Os bebés da água – Charles Kingsley

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Os Bebés de Água é um daqueles livros que me despertou curiosidade a partir do momento em que soube do seu lançamento pela Tinta da China. E apesar de poder bastar saber que se trata de um lançamento da Tinta da China, tanto a sinopse como as imagens interiores me indicaram de que seria um livro de que iria gostar bastante. Não errei.

Único livro de Charles Kinsgley disponível no mercado português (apesar da extensa obra do autor) é claramente um reflexo da época em que foi escrito, a meio do século XIX, constituindo um exemplo curioso que intercala pensamentos bastante evoluídos com outros simplesmente tacanhos. Se por um lado possui noções preconceituosas para com alguns grupos sociais ou culturais, constitui, também, uma sátira à receptividade da obra de Charles Darwin, A Origem das Espécies, que apoiava publicamente, e uma crítica clara à exploração do trabalho infantil.

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Visando um público mais jovem, é uma boa leitura para adultos com aspectos deliciosos que permitem várias interpretações das aventuras da personagem principal, um limpa-chaminés que se vê perseguido. Chamado de ladrão em consequência da sua condição social, é recolhido pelas fadas que o transformam num bebé de água, quase invisível aos humanos. Pouco habituado à água, terá de se habituar aos novos companheiros, seres aquáticos com quem partilha o dia-a-dia.

Longe do patrão, única pessoa adulta que o acompanhava e explorava, Tom afasta-se finalmente da decadência perpétua que o esperava na condição de limpa-chaminés. Mas nem por isso se torna num rapaz bondoso e altruísta. Habituado a tareias contínuas e maus exemplos do patrão, Tom cede demasiadas vezes ao desejo de fazer partidas aos outros animais, ainda que vá sendo, lentamente, educado pelas fadas.

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Aproveitando o meio aquático o autor vai descrevendo algumas das espécies que vivem nos rios, concedendo-lhes sentimentos e classes sociais que desenvolve em pequenos episódios satíricos, misturando destino bem merecido com alguma possibilidade de evolução, mas sem deixar de lado alguns preconceitos próprios da época.

Apesar do seu papel irónico, os elementos fantásticos são bastante interessantes permitindo várias leituras do texto, sem que a narrativa se torne desnecessariamente complexa. Entre os vários episódios carregados de simbolismo destacaria o dos salmões, orgulhosos das suas viagens sazonais, e o da ave que sabe que se irá extinguir.

Em suma, uma obra que, contendo várias camadas interpretativas, possui uma primeira história interessante e aparentemente inocente mas que, analisada revela episódios bastante sarcásticos quer à sociedade, quer à rígida classe académica. Sem dúvida uma das melhores leituras dos últimos tempos.

4 pensamentos sobre “Os bebés da água – Charles Kingsley

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