Eis um livro que andava há algum tempo a tentar adquirir mas que nunca me apareceu disponível nas usuais livrarias. Finalmente, surgiu a oportunidade na Feira do Livro de Lisboa.

A história

Fábio é um arruaceiro. Nas primeiras páginas percebemos que ganha a vida em combates, mas há algum tempo que não ganha nenhum. Deve dinheiro a tipos perigosos, mas deita-se com a irmã de um deles. Quando o procuram, Fábio foge. Coincidência, o irmão aparece-lhe com as cinzas do pai, propondo uma viagem de carro para retornar a Itália, onde o deverá esperar a sua herança.

Cedo se percebem as diferenças entre os dois irmãos. Fábio, gabarola e tempestuoso, realça os motivos monetários da viagem enquanto discursa sobre a coragem que teve ao deixar o seu país – quem dera aos que ficaram terem tido a sua coragem. Já Giovanni, mais calado e pensativo, há-de-se cansar dos modos do irmão.

Comentário

Nada como forçar duas pessoas numa viagem de carro para causar entendimentos e desentendimentos. Neste caso, os dois irmãos há muito que se separaram, mas agora vêem-se forçados a prosseguir de carro durante vários dias. Pelo caminho, acontecem vários percalços que vão provocar as conversas mais sentidas e o cair das máscaras acumuladas – o expectável no cenário de longa viagem de carro.

Apesar do cliché que rodeia a linha narrativa, a progressão é sublime, com os devidos contratempos e discussões, elementos que irão contribuir para o caminho do entendimento, enquanto exploram diferenças de perspectiva, percepções passadas, história e expectativas. Os dois irmãos possuem camadas próprias que vão sendo reveladas e provando que os dois são mais semelhantes do que distantes.

Em termos visuais é um traço caricato mas expressivo, alternando entre a simplicidade dos momentos em memória (num traço mais cru e simples) e os momentos que vão decorrendo, mais detalhados e expressivos.

O resultado é uma leitura que consegue balancear os momentos de bom humor (e mais caricatos) com os momentos mais reais e psicologicamente mais marcantes. Entre memórias e peripécias, exploram-se sentimentos e pensamentos, numa progressão cada vez mais intimista.

Conclusão

Como Antes é uma leitura brutal que vai retirando camadas à nossa percepção das personagens. Sobretudo de Fábio. Começa como um fanfarrão, mas percebemos depois que existe outro homem e outra existência, endurecida pelas circunstâncias e pela vivência. Um livro de reencontro, não só com o passado, mas também consigo próprio – mas desenvolvido de forma empática e realista, ultrapassando deambulações filosóficas ou existenciais.