Depois de quase 50 livros lidos, quase todos de ficção científica e fantasia, eis que chegou aquela altura do ano em que paramos para reflectir um pouco sobre a qualidade das leituras. Há alguns clássicos, mas também há algumas novidades. Entre ambos, existem as leituras de conforto, aquelas que são mais fluídas e aconchegantes, mais fáceis de avançar em época de trabalho. Já para as férias, prevejo, como é habitual, pegar nalgumas leituras mais densas.

Comecemos com os clássicos de ficção científica. We who are about to… é, como seria de esperar para Joanna Russ, um livro pouco tradicional, ainda que parta de uma premissa comum a tantas outras narrativas. Quando uma pequena nave se despenha num planeta isolado, longe das restantes colónias humanas, a esperança de um salvamento é muito baixa. Se, na maioria das narrativas deste tipo há alguns seres humanos positivos, com múltiplas capacidades para ultrapassar qualquer problema que surja, aqui temos um conjunto de seres humanos pouco dotados, mas convencidos em criar a próxima colónia terrestre apesar da limitada variedade genética disponível. Nem que seja à força – perspectiva que a protagonista não partilha, passando desta forma a ser vista como alguém psicologicamente perigoso para os restantes membros do grupo.

Rendez-vous com rama é uma história de ficção científica peculiar. Sem apresentar grandes conflitos, é antes uma exploração onde a proximidade de um objecto, nitidamente alienígena leva ao desenvolvimento de uma missão para obter informação desse objecto. No entanto, este objecto é uma nave imensa, redonda, um género de planeta invertido, onde existe todo um ecossistema complexo automatizado. A narrativa explora sobretudo o sentido de descoberta, o heroísmo da missão e do atrevimento perante o desconhecido, afastando-se de alguns padrões literários no seu desenvolvimento e possuindo um final pouco conclusivo.

Os dois clássicos de fantasia que gostaria de destacar apresentam, simultaneamente, elementos tradicionais, mas quebras curiosas em relação ao que seria habitual. Em Knight’s wyrd a narrativa centra-se num jovem nobre, de intenções honradas, que acaba de ser feito cavaleiro. O destino que lhe é lido dá-lhe uma escolha dolorosa, mas decide seguir o caminho honrado e enfrentar a morte. Neste seguimento resolve conhecer a sua prometida, para a libertar de um futuro de jovem viúva. Acompanhado dos seus amigos, a demanda leva-o a enfrentar magias sombrias e nobres traidores. A história inova em elementos pouco esperados quando desenvolve perspectivas pouco usuais, dando espaço para a perspectiva do povo e das mulheres, e mostrando a vertente déspota de alguns nobres, afastando-se da visão romântica das histórias de cavaleiros e donzelas que são salvas num cavalo branco.

Também Travel light surpreende pela abordagem e pela personagem principal. Neste caso de forma bastante diferente do Knight’s Wyrd. Um rei abandona a filha do casamento anterior ao unir-se com a nova rainha. A criança acaba por ser criada por ursos e dragões desenvolvendo uma forma muito peculiar e de resolver os problemas com os quais se depara. Não é uma leitura movimentada e sempre entusiasmante, mas a narrativa desenvolve possibilidades tão estranhas que se torna fascinante.

No mercado nacional destaco o vencedor do prémio Ataegina, Coisas Ruins de João Zamith. É uma história que se enquadra no género horror, que se desenvolve no interior de Portugal, usando algumas referências locais e o horror das criaturas sobrenaturais. A história está carregada de tensão e antecipação, que vai sendo construída de forma competente.

Libertem os velhos é uma distopia de autoria portuguesa, lançada pela Editorial Divergência, que nos leva a um futuro provável onde tudo é controlado por algoritmos e o poder dos youtubers é de tal ordem que facilmente podem cancelar a vida de alguém e torná-lo um pária. É o que acontece a um rapaz que, no dia do lançamento da sua grande campanha publicitária é confundido com outra pessoa com o mesmo nome e rapidamente perde tudo – emprego, casa, namorada, amigos. Para além da facilidade com que uma pessoa é julgada por actos que não cometeu, a narrativa mostra como os algoritmos podem estar ao serviço de corporações, levando a veredictos que os humanos deixam de questionar de forma crítica.

Eis três extraordinárias leituras de ficção científica! The Vanished Birds e Service Model estarão, sem dúvida, no top três do ano, sem que consiga escolher, por enquanto, um dos dois para encabeçar uma lista de melhores. Simon Jimenez é um nome que já andava na minha lista de futuras leituras há algum tempo. Com o lançamento da edição da The Broken Binding decidi-me a lê-lo e é efectivamente um livro que merece todas as recomendações possíveis.

Nomeado para o Locus e para o Arthur C. Clarke, leva-nos a um futuro onde a humanidade deixou uma Terra decadente para colonizar outros planetas e explorar a imensidão do espaço. A história saltita entre várias personagens, o que permite ir construindo uma visão mais alargada dos acontecimentos, mas também criar ligação e empatia com cada perspectiva. The Vanished Birds funciona como um mosaico fascinante, que explora a humanidade na era da expansão intergaláctica – mas que também apresenta novas preocupações, resultantes da tecnologia. Apesar de ambicioso na sua concretização, pela exploração de várias personagens, consegue dominar a pluralidade resultante num relato emocionante, nostálgico e agridoce.

