Nuno Ferreira é mais conhecido como escritor de ficção especulativa, sobretudo fantástico, com livros como Histórias Vermelhas de Zallar ou A Embaixada e contos em várias antologias. Mais recentemente lançou-se numa narrativa diferente, mais voltada para a ficção histórica, ainda que com alguns elementos de ficção especulativa, vencendo o Prémio António de Macedo de 2023.

A conversão dos nus leva-nos ao início do século XVII, centrando-se num assassino a soldo de nome Belchior Correia. Pode-se dizer que a vida lhe corre bem. Sem grandes amarras, costuma receber trabalhos regulares que executa com discrição. Até ao dia em que lhe pedem que retorne à sua terra natal, Mouta Alta, para um trabalho peculiar – assassinar um homem que estará a transformar a região e que poderá ter um papel político de grande relevância no país.

O retorno a Mouta Alta não lhe traz apenas a usual nostalgia, mas o confronto com a família que deixou para trás, fazendo-o reviver os conflitos entre os pais, nos quais, ao não tomar posição, é uma extensão dos abusos sofridos pela mãe. O facto de esta ter voltado a casar exactamente na família rival agudiza as tensões e o conflito interno.

Mas o objectivo desta visita não é o reencontro, antes levar a cabo a missão que lhe foi conferida – missão que rapidamente percebe não ser tão fácil, até porque o homem que foi incumbido de matar não é um homem simples, estando envolvido na construção da nova igreja, que se prevê ter elevada importância política, religiosa e social na região, e porque rapidamente sente por ele uma forte amizade.

Já a inauguração da Igreja, revela-se um acontecimento marcante. Mas não pelas razões habituais, saindo da construção uma menina nua, a primeira de várias pessoas. Demência, religiosidade ou bruxaria. As dúvidas persistem no ar e rapidamente a Inquisição é chamada, encontrando uma localidade afundada no caos, onde alguns aproveitam para tentar a sua sorte e limpar rivais.

É no meio deste caos que a narrativa explora laços familiares e ligações amorosas, antigas e recentes. O ambiente caótico, marcado pelos confrontos e pela violência, agudizado pela mistura de religiosidade e misticismo, leva várias das personagens ao extremo, capazes de loucuras, crentes que mais nada importa. Alguns agarram-se às possibilidades materiais. Outros ao estado de graça que pretendem manter, libertando-se de amarras terrestres. Pelo meio, vários tentam usar as circunstâncias a seu favor e tomar o poder.

Sendo uma narrativa que se enquadra sobretudo na ficção histórica, existem alguns toques de fantástico (ou sobrenatural), sobretudo nas visões ou nos acontecimentos que envolvem a inauguração da Igreja. Não são detalhes que o autor tente explicar, assumidos simplesmente como factuais e por isso, condicionando a narrativa.

A conversão dos nus é uma história movimentada que flui facilmente ainda que possua algumas arestas por limar – algumas reviravoltas excessivas, alguma demasiada importância da terra no destino de Portugal, uma personagem que, dadas as suas origens parece ter demasiada facilidade em conviver com personalidades importantes da época. Ainda assim, é uma das narrativas mais bem conseguidas do autor, aconselhável para quem deseje explorar a ficção histórica e não se importe de umas pitadas fantásticas.