Eis um dos volumes de As Cidades Obscuras, uma série fantástica de Schuiten e Peeters que foi parcialmente publicada em Portugal. Neste caso, não encontrando a edição portuguesa, optei pela edição espanhola que adquiri na Cult do Areeiro.

A história

A série Cidades Obscuras parece decorrer num outro mundo, ligeiramente fantástico (ou pelo menos onde decorrem alguns fenómenos fantásticos), ainda que pareçam existir, por vezes, referências a factos ou locais reais (ligeiramente alterados). Dos livros que li até agora, cada um parece centrar-se numa localização ou num tempo diferente, destacando-se os detalhes surreais que recordam Borges, ou a tecnologia que cruza modernidade com antiguidade (como um Steampunk). Destacam-se, também, os detalhes arquitectónicos, mais centrais nalguns volumes, onde se constroem fabulosos cenários.

É neste enquadramento que seguimos Roland, um novo cartógrafo que chega às instalações onde um dos seus ilustres antepassados também trabalhou. A sua chegada é, no mínimo sombria ou misteriosa. Passando por um deserto e um labirinto infindável, o jovem chega finalmente ao edifício onde irá trabalhar. Depois de percorrer vários quartos vazios com o porteiro, acaba por escolher aquele que terá sido do homem que vem substituir, ficando, também, com o cão que lá se encontra.

Os primeiros dias de trabalho são curiosos. Não lhe é dito exactamente o que procurar em todos os mapas e imagens que consulta, e as questões que lhe colocam parecem afastar-se da sua especialidade, a cartografia. Tudo isto irá mudar, quando o levam a conhecer uma réplica das localizações presentes nos mapas – não só por perceber o objectivo, mas também por vir a conhecer a mulher que o irá afastar do caminho ilustre, e criar uma série de teorias que poderão ter impacto no seu destino.

Comentário

Um dos aspectos que se destaca em qualquer livro de As Cidades Obscuras é o visual – o edifício imponente no meio do deserto, a biblioteca com aspecto clássico e móveis pesados, os mapas ou a réplica do terreno, acompanhados por engenhocas curiosas que recordam um ligeiro Steampunk e por detalhes surreais. Os desenhos são detalhados e as perspectivas variadas, as superfícies traduzem textura e as cores complementam-na com jogos de sombras fabulosos.

Entre as engenhocas curiosas mais interessantes, encontramos uma extensa rede de transporte que passa sobre a réplica de terreno, uma espécie de bicicleta em carril, que circular, suspensa. Mas não é o único meio de transporte diferente – um género de triciclo, de compartimento oval pode ser visto a subir um edifício.

Os aspectos surreais são, neste volume, subtis e, por vezes metafóricos – mais expressões visuais do que retratos de uma realidade de regras diferentes. Assim, a dupla romântica pode ser vista a sair pelos olhos de uma caveira gigante, um simbolismo do percurso de fuga que irão percorrer.

A história centra-se num jovem inexperiente no seu primeiro trabalho. Esta inexperiência traduz-se na forma como é arrastado pelos acontecimentos, bem como pela forma como se envolve com uma jovem. Assim se explica, também, que, apesar de ser competente no seu trabalho, se enubla e cruza de forma catastrófica os dois elementos da sua vida – o trabalho e o amor.

O enquadramento político denota uma distopia com detalhes militares – algo que está presente, também, noutros volumes, em diferentes doses. Aqui, depreende-se que a réplica está associada a objectivos militares, um uso algo grotesco para algo tão extraordinário. Adicionalmente, os altos cargos podem ser depostos da noite para o dia e os projectos atribuídos a personalidades mais ambiciosas.

Em termos narrativos, não achei que este volume fosse dos mais interessantes da série. A personagem principal é inexperiente e ingénua, cunhando o tom da história e a sua progressão. A sucessão de episódios reflecte, assim, esta personagem. A história torna-se, no meu entender, mais interessante pelo que não é central e rodeia as personagens – as pistas de algo mais por detrás da réplica, o enquadramento familiar das personagens que é referido rapidamente, a ideia de um mundo diferente, mas suficientemente familiar para poder ser uma sombra do nosso, a criação de um paralelismo curioso pela forma como cruza tecnologia e existência histórica que se vai tornando familiar e quase dolorosamente real.

Conclusão

Esta fabulosa série tem sido publicada em Portugal por várias editoras, sem a devida conclusão, desde a Witloof à, mais recente, Levoir. Esta diversidade de editoras não permite que os volumes se encontrem disponíveis em edições coerentes no nosso mercado – o que é uma pena, porque tem todos os elementos clássicos que poderiam agradar a um público mais distante da banda desenhada, e mais próximos de histórias Borgianas.

Este volume em particular, tem como ponto baixo a personagem principal que não convence totalmente e, consequentemente, o percurso que não é muito original. Em contrapartida, é visualmente fabuloso, contendo elementos fascinantes na construção desta realidade, dispersos, quer nos diálogos, quer nos desenhos. É, neste aspecto que se torna numa boa leitura.