
Eis um dos recentes lançamentos da Ala dos Livros. Trata-se de uma história peculiar, de visual esplendoroso, que ingressa em detalhes mais exotéricos ao empreender uma incursão desafiante, mas que se apressa um pouco no final, fechando de forma não totalmente satisfatória. É, ainda assim, uma das grandes leituras deste ano, carregado de excelentes obras.
A história leva-nos a Praga, ao ano de 1938, onde se sente a vaga de antissemitismo que corre pela Europa, com a ascensão de Hitler. A personagem principal é Coral, uma jovem de origem judaica que trabalha num circo, enquanto cuida do pai que odeia, mas que está incapaz de percepcionar o que o rodeia. Coral destaca-se por conseguir ver o Diabo há alguns anos, percebendo-se que o mesmo estará preso, sem conseguir voltar ao Inferno.



Com a subida de Hitler, há quem procure apoderar-se de antigos segredos judaicos, como a formação de um Golem, de forma a conquistar poder nesta Europa confusa. Mas estes antigos segredos irão relacionar-se com a família de Coral, mais concretamente com o pai, anteriormente reconhecido pelas suas capacidades mágicas.
Ainda que a história vá apresentando um tom mais leve nalguns momentos, o cruzamento da história com o legado familiar resultam nalguns momentos mais pesados, onde se percebe o clima da época, e onde se exploram as componentes mais herméticas e alquímicas da mitologia judaica. O fantástico mistura-se com a história, apresentando múltiplas referências à época e à tradição, e conferindo uma aura de estranheza que impregna o fluir dos acontecimentos.



Um dos aspectos mais positivos é a criação de personagens e de empatia para com elas. Ou, pelo menos, compreensão. Coral odeia o pai. Tal terá sido resultado de um episódio numa época mais juvenil que não terá compreendido totalmente. O pai passou a ser visto como uma figura negra, mas, sem capacidade de se expressar, não consegue explicar-se e defender-se desta percepção. Já o Diabo, argumentador astuto, aparece, por vezes, quase como uma figura engraçada, com interacções peculiares com Coral, sendo uma personagem acessível e compreensível – factor que o transformará, sobretudo no final, numa personagem mais fraca do que fazia crer, um “mero” negociante. Estas duas personagens, Coral e Diabo, irão constituir o centro da dinâmica, ainda que esta dinâmica se esmoreça no final.
Este esmorecimento é um dos factores que contribuem para um final menos satisfatório. Ao longo da narrativa encontram-se várias referências que não são totalmente utilizadas, uma dispersão que resulta na percepção de que existem várias componentes que deveriam, também elas, ser resolvidas. Ainda assim, é um álbum belíssimo e aconselhável, que poderia facilmente estar no topo das melhores leituras do ano, não fossem as obras excelentes que foram lançadas este ano. O desenho destaca-se tanto pela forma como contribui para a percepção das personagens (com expressividade) como pela apresentação de paisagens, jogos de sombras, e gradientes de cor que contribuem para desenvolver uma atmosfera diferente em cada uma das várias localizações. O resultado é visualmente excelente.


