Não li o famoso The Martian, afastada do sucesso estrondoso e das enormes expectativas (aliás, acho que sem querer, já sei os pontos principais da história, tantos foram os comentários em todo o lado). Em compensação, li Artemis. Estando este Projecto Hail Mary a ter grande sucesso, antes que se torne um segundo The Martian, resolvi pegar-lhe. Também foi decisivo o facto de ter sido lançado em português pela Cultura (ainda que existam fabulosas edições em inglês).
Na realidade aqui apresentada (que inicialmente é semelhante à nossa), o Sol está a produzir cada vez menos energia. As variações são diminutas, mas exponenciais, percebendo-se que não demorará assim tanto tempo até que a vida na Terra seja afectada e, claro, consequentemente os seres humanos. Uma expedição consegue captar algo que poderá ser a causa do fenómeno, um género de células capazes de se alimentar da luz solar, e que se reproduzem viajando entre planetas.
Ryland é um professor de ciências. Ex-cientista, afastou-se depois de defender que a vida é possível sem ser baseada em água, opondo-se portando ao conceito de zona habitável que indica que só uma pequena parte dos planetas poderiam albergar vida, por terem de possuir água em estado líquido. Mas será exactamente esta posição que o levará a ser chamado para investigar as entidades (astrófagos) que estarão a causar a redução da luz.



Anos depois, acorda numa nave espacial, sem memórias, e preso a uma marquesa, questionado por um computador sobre dados básicos sobre si próprio (como o nome). Depois de se conseguir libertar das pinças cuidadoras, percebe que é o único ser humano vivo, sendo que os seus companheiros morreram. A partir daqui a narrativa vai alternar entre a missão e os momentos passados, conforme a personagem vai recuperando, lentamente, as memórias.
A missão deverá levá-lo ao sistema Tau Ceti onde os astrófagos existem, mas estarão em equilíbrio e não causam danos significativos à quantidade de luz da estrela. Aqui depara-se com outra surpresa – a existência de uma outra nave, alienígena, onde estabelecerá o primeiro contacto com uma espécie inteligente – mais do que contacto, os dois irão cooperar para tentar salvar os respectivos mundos dos astrófagos, estabelecendo-se uma relação de parceria e, até camaradagem – Rocky, o alienígena, é um engenheiro capaz que complementam.
A narrativa centra-se apenas em Ryland, um homem de humor peculiar, um bom ser humano apesar dos seus pontos fracos. Felizmente, um cientista com uma vasta cultura científica, o que vai levá-lo a estar na missão e a conseguir tecer teorias e experiências em torno dos astrófagos. Mas não só. Também em relação aos vários problemas que vão surgindo durante a viagem e a pesquisa, aplicando conhecimentos de química e de física. A excessivo foco numa personagem pode ser prejudicial nalgumas narrativas, mas aqui é combinado com a contínua resolução de problemas, e com os saltos temporais, conforme a personagem recupera as suas memórias.



Paralelamente, estes saltos temporais e a sucessão de novos problemas são exactamente os pontos que conferem novidade constante e movimento à narrativa, com novas preocupações e tensões narrativas. Nas memórias desenvolvem-se, também, algumas tensões nos relacionamentos e nas frustrações com seres humanos – questões que, curiosamente, parecem surgir menos na parceria que a personagem vai estabelecer com o alienígena. Estas tensões vão sendo balanceadas com o humor peculiar de Ryland, por vezes com tiradas sarcásticas, sobretudo nos momentos mais perigosos.
Entre Ryland e Rocky estabelece-se uma parceria e um espírito de camaradagem que evoluem para amizade. Possuindo visões científicas diferentes e competências distintas, cooperam e combinam-se para resolver a maioria dos problemas teóricos e práticos que vão surgindo, apesar das diferenças biológicas. Rocky é um alienígena com necessidades biológicas bastante diferentes, sem visão, e, consequentemente, proveniente de uma civilização com tecnologias e materiais curiosos, factores que vão contribuir para a criação de várias soluções.
Apesar do sentido de urgência constante (os planetas de Ryland e Rocky têm um limite de sobrevivência até que seja encontrada uma solução para os astrófagos) a narrativa apresenta uma abordagem optimista – tanto na forma como se conseguem arranjar soluções no planeta terra, como pelo desenvolvimento de uma cooperação entre duas espécies tão distintas (e sem lugar a desconfianças, mal entendidos perigosos ou sentidos de superioridade, o que se calhar pode ser demasiado esperançoso para um primeiro contacto).



Nomeado para o prémio Hugo, Projecto Hail Mary é, assim, uma leitura ritmada, bem disposta, e envolvente, que fascina, quer pelo constante desenvolvimento de problemas e soluções, como pela criação de uma espécie parasita das estrelas, e de uma civilização alienígena interessante. Outro dos pontos de destaque é a personagem principal, um homem que acaba numa posição heróica mas que é, na prática, um cobarde e uma pessoa falível (e capaz de várias decisões estúpidas, sobretudo quando não dorme adequadamente). O resultado é uma leitura que se torna mais ligeira do que seria esperado, onde a tensão é bem balanceada pelo humor e optimismo, aconselhável a quem deseja um page turner de ficção científica.
