Depois de alguns anitos sem publicarem nada que não fossem as séries em curso, ou autores consagrados no mercado nacional, eis que a Asa tem lançado alguns livros, sobretudo franco-belgas de qualidade razoável, até excelente. Considero que este Os Cabelos de Édith é dos melhores lançamentos da editora para este ano, surpreendendo quer pelo tema e desenho, quer pelo desenvolvimento e abordagem narrativa.

A história leva-nos a Paris, a Maio de 1945, logo após o térmico da Segunda Guerra Mundial. Mas o foco não está na Guerra, ou na vivência nos campos de concentração, antes no que acontece depois, ou seja, como os sobreviventes dos campos são enquadrados na sociedade. Este retorno não será fácil. Não só por conta das mazelas físicas, mas sobretudo pelas mazelas psicológicas, pelos traumas provocados pela existência nos campos, pelo terror dos carcereiros, e pelas mortes a que assistiram.

Louis é um estudante. Um rapaz que se decide a ajudar no hotel que acolhe os sobreviventes dos campos de concentração. Aproximam-se os exames escolares, mas Louis compromete-se, mesmo contra a vontade dos pais – oposição que provoca um forte desentendimento com a figura paterna. Enquanto o pai pretende esquecer a interacção com os invasores, a que foi remetido para garantir a sobrevivência, Louis sente vergonha dessa situação familiar, e envolve-se, ajudando no hotel.

A realidade dos sobreviventes é peculiar. No hotel é-lhes dada alimentação e guarida, mas por tempo limitado. Após estes dias de paz deverão procurar quem os acolha na sociedade, lançados nesse momento à normalidade, como se os momentos de terror constante nunca tivessem existido. Nem todos, claro, conseguem ultrapassar imediatamente o trauma. Édith é uma dessas pessoas, incapaz de interagir numa fase inicial, mas que vai ultrapassando algumas resistências com a ajuda de Louis.

O foco neste momentos de retorno permite explorar várias vertentes que raramente vi abordadas. Por um lado, a população francesa, em solo ocupado pelos nazis, passou pelas suas próprias privações e terrores, controlo de bens de consumo e de primeira necessidade. Esta vivência faz com que alguns estejam reticentes quanto à ajuda que é prestada aos sobreviventes dos campos de concentração. Por um lado pelas próprias dificuldades vividas, por outro porque não acreditam totalmente no terror descrito. Existe, também, quem, numa primeira instância ajude, inclusive no hotel que acolhe os sobreviventes, mas que não aguente o confronto com a realidade. Por outro, existem alguns que se aproveitam desta ajuda, fingindo ser, eles também, sobreviventes do holocausto.

De forma global, o foco parece estar em tentar esquecer e voltar à normalidade. Os ocupados procuram esquecer o que tiveram de fazer para sobreviver, e pretendem ultrapassar o que aconteceu. O confronto com a realidade dos sobreviventes do holocausto fá-los retornar ao que viveram, e perceber que existiram horrores perpetuados fora da sua vista, o que é difícil de compreender e de aceitar. Até porque os próprios franceses tentam ultrapassar os traumas pelos quais passaram durante a ocupação.

Numa perspectiva mais pessoal, Louis, sendo novo, confronta-se com a vergonha pela sobrevivência, sem perceber que também o pai teve de tomar decisões difíceis, com as quais vai ter de se conciliar. O crescimento fá-lo ter a sua própria perspectiva, e tomar decisões pelo que acha certo, rebelando-se com as decisões paternas. Louis não só tenta ajudar, mas também acompanhar, passando a fazer, de forma indirecta, parte da memória colectiva dos sobreviventes.

O resultado é uma obra sensível às diferentes perspectivas, mas extremamente envolvente e empática, que se destaca pelo foco numa época pouco retratada, e na forma como os seres humanos tentam voltar à normalidade, depois de um acontecimento brutal do ponto de vista humano. É uma leitura aconselhável e, novamente, um dos melhores lançamentos da Asa para este ano, até ao momento.