
Eis mais um livro de uma das minhas autoras favoritas. Quase que ia dizer tratar-se do mais recente, mas a autora já lançou outro entretanto, e até prevê lançar novo livro em Setembro. Ainda que a autora tenha algumas séries em curso e alguns universos fantásticos partilhados por alguns deles, este é um volume isolado. Trata-se de uma história que se encontra entre a fantasia e o horror e que, apesar destes contornos, consegue ter momentos estranhamente aconchegantes.
Tal como outras obras, a história leva-nos ao final do século XIX, início do século XX, acompanhando uma jovem que, sendo filha de um cientista falecido, procura uma nova ocupação. Decide-se a empregar-se como ilustrada para um entomólogo que vive no meio de nenhures, uma casa no meio da floresta e afastada da cidade, habitada por ele e por seus empregados. Apesar de estar habituada a animais, o foco em insectos, mais especificamente em espécies que parasitam e deixam as suas larvas em animais vivos, é apenas um dos detalhes desconfortáveis desta nova ocupação.
A caminho da sua nova localização é acompanhada por um jovem extremamente religioso que fala da existência de monstros, criaturas que habitarão aquelas florestas – e que, segundo apura mais tarde, através de outras pessoas, apresentarão um desenvolvimento curioso e chuparão o sangue dos humanos, apesar da sua aparência humana. Adicionalmente, percebe-se que algo aconteceu antes da chegada da jovem, já que os empregados a recebem com algumas reticências e evitando questões sobre alguns assuntos.


A narrativa explora as lendas locais, misturando elementos históricos, ciência e horror sobrenatural, para produzir uma atmosfera tensa e sombria. O local inóspito com um passado inominável ajuda a criar este ambiente soturno, bem como o encontro com a tal personagem altamente religiosa, sempre pronta a dar a entender a existência de algo demoníaco e sobrenatural, que habitará aquelas florestas.
Numa vertente mais científica, exploram-se os parasitas, referindo-se como estes podem mudar o comportamento do seu hospedeiro, conferindo-lhe agressividade ou resiliência pouco habituais. Ainda, a narrativa explora as experiências científicas de cariz pouco ético, onde os cientistas, obcecados com as potenciais descobertas, não olham a meios para obter resultados específicos. Aplicando esta falta de ética à narrativa, percebemos que algumas experiências são, também, uma forma de vingança.
Tal como noutras narrativas da autora (e que se tem tornado usual neste tipo de histórias), os monstros podem revelar-se mais humanos do que os humanos, enquanto que os humanos se revelam os verdadeiros monstros, capazes de traições e imoralidades, como resposta a um foco religioso ou obsessão científica, justificando as suas acções com algum motivo superior – uma mera desculpa.



Centrando-se numa mulher, filha de cientista, e fazