Se excluirmos as colectâneas, há 17 anos que o autor não lançava um livro. Em Portugal teve pelo menos dois lançados, o fabuloso Jardim de Infância (pela colecção organizada pelo João Barreiros) e Ar (pela colecção 1001 Mundos, na época lançada pela Gailivro). Para além destes, li outros, percebendo que se trata de um autor que oscila entre a delicadeza das personagens e a brutalidade da realidade onde se encontram, possuindo algumas histórias viscerais.

Este Him é um pouco mais suave nesse contraste, focando-se em Avigayil, uma menina, filha da virgem Maryam, que se casou com Yosef. Claro que percebemos que esta Avigayil se tornará Jesus Cristo, mas o importante na história é a jornada. Him apresenta as influências peculiares de Yosef na forma com explora e estuda Deus e a Religião – influências estas que levam a família ao exílio.

Mas Maryiam terá outros filhos, estes outros de Yosef, e a narrativa focar-se-à, também, nas estranhas dinâmicas familiares, e na forma como os outros reagem à estranha forma de estar de Avigayil, que rapidamente se torna Yeshu, um homem.

Nomeado para vários prémios e destacado em várias listas de melhores leituras, Him é um livro que se destaca dos restantes de Geoff Ryman (ou pelo menos, dos livros que li deste autor). Todos sabemos qual o fim de Jesus, mas nunca é caracterizado como uma personagem próxima pela qual sentimos empatia, antes uma figura bizarra e diferente, que nunca conhecemos mas que estranhamos a forma como é tratada. Um dos aspectos mais desconcertantes é o relacionamento que tem com os irmãos e pais, distante e alienado.

Já as personagens que o rodeiam (a mãe, o pai, os irmãos) oscilam entre personagens que compreendemos (mas que se revelam demasiado simplistas ou castradoras) ou personagens que não compreendemos mas que empatizamos (como José). A mãe é uma mulher prática que obtém alegria e concretização com cada bebé. O pai, apesar da pobreza, é mais focado no estudo do Testamento, proferindo interpretações estranhas para a época.

Em termos de premissa, não é totalmente inovador. Não é o único livro a transformar Jesus numa personagem histórica, de quase carne e osso – Cordeiro, O Evangelho segundo Biff de Christopher Moore adopta uma abordagem cómica; Jesus o Bom e Cristo o Patife de Philip Pullman prefere apresentar a figura como a combinação de duas pessoas; Porra… Voltei de Álvaro opta por uma sátira cómica mas negra.

Him segue um caminho distante, algo alienado, apresentando Jesus Cristo como uma personagem que não se enquadrava no seu tempo, avançado em ideias e percepção, o que causa simultaneamente adoração, disrupção e reacção – mas de uma forma diferente à que estamos habituados a percepcionar nos textos bíblicos.

Apesar da caracterização da personagem principal, a abordagem teológica é interessante, conferindo significado a vários episódios que são quase banais, numa argumentação que é astuta e inteligente. Esta argumentação é um dos aspectos mais interessantes e envolventes, criando ligação com o texto e com as ideias apresentadas.

Him é um daqueles livros que não consigo dizer que adorei ou que detestei. É um livro peculiar na perspectiva e no desenvolvimento, ao apresentar Jesus como uma mulher que se identifica como um homem, mas sem se debruçar propriamente nesse elemento. Ao contrário de algumas obras de Geoff Ryman que começam de forma empática e cativante e evoluem para uma disrupção violenta e quase traumatizante para o leitor, Him faz o percurso contrário, terminando de forma mais envolvente e carregada de sentimento.