Alberto Manguel tem-se tornado conhecido no mercado nacional pelos seus livros sobre livros, publicados, na sua maioria, pela Tinta-da-China. Adicionalmente, o autor mudou-se para Portugal no seguimento de um convite de Fernando Medina para albergar a vasta colecção encaixotada. Assim se fundou o Centro de Estudos de História da Leitura. O autor tem ainda um programa televisivo, denominado A Vida Privada dos Livros, onde fala sobre livros e escritores. Desconhecia, no entanto, que o autor tinha livros com outra temática, até ter feito uma pesquisa sobre os livros publicados e me ter deparado com dois pequenos volumes.

A história

O livro apresenta a perspectiva de Néstor Fabris, um ex-militante político que várias décadas depois, regressa ao seu país. Este retorno (justificado pela presença num casamento) é, no entanto, um momento agridoce, recordando e revendo locais e pessoas, revivendo momentos de tensão e emoção.

Mas a visita não é tão linear quanto seria de esperar. O hotel parece mudar de sítio, as ruas modificam-se bem como as lojas, quem encontrou, desencontra, em momentos de confusão e desorientação. Entre locais que já não conhece e locais que permanecem, encontra velhos conhecidos que se esfumam como se nunca tivessem existido, falando de remorsos e situações dúbias.

Crítica

O tema principal do livro é o retorno à terra que conheceu na juventude. Conhecendo um pouco a história de Manguel, diria até que há momentos biográficos, em que se opõe a melancolia com a saudade, o arrependimento com as emoções fortes do reencontro e da lembrança. Este retorno é um momento agridoce, em que os sentimentos se misturam com a racionalidade.

Talvez por isso, o relato de deambulação pelas ruas, onde se joga com memórias e percepções, parecendo quase a descrição de um cenário fantástico que muda cada vez que a personagem vira as costas. A personagem absorve as novas características do espaço enquanto entra em conflito com o que o mesmo espaço já representou para si próprio.

Pelo meio, fala-se de situação política e de fuga de uma nação por motivos políticos, de relações humanas postas em pausa e da evolução que a própria personagem fez em relação ao seu passado – o mesmo passado com o qual se confronta, e é obrigado a viver através da memória.

O livro é pequeno e conciso, a narrativa inconsequente para a personagem (nada no passado pode mudar) mas um exercício curioso de memória e realidade que consegue cativar o leitor, levando-nos a fazer o percurso mental da personagem que retorna ao seu passado.

Conclusão

Apesar de ter apreciado a leitura deste pequeno livro, não é uma leitura que tenha achado excelente. Preferi a leitura dos livros sobre livros, que falam de obras, personagens e escritores, de forma fluída e me aumentam o volume de obras a ler.