mulheres (ora indomáveis, ora devotadas) mas quase sempre belas numa forma muito carnal. Para além do desenho, destaca-se a qualidade da edição – não só pela textura do material escolhido, como no alto-relevo de alguns elementos na capa.

Esperem de Os Filhos de El Topo o mesmo que esperariam de um filme do autor: simbologia religiosa ou alquímica que influencia a lógica narrativa, sacanas viscerais, interacções surreais (algumas alegóricas) e uma aura de sonho que consegue ser, simultaneamente, fascinante e repugnante. Em suma, uma grande e poderosa leitura.

Os Filhos de El Topo foi publicado em Portugal pela Arte de Autor e pode ser adquirido directamente na página da editora.

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