Eis um livro que, não fossem as várias recomendações em páginas especializadas, facilmente me passaria despercebido. Tanto o título como a capa recordam manuais de física teórica (ou análise matemática). Como tal, só percebi que o livro tinha sido lançado em Portugal pela Relógio d´’agua após a aquisição do primeiro volume em inglês. Entretanto, o segundo encontra-se também já lançado no nosso mercado.

A história parte de uma premissa comum a várias outras narrativas, como Groundhog day, em que uma personagem, Tara, se vê a viver o mesmo dia indefinidamente. Trata-se de um dia que a personagem diria comum a vários outros, onde apanha o comboio para ir a Paris, por forma a comprar livros ilustrados de colecção, para enriquecer o catálogo para um conjunto restrito de clientes. O negócio é do casal, sendo que normalmente é ela que viaja e adquire novos livros, e ele que fica e trata de outras burocracias necessárias.

Depois de perceber a repetição nos mais ínfimos detalhes, Tara procura estuda o ciclo, procurando formas de o quebrar. Por vezes envolvendo o seu companheiro (explicando-lhe o que está a acontecer), ora explorando as imediações sozinha. Mas quantos mais dias passam mais distante se encontra – por um lado, é mais complexo explicar o que tem feito depois de 50 dias iguais, por outro, o corpo de Tara não parou no tempo, continuando a crescer o cabelo e as unhas e cicatrizando qualquer lesão que faça.

Com base nas experiências de Tara percebemos que o fenómeno é mais complexo do que é usual noutras narrativas. Ainda que viva todos os dias o mesmo dia e que os restantes não o recordem, verificam-se impactos no mundo que os rodeia. Existem objectos que aparecem em locais diferentes de um dia para o outro e os alimentos que compra na mercearia não retornam às prateleiras no dia seguinte.

Ao se aperceber da forma como a sua existência ao longo dos vários dias repetidos impacta os que a rodeiam Tara vai-se sentindo um monstro. A sua consciência da situação coloca-a numa situação única que a isola dos restantes. Nos poucos dias em que conversa com o companheiro e explica a situação ainda se sente algum companheirismo, mas com o passar do tempo distancia-se psicológica e fisicamente da existência de outra pessoa na casa que habita. O companheiro permanece o mesmo ao longo de todos os dias. Tara evolui com a sua experiência – mais ninguém acompanha a passagem do tempo, e consequentemente, a evolução de Tara.

Ainda que a premissa possa ser considerada de ficção científica, a narrativa não explora o fenómeno do ponto de vista científico. Tara faz experiências práticas para perceber os detalhes do que está a acontecer, mas não há um estender de hipóteses científicas. Neste primeiro volume chegam-se a algumas conclusões, mas permanecem muitos mais mistérios em relação à situação.

O ritmo da história é pausado. Apesar da repetição dos dias não decorrem acontecimentos mirabolantes ou loucos. Tara tem uma abordagem inteligente e cautelosa, bem como introspectiva. Mas se, no início, tem vontade de explorar e de fazer experiências, com o decorrer das repetições denotamos que o tom é menos entusiasmante, existindo antes o foco num objectivo vago que talvez explique ou resolva a situação.

Como leitura, On the calculation of volume é intrigante. O fenómeno é percebido (e, conforme realçado anteriormente não é a primeira vez que é explorado em ficção) mas apresenta detalhes que se distanciam. A personagem descreve o seu quotidiano e a forma como tenta perceber e adaptar, mas prossegue mais num percurso de acomodação conforme vai sentindo o isolamento crescente. O resultado é um bom livro, mas terei de prosseguir pelos restantes para perceber o que está a acontecer.