Sabendo que Adrian Tchaikvosky é um dos principais convidados da Eurocon 2027 (que vai decorrer em Lisboa), fui procurar livros do autor. Optei por começar com algo isolado, que não faz parte de uma série e, portanto, não me leva a uma série infindável. Este Service Model foi uma boa aposta, revelando-se um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Trata-se de uma sátira genial, quer à humanidade quer à automatização extrema, construindo uma crítica bem humorada (mas acertada), principalmente nestes tempos em que se pretende substituir tudo por uma inteligência artificial à qual falta a esperteza existencial.

Animais difíceis, o terceiro deste conjunto, é o mais recente livro de Rosa Montero lançado em Portugal, sendo que continua a história de Bruna Husky. Sendo o quarto volume desta série já não apresenta o mesmo impacto inovador, no entanto consegue entregar dentro das expectativas com uma história de ritmo consistente, alternando episódios de investigação com outros mais pessoais, dentro de um contexto futurista, semelhante a Blade Runner. A narrativa foca-se, também, nas questões psicológicas de Bruna, sobretudo problemas de identidade, mas aborda questões sociais e económicas de uma sociedade controlada pelas grandes empresas multinacionais.

Agustina Bazterrica fez imenso furor com os livros Tender is the Flesh e The Unworthy. Ainda assim, dado os anunciados contornos de horror, optei por não os ler logo. O horror é um género que gosto ocasionalmente, mas diria que não vejo nada de especial na tentativa de horrorizar com detalhes gore. Mas o primeiro livro foi lançamento recentemente em português por uma pequena editora, pelo que optei por lhe pegar. Cadáver requintado (Tender is the Flesh) é fabuloso. Aconselho mesmo a quem não goste especialmente de horror, mas que goste de uma boa distopia – é uma leitura incómoda e desconfortável.

Trata-se de uma leitura brutal – tanto pela realidade que descreve, onde existem seres humanos criados como gado com o objectivo de produzir bifes (e outros derivados animais), como pela forma neutra e quase apática com que aborda as diferentes vertentes de consumo de produtos de origem humana. É de realçar os mecanismos de neutralização do horror que esta sociedade desenvolveu, utilizando a higienização do vocabulário para desumanizar estes seres humanos, objectificando-os.

Apesar de apocalíptico, este The First Thousand Trees é bastante mais leve enquanto leitura. Este volume fecha a trilogia Annual Migration of clouds, onde uma doença e as alterações climáticas levam à decadência quase total da civilização humana. A tecnologia quase deixou de existir, pelo menos para a maioria dos seres humanos. Existem, no entanto, algumas comunidades, umas mais rurais do que outras. Neste volume, um rapaz deixa a sua vila para procurar o tio, único sobrevivente da família, encontrando uma cidade caracterizada por regras duras, como forma de resistência aos vários grupos que tentam pilhá-la. A históri vai mostrar um novo modelo de sobrevivência humana e lançar as sementes para novas possibilidades.

Murder by memory não é o primeiro livro a cruzar crime com ficção científica, desenhando uma investigação num cenário futurista. Também não é um livro soberbo. Ainda assim destaco-o como uma boa leitura, relativamente concisa, que joga com vários conceitos tecnológicos para criar uma história sólida que não se perde em detalhes. A escrita é limpa, relativamente directa, mostrando como, numa nave que tem como objectivo a futura colonização de um planeta, a vida dos seres humanos é estendida recorrendo a corpos clonados e bibliotecas de memórias. A autora resolveu o problema das longas viagens interestelares sem recorrer a longos sonos ou novas gerações de seres humanos, mas todos estes detalhes são cenário para a execução e investigação de um crime.

Depois de Service Model, resolvi pegar numa história de fantasia de Adrian Tchaiskovsky. Este Precious Little Things é uma pequena história que decorre no mesmo Universo que Made Things e antecede-o cronologicamente. E ainda que tenha gostado bastante de Made Things, achei este Precious Little Things bastante mais genial apesar de diminuto. A história apresenta-nos um pequeno povo de homúnculos, pequenos seres de madeira e outros materiais que criaram uma civilização muito própria e que se expandem agora pelo mundo dos humanos. Precious Little Things apresenta os acontecimentos que antecedem esta expansão e destaca-se pela forma formidável como se apresenta em conto.

Ainda não tive oportunidade de falar detalhadamente deste Making History de K. J. Parker, mas é uma leitura formidável e engenhosa. Num outro mundo, um Imperador pretende iniciar uma guerra, mas não tem justificação histórica ou diplomática para conquistar os vizinhos. Pede então aos seus melhores pensadores que inventem uma cidade que pareça antiga e cujos artefactos falem de uma quezília antiga que pode justificar um ódio presente. A personagem principal, um sacana especialista em idiomas, desenvolve uma linguagem própria – mas como justificar que outros saibam a linguagem que ele inventou e que só ele devia reconhecer?

Depois de The River has Roots e This is How you lose the time war, Amal El-Mohtar tornou-se uma autora de referência que irei manter debaixo de olho. Este Seasons of Glass and Iron reúne várias histórias da autora, muitas delas com raízes tradicionais tanto no desenvolvimento como na expressão. Algumas são excepcionais em ambos os aspectos, outras mais na forma como as palavras ganham musicalidade e outras mais em conteúdo. Ainda que não tenha gostado de todas de igual forma, o resultado é sem dúvida excepcional.