Madeline Miler é conhecida, sobretudo, pelos seus livros fantásticos onde usa a mitologia, pegando em personagens dos mitos para criar romances mais complexos e envolventes, como The Song of Achilles, Circe, ou Galactea. Tal como este último, Mestra é mais uma noveleta, uma história mais pequena publicada num livro de pequeno, mas agradável formato.

Mestra centra-se na filha do Rei de Thessalv. Tendo perdido praticamente tudo, o rei decide vender a sua filha a um homem de parcas condições (e moralidade), jurando-lhe a pureza da jovem para trazer os seus filhos. Mas Mestra terá tido um encontro infrutífero com Poseidon. Levada pelo homem, pede ao Deus que a acuda, passando a deter o poder de se transformar na pessoa que imaginar – neste caso, mais concretamente, num homem grande e pesado que assustará o suposto futuro marido.

Ainda que tenha sido vendida, Mestra retorna ao castelo do pai, esforçando-se por o ajudar, bondade que o rei retribui tecendo planos para a vender todos os dias, a troco de mais dinheiro, com o qual compra comida para tentar contornar a sua fome insaciável. Cada vez mais avarento e ambicioso, o rei definha física e psicologicamente, um efeito que parece ter tido origem numa afronta cometida contra uma deusa.

A história é mais curta do que o habitual, apresentando-se em menos de 70 páginas de formato diminuto, constituindo, ainda assim, uma narrativa fascinante, tanto pela descrição do rei ambicioso, como pela forma como a princesa desenvolve os seus poderes, resultando nos mais mirabolantes cenários e desfechos.

A história apresenta a aura dos mitos greco-romanos (e a forma como os deuses conferem os seus favores, tirando o que querem e apresentando soluções trágico-cómicas), ao mesmo tempo que desenvolve, em curto espaço, personagens, um contexto e um relacionamento abusivo, caracterizado pelo dever e pela dedicação. É uma leitura delicodoce, de contornos irónicos, que reflecte uma visão pouco favorável dos deuses do Olimpo.