A Grande Farsa – Trillo e Mandrafina

Vencedor de um prémio Angoulême, A Grande Farsa apresenta alguns dos elementos que caracterizam a narrativa de Trillo, mas aqui acompanhados por um desenho detalhado, sombrio e expressivo.

A história

A narrativa é contada na perspectiva de um escritor de novelas que é mestre em criar personagens. Assim terá transformado a sobrinha de um sanguinário ditador numa figura nacional, uma virgem santa. Esta criação teria, como objectivo, elevar a condição de virgem e diminuir o crescimento da população.

Mas nem a suposta virgem é de ferro. Abusada pelo tio, procura num outro homem o carinho e a paixão de que precisa. Quando um terceiro homem, poderoso e ciumento, capta fotos deste seu deslize, a virgem é obrigada a recorrer à ajuda de um ex-polícia.

A narrativa

Algumas das personagens respondem a arquétipos redesenhados por Trillo. A virgem é uma jovem inocente sem escapatória numa ditadura que a brutaliza de várias maneiras. Mas nem por isso é totalmente casta e o autor irá transformar esta virgem numa simples mulher, usada por todos os da narrativa.

Já o ex-polícia é o herói. Alguém que, naquela ditadura, tenta usar a sua honestidade na profissão, descobrindo escândalos que não podem ver a luz do dia. Assim é remetido à condição degradada de bêbado, até achar um novo propósito – proteger e ajudar a virgem. Também esta figura é transformada pelo autor, conferindo-lhe desejos humanos e um desejo de vingança retorcido que irá servir (ironicamente) a narrativa.

Não falta, claro, o bandido. Um homem implacável que mete medo em todas as personagens com as quais se cruza – uma força da ditadura, capaz das mais inimagináveis infâmias. Trillo é bem sucedido em tornar esta personagem numa caricatura nojenta e odiável.

Partindo de clichés e transformando-os, Trillo sucede em criar mais uma história de humor negro, carregada de brutalidade e violência, onde não faltam as tiradas irónicas e sarcásticas. O mundo de Trillo é um lugar pesado, que, neste caso, nos remete para uma ditadura hipotética onde um simples homem manipula a sociedade e se mantém no poder perante uma resistência escondida e diminuta.

Encontramos os jogos de poder, os favores e, até, os estrangeiros coniventes que fazem fortuna nestas ditaduras disfarçadas de repúblicas. A polícia é corrupta, usa-se uma falsa moralidade religiosa para domesticar o povo, bem como esquemas noticiosos para espalhar falsas lendas e assim influenciar para um estilo de vida.

Conclusão

O estilo narrativo de Trillo não é para qualquer leitor – um humor negro e violento, onde não faltam as alusões à religiosidade como falsidade ou a falsa moralidade. Neste caso trata-se de uma história curta onde se reconhecem os elementos comuns a algumas das suas outras narrativas. A não perder para quem gosta do estilo de Trillo, aqui cruzado com o desenho detalhado de Mandrafina, dupla que é também responsável pela série Spaghetti Bros.

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