La Francesa – Carlos Trillo e Pablo Túnica

Carlos Trillo é o autor de O Último Recreio, e Spaghetti Bros, que encontramos, aqui, em La Francesa, num tom bastante diferente – quase tão tráfico como O Último Recreio, mais sério do que Spaghetti Bros, leva-nos aos anos 30, mais propriamente à cidade de Buenos Aires, mas centra esta visão nas prostitutas polacas que aqui se sustentam. Ou melhor. Centra-se numa prostituta polaca em específico.

A história

Albert Londres terá sido um jornalista e investigador francês que se terá tornado conhecido pelo jornalismo investigativo. Entre as suas obras encontra-se um livro, El Camino de Buenos Aires, onde trata do tráfego humano de mulheres brancas. O autor, Carlos Trillo usa esta personalidade histórica para apresentar o caso que o jornalista teria registado no seu último caderno – um escândalo que envolveria diversos países e cujas notas se perderam num incêndio.

No livro, Albert Londres encontra-se a bordo de um barco e acaba por contar os detalhes que envolvem a vida de Mireille, uma prostituta peculiar que é adorada por todos os seus clientes e, especialmente pelo lucro que traz ao proxeneta. Albert Londres terá conhecido a jovem no seguimento das suas investigações sobre tráfego humano, sobretudo polacas que são atiradas para esta vida em Buenos Aires.

Um pouco diferente das demais, Mireille é alvo de atenções variadas e recebe, até, aulas de francês. Mas serão, também, estas atenções variadas que a fazem suspeita de homicídio quando um dos seus clientes é encontrado morto. Havendo uma prostituta como possível suspeita, o caso policial é quase automaticamente encerrado – mas um grupo de homens irá tentar provar a sua inocência.

Comentário

La Francesa contrasta miséria e luxo. Por um lado, estas mulheres são comercializadas, usadas e alugadas como produtos, por outro, os proxenetas que as comercializam vivem no luxo, bem como alguns dos seus clientes. Sem controlo do seu próprio destino, estas mulheres estão na base da sociedade, sem direitos nem dinheiro próprio.

Mesmo Mireille, considerada, nalgumas circunstâncias, uma mulher diferente e, até, algo valiosa, é controlada, usada e manipulada como um objecto. Restam-lhe as fantasias e as paixões, ainda que não seja a única a manobrar a realidade. Alguns homens crêem-se amados e a própria Mireille alimenta uma paixão impossível, enquanto o próprio proxeneta tenta transformá-la em algo que não é, através das lições de francês.

La Francesa é, conforme se deixa perceber pelas primeiras páginas, uma história de desgraça. Albert Londres é uma personagem que consegue criar empatia com as prostitutas afim de perceber as suas circunstâncias, mas os excessivos interesses em torno de Mireille criam tensões e conflitos que vão tomando crescente importância na narrativa.

Existe, sobretudo, um comentário social. Esta cidade que conhecemos foi corrompida e nem uma mulher sonhadora e, até, pura (em sentimentos) como Mireille consegue sobreviver a todos os interesses e egoísmos que a rodeiam. Ainda assim, a vida no Porto é bem pior, para as que daí subsistem – e ela própria o sabe.

A história apresenta-se enquanto narração de Albert Londres, que explica o caso a um conhecido. Mas este caso torna-se uma investigação quase policial. A fim de explicar a inocência de Mireille, Albert Londres e outros homens dedicam-se a tentar perceber as circunstâncias que levaram à acusação da prostituta, desvendando interesses económicos e políticos.

Ainda que a história se tente passar como uma investigação jornalística fictícia de Albert Londres, explora as personagens envolvidas o suficiente, criando motivações e enredos, de forma a criar alguma ligação com o autor. As personagens apresentam-se expressivas e cativantes, levando-nos a tentar perceber o que lhes vai acontecer, ainda que sem ocuparem um lugar de elevado destaque emotivo.

Talvez por tentar apresentar estes variados pontos, é uma leitura interessante, mas tem momentos mais pausados do ponto de vista narrativo, com momentos de maior exposição de texto e menos acção, enquanto se discutem pistas e desejos. Esta forma de expor torna a leitura mais lenta, obrigando-nos a algumas paragens na leitura.

Conclusão

La Francesa é uma boa leitura tanto pela forma como explora as personagens nos anos 30, em Buenos Aires, como pela crítica social, usando uma personalidade da investigação jornalística para expor a realidade das prostitutas polacas. A história consegue transmitir a crítica social, mas, também, apresentar personagens que tomam o palco do interesse narrativo. Sendo uma história de boa qualidade, não se torna, a meu ver, excelente, pelo passo mais leito que alguns trechos tomam.

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