Galardoado com o prémio Angoulême de melhor álbum de banda desenhada, O Combate Quotidiano foi lançado em dois volumes no mercado português pela editora A Seita. Trata-se de um lançamento muito esperado (e comentado) que não decepcionou!

Este não é um livro fácil para se falar. Não porque a linha narrativa seja difícil de perceber (muito pelo contrário), nem porque os temas sejam estranhos – mas porque toca em realidades sensíveis, usando um fotógrafo como personagem principal para falar de fobias (e problemas psicológicos), memórias e relacionamentos familiares.

Marco, o fotógrafo, é um jovem adulto complicado – sofre ataques de pânico e de ansiedade, tem dificuldades em assumir responsabilidades e é seguido por um psicólogo sem que este seguimento pareça surgir efeito. A origem destes problemas psicológicos não é clara – ainda que possa ter relacção com o seu papel como fotógrafo de guerra, existem detalhes nos relacionamentos que podem ser anteriores a essa experiência. Logo no início percebemos que o relacionamento com os pais é distante, e que terá sido este afastamento emocional que terá determinado o afastamento físico.

Os seus relacionamentos são raros. Por um lado vai-se comunicando com o irmão (também com problemas de maturidade), por outro, aproxima-se de um velhote curioso e distante. Mas a grande novidade é o interesse de uma rapariga. Marco não está, decididamente, pronto para assumir um relacionamento e prosseguir através do caminho expectável de um relacionamento amoroso – e qualquer referência a essa evolução vai facilitar o regresso da ansiedade. O fotógrafo tem, também, um grande problema em se relacionar com os que o rodeiam.

Esta componente da história, a de se referir a problemas psicológicos, é tratada de forma exemplar – sem romantizar a doença, mas também sem a problematizar em excesso, um verdadeiro combate quotidiano em que por vezes se melhora, por vezes se piora. E nem sempre se percebe os factores que levam às alterações.

Em relação aos relacionamentos, percebemos que existe um grande distanciamento com os progenitores, sobretudo com o pai. Esta figura distante e cada vez mais encolhida em si mesma, parece diminuir com o desaparecimento da sua antiga profissão – a mesma que teria justificado a existência de inúmeras famílias na localidade. Quando o estaleiro começa a fechar, Marco irá fotografá-lo como tentativa de se relacionar com o pai, mas também como forma de guardar a memória de uma família maior do que o núcleo familiar. Marca, assim, o fim de uma época.

Mas as fotografias são mais do que uma memória. Marco tem dificuldades em lidar com mudanças, sejam estas na sua vida ou na forma de estar dos que o rodeiam, e a forma como se dedica a fotografar o estaleiro quase parece uma tentativa de tentar manter algo que está a desaparecer, para a sua própria calma mental.

O Combate Quotidiano é, portanto uma leitura brutal. Diria mais, até – uma das melhores leituras publicadas em Portugal nos últimos tempos (largos meses). Apesar de se centrar sobretudo numa única personagem, consegue criar uma perspectiva única, mostrando como esta personagem, com os seus defeitos e virtudes, lida com a dificuldade em assumir as suas próprias particularidades. Demonstra, em suma, o longo caminho em tomar as decisões certas e em progedir naquilo que lhe é esperado.