Sobre o conto de fadas – Italo Calvino

 

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Sobre o conto de fadas reúne várias textos de Italo Calvino sobre o tema. O que tanto pode ser falado que ocupe um livro inteiro? Bem, desde derivações geográficas ou temporais, e famosos compiladores de contos (como os irmãos Grimm), nestes textos vai-se dando algumas luzes da extensa área dos contos.

No primeiro texto percebemos logo que o autor terá organizado uma extensa colectânea de contos italianos, recolhendo histórias ao longo das várias terras, e ajustando as várias versões do mesmo conto que encontrou para que o conto resultante fosse o mais representativo possível. Este texto será a introdução dessa mesma colectânea e no final fica a vontade de procurar o dito livro que conterá os contos – que pelo que pesquisei não se encontra publicado em português.

É constante a referência de Italo Calvino a uma contaminação constante das histórias, resultante das migrações existentes antes das recolhas. Por exemplo, em vários contos africanos aparecem elementos de mitologias europeias, mas como não houve um registo da história antes da contaminação, desconhece-se quando é que esses elementos terão sido incorporados.

Esta contaminação será um dos factores que dificulta ou, até, impossibilita, qualquer tentativa de definir um mapa temporal (evolutivo ou derivativo) entre os contos, ou de definir influências. Para demonstrar esta impossibilidade apresentam-se vários contos que alguns estudiosos tentaram definir como sendo versões originais, tendo sido prontamente refutados por existirem outros contos, de épocas anteriores, em locais distintos (por vezes noutros continentes) com elementos semelhantes.

É, também, esta contaminação que torna quase impossível definir uma origem geográfica do conto, até porque os elementos geográficos podem ir sofrendo alterações. Derivações ou fusões. Independentemente da forma como terão aparecido, os contos podem ser catalogados por tipos genéricos consoante elementos fundamentais como o aparecimento de criaturas mágicas, ou de figuras reais (que na prática podem corresponder ao senhor daquelas terras), ou expressando rivalidade entre terras (identificando as aldeias onde terão origem os avarentos ou os burros), entre outros.

Claro que é impossível falar de contos sem falar dos irmãos Grimm. Para além das várias referências ao tipo de trabalho que desenvolveram ao recolherem vários contos populares, existe um capítulo inteiro que lhes é dedicado, onde apresenta sucintamente a história dos irmãos, explicando as escolhas que fizeram aquando da colecta dos contos, escolhendo ou fundindo versões, ajustando e uniformizando o tom.  Mas não se fala apenas dos irmãos Grimm – existe também um capítulo dedicado aos contos da carochinha de Perrault, bem como várias referências a outras compilações conhecidas.

Meio de transmissão de moralidade, história ou simplesmente costumes, os vários contos têm origem, para alguns estudiosos, num único. Desta forma, existe quem se dedica a analisar e a isolar os elementos para tentar reconstruir o conto universal que terá levado à origem dos restantes. Teoria interessante mas, a meu ver, demasiado simplista para conseguir explicar o grande conjunto de histórias a nível universal.

Para além da divisão em tipos e apesar dos elementos comuns que podem ser encontrados em contos de zonas bem distintas, existem áreas geográficas que possuem elementos constantes em todos os contos. É o caso dos contos mantuanos que se centram em trabalhos herculeanos de agricultores de grande astúcia e características excepcionais. Por outro lado, os contos irlandeses encontram-se carregados de figuras fantásticas, sereias, duendes, gigantes ou lebrecães, que misturam o paganismo celta com diabos e santos. De realçar, também, o papel elevado dos bardos dos vários contos – figuras que criando e fazendo conhecer histórias, podem imortalizar os seus benfeitores se estiverem de bom humor.

Ainda sobre os contos de fadas dedica-se um capítulo onde se destacam os elementos comuns de toda a humanidade. Serão contos que poderão ser regredidos à pré-história, evoluindo elementos de acordo com as mudanças de vida da humanidade ao longo de milénios.

De elevado interesse para quem gosta de contos, sejam populares, de fada ou da carochinha, peca apenas por não se encontrarem publicados em Portugal os livros dos quais aqui lemos as introduções, ou sobre os quais o autor faz referência. Após a explicação de Italo Calvino referindo como compilou os diferentes contos italianos, seria interessante ler esses mesmos contos com o enquadramento fornecido. Com uma bibliografia farta, é uma introdução formal ao tema, sem chegar a cair no tratado académico.

2 pensamentos sobre “Sobre o conto de fadas – Italo Calvino

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