Esta série, lançada em Portugal pela Asa, leva-nos à Coreia de 1929, um país sob ocupação japonesa, onde as influências ocidentais se fazem sentir, quer na disseminação do cinema e da música, quer, consequentemente, nos produtos que são comercializados. A narrativa centra-se sobretudo em dois jovens coreanos, dando-nos um vislumbre curioso sobre a forma como a ocupação se faz sentir e como as diferentes influências convergem numa amálgama peculiar, simultaneamente fascinante e criticada.

A narrativa centra-se em dois jovens, de condições económicas bastante diferentes, mas que vivem em proximidade. Arisa é a filha única de um comerciante de posses que cresceu com todas as mordomias. Tal como outras jovens, fala inglês e interessa-se pelos hábitos ocidentais, incluindo música e cinema. O crescimento privilegiado fá-la ter alguma rebeldia, questionando o que a rodeia de forma despreocupada – até demasiado em algumas circunstâncias.

Por sua vez, Jun vive na mesma casa, acolhido com a mãe pelo pai de Arisa. A família caiu em desgraça, e Jun pode estudar graças à beneficência do seu benfeitor que, não tendo filhos homens apoia a sua educação. Este jovem apresenta valores mais tradicionais e ligados às raízes coreanas, contrastando com a perspectiva de Arisa e surpreendendo-se com as novidades que teimam em chegar à cidade.

As duas perspectivas convivem e possibilitam um vislumbre sobre o conflito social que existe na Coreia. Não deixando de ser um país ocupado (e percebemos a meio que tal se faz sentir nas interacções de respeito para com os invasores, com uma aura de perigo) vai mostrando como os jovens são expostos às diversas influências e como desenvolvem um cruzamento de culturas e valores peculiares – parcialmente baseado nos valores coreanos, mas com idiossincrasias ocidentais.

Numa componente mais pessoal, a narrativa explora também a forma como os dois jovens interagem – um misto de proximidade e afastamento, com Jun a ter uma perspectiva mais respeitadora e conservadora, sobretudo frente à personalidade mais moderna e provadora de Arisa. Sendo de idades próximas e vivendo na mesma casa, existirão comentários dos colegas, mas que ambos parecem navegar, apesar de alguns constrangimentos.

Estes dois volumes de Os Filhos do Império revelaram-se uma leitura fascinante, não só como relato histórico de um país ocupado pelo Japão, mas como exploração cultural, percebendo-se o confronto de culturas e de costumes. O desenvolvimento das personagens é, também adequado, apesar de revelar algum afastamento sobre aquilo que realmente pensam e desejam – algo que deve ser interpretado pelos leitores, através da subtileza nas interacções.