Ainda que Membranas tenha sido lançado originalmente em 1995, só em 2021 parece ter ganho fulgor no mercado anglosaxónico, sendo lançado em Portugal em 2025. Apesar da data original de lançamento, trata-se de uma história de ficção científica que é bastante actual e que ressoa com outras obras mais recentes – tanto na apresentação de um mundo pós-apocalíptico pelas alterações climáticas, quer pela vertente tecnológica e abordagem.

A história leva-nos ao final do século XXI apresentando-nos uma humanidade que passou a viver no fundo dos oceanos, como forma de se proteger da luz solar que fustiga a superfície da Terra. É nesta realidade que conhecemos uma jovem esteticista, Momo, que, após alguns prémios, é uma das mais conceituadas e procuradas. Mas ao contrário das suas parceiras de profissão, não procura as companhias VIP, preferindo uma vida pacata, quase sempre fechada no seu estabelecimento, e tendo apenas como animal de companhia um cão ou os ocasionais clientes.

Ao longo da história, a personagem vai explorar o seu passado e respectivos traumas, começando com deambulações que, por vezes, se tornam algo repetitivas, avançando um pouco mais em cada iteração. De repetição em repetição vão-se aprofundando as circunstâncias do seu crescimento e do afastamento da mãe, que não vê há vinte anos – por um lado porque na rebeldia adolescente decide pela sua própria autonomia, por outro porque a mãe parece demasiado focada na sua carreira.

O mundo exposto é peculiar. Os seres humanos ter-se-ão habituado a viver nas profundezas marítimas, mas esta habituação traz alterações sociais, psicológicas e físicas, como membranas em redor da pele, e comunicações constantes através da tecnologia – característica que, agora sabendo da década em que foi escrito o livro, ressoa com a sociedade actual. Existe, também, de alguma forma, uma relação diferente com o corpo, com a possibilidade de gerar entidades para a substituição de partes corporais. Trata-se, também, de uma sociedade aparentemente bastante superficial, havendo um largo foco no aspecto e na projecção social, elementos que poderão estar exacerbados devido à profissão da personagem e ao consequente foco nos procedimentos estéticos.

Durante a exploração do passado a narrativa apresenta outros temas, simultaneamente mais indirectos mas mais basais, como a aceitação do corpo, com a personagem a sofrer mudanças físicas consideráveis, um género de trauma que retorna cada vez que olha para o dedo operado. Com os avanços tecnológicos, o corpo é visto como algo mutável e transformável, criando-se inclusive seres descartáveis para o fornecimento de peças orgânicas e assim perpetuar a vida humana. Mas claro que tal só é possível através de elevadas somas de dinheiro.

Apesar de apresentar um futuro peculiar, o foco da narrativa encontra-se na personagem e na sua vivência, aparentemente banal mas que se transforma com as informações finais. O mundo aquático é o contexto onde decorre, e a justificação para a apresentação desta sociedade como uma derivação meio doentia e pouco natural. Estes detalhes são subtis, existindo um certo juízo que parece nunca ser expresso, mas que se sente em pequenas reacções e pequenas indicações ao longo do texto.

Em suma, Membranas é um livro que começa como uma história delicodoce de contornos lamechas, focada numa personagem desinteressante, mas que se transforma em algo totalmente diferente nas últimas páginas – a reviravolta é de tal ordem que dá vontade de reler para rever alguns detalhes.