Já cá tinha falado dos primeiros dois volumes, mas dada a evolução ao longo dos 20 volumes fiquei com vontade de voltar a referir a série, falando um pouco do que foi mudando e do tipo de mundo que foi sendo construído. Ainda que vá evitar spoilers sobre o destino das personagens e falar de forma mais abstracta dos elementos principais, poderão existir alguns dados importantes sobre o cenário global que vão ser revelados.

A série começa de forma surpreendente. O primeiro volume apresenta, em quase 90% das páginas, um orfanato fofinho onde todas as crianças vivem em harmonia, com capacidades cognitivas desafiadas por um ensino exigente mas também compreensivo e carinhoso. A única adulta que cuida deles é uma espécie de mãe complacente que sabe educar de forma calma e didática, mantendo a compostura em todos os momentos, apesar do elevado número de crianças que tem a seu cargo.

O final do primeiro volume não muda esta visão idílica do orfanato em si, mas percebemos que fomos apresentados a uma espécie de quinta pedigree, onde as crianças mais inteligentes são seleccionadas para, antes de se tornarem adultas, servirem de refeição gourmet para uma elite de monstros de características hediondas. E da mesma forma que nos apercebemos disto, também uma das crianças mais inteligentes o percebe.

A partir daqui, um pequeno grupo de crianças mais velhas passa a conhecer a verdade, mas compreendendo, desde logo, que a “mãe” será cúmplice da situação, deverão manter a fachada e um comportamento exemplar, ao mesmo tempo que tecem um plano para sobreviver e para salvarem todas as restantes crianças – mesmo as mais pequenas.

O que começa como uma missão complexa mas relativamente directa, vai tornando contornos cada vez mais complexos à medida que o grupo se apercebe que existem outras quintas do género, bem como toda uma sociedade de monstros inteligentes. Tão relevante quanto esta realidade, é o facto de existir o tratado centenário entre humanos e monstros que define a existência das quintas.

Ao longo destes vinte volumes o grupo de crianças desenvolve estratégias cada vez mais complexas, recolhendo dados sobre a realidade que os rodeia, um género de eterno jogo do gato e do rato, carregado de tensão e de reviravoltas. E ainda, assim, sempre envolto em esperança e positividade – aspecto desenvolvido sobretudo com uma personagem chave que, em dados momentos, se torna irritante ou, até, cansativo.

O grupo terá de pesar diferentes perspectivas e consequências éticas nas suas decisões e planos, existindo personagens que são mais realistas (ou até pessimistas). No entanto, a narrativa vai progredindo no sentido de recompensar alguma da extrema positividade, e mostrando como programar para cenários menos agradáveis pode, na verdade, comprometer uma resolução mais benéfica.

Apesar do seu diminuto tamanho, o treino intelectual e físico que recebem no orfanato permite que desenvolvam estratégicas e planos complexos, destacando-se a antecipação, o bluff e a cooperação. Este ambiente também lhes incute valores positivos, confiança e inocência e, ainda que esta última seja quebrada de forma rápida e horrorosa, cada uma das crianças vai desenvolver diferentes estratégicas psicológicas para lidar com a mudança da sua realidade. Até porque se percebe que o carinho e a atenção que recebiam faziam parte não só da estratégia de controlo, como de tornar os seus cérebros mais apetitosos para serem consumidos.

Mas a série não mostra a história apenas da perspectiva das crianças. Nalguns episódios, ocasionais, percebemos o lado dos monstros que devem consumir carne humana para manterem as suas características mentais e físicas. Também os monstros possuem uma cultura e uma religião, e também eles são manipulados pelas famílias reais que, através das quintas mantém o controlo sobre a população. Na verdade, os monstros não são propriamente maléficos, mas constituem famílias e procuram sobreviver.

Na sua globalidade, The Promised Neverland é uma série que oscila entre a preparação de planos (e a antecipação de situações de confronto) e os confrontos ou fugas. Esta oscilação permite o desenvolvimento de uma tensão constante, e mesmo quando o grupo parece descansar e encontrar uma nova harmonia percebemos que esta é apenas temporária, uma ponte até ao próximo conflito.

A preparação de planos desenvolve-se sobretudo com inteligência e moralidade, aspecto que é constantemente destacado na série. Até porque pouco é simples e mesmo a figura materna irá revelar uma complexidade peculiar, demonstrando que, também ela, é uma engrenagem de uma máquina opressora a que poucos podem escapar.

Ainda assim, a série não apresenta um tom constante. A tensão existente no orfanato para a preparação da fuga apresenta um jogo psicológico tenso e complexo. Após o orfanato, apresenta-se uma fuga mais física, ainda com o estabelecimento de planos, mas, de forma global com menor foco no jogo psicológico. Existirão momentos em que retornamos a este jogo, mas não de forma tão claustrofóbica. O desenvolvimento da série também não é constante. Existem volumes no meio que pouco trazem ao enredo global, ainda que os finais pareçam algo apressados no fecho das várias pontas, com várias reviravoltas e contra-reviravoltas. O desfecho é satisfatório (e pelo menos estranho) mas não excelente.

Em suma, ainda que considere uma boa série de mangá (com um final em vinte volumes, o que não sendo propriamente pouco está muito longe das dezenas de volumes de algumas séries), na sua globalidade, julgo que existem elementos que poderão ter sido melhor planeados para distribuir de outra forma as revelações, e melhorar a coerência do tom ao longo da história. É, no entanto, uma série aconselhável.