James Islington tem feito furor com uma série recentemente lançada, iniciada com The Will of the Many (publicado em Portugal pela Kathartika como A Vontade de Muitos). Os dois volumes (The Will of the Many e The Strenght of the few) são dois calhamaços de tamanho respeitoso, pelo que, estando de férias, optei por pegar antes neste mais recentemente lançado, Scion – ainda que o próprio autor refira que se trata de uma narrativa mais movimentada e com um Universo menos complexo.

A história inicia-se a meio de uma luta corpo a corpo contra uma criatura futurista, resultado de engenharia genética, com múltiplos olhos e órgãos vitais em localização incerta. Quem o enfrenta é a personagem principal, um ser humano de capacidades artificialmente aumentadas, nomeado como Azure, que trabalha para uma grande corporação, aceitando assassinatos por contrato. Lesionado e em recuperação, após o confronto, é colocado numa missão bastante diferente do usual – tentar manter viva uma humana idosa, mas importante no mundo da genética molecular.

O mundo futurista de Scion apresenta características tipicamente cyberpunk, onde a tecnologia e a sociedade são controlada sobretudo por grandes empresas, detidas por accionistas. Neste caso, uma megacorporação mantém Azure em rédea curta, sabendo-se que terá pago pela sua recuperação num trabalho antigo e, desta forma, controla as missões onde é colocado. As capacidades artificialmente adicionadas foram-no pela empresa, que espera, através de Azure, obter uma contrapartida – até porque ele é dos poucos seres humanos compatíveis com um número elevado de manipulações possíveis.

Mas o controlo não vem apenas da gestão das dívidas e da tecnologia mecânica. O dinheiro determina o acesso a recursos básicos, mas também à extensão da vida, existindo uma substância que podem prolongar indefinidamente a vida, acessível apenas aos mais ricos (denominados por lifers). As empresas possuem fundos não só para aceder aos sonhos mais exóticos, mas também para controlar e manipular a opinião pública.

Adicionalmente, nesta realidade cyberpunk, ou biopunk, são possíveis alterações cognitivas e corporais. Azure é o caso mais evidente, com capacidades aumentadas. O monstro que enfrenta nas primeiras páginas é outro, um ser que não existiria na natureza e que é criado pelo ser humano. Durante a história iremos, também, ser apresentados a clones, bem como a animais elevados a uma espécie de senciência primitiva.

A história é sobretudo um thriller. A ameaça sob a vida da cliente de Azure faz com que exista uma tensão permanente, justificando uma sucessão de episódios perigosos, onde enfrenta assassinos, se desvia de bombas, ou a dupla foge em transportes pouco prováveis. Pelo meio vamos percebendo algumas questões sociais, ainda que estas não sejam o cerne da história – as desigualdades sociais, a violência, o abuso de substâncias numa sociedade distópica, em suma, o beco sem saída que esta sociedade aparenta ser.

Scion é, portanto, um thriller cyberpunk que cumpre as expectativas para o seu género, destacando-se pelo ritmo da acção e pela apresentação de um humor negro, apropriado, que ajuda a balancear a tensão narrativa. É uma leitura fluída e dinâmica, que consegue ter a profundidade suficiente na caracterização de personagens e desenvolvimento do mundo para ser consistente e aconselhável – ainda que ache que não vá ser inesquecível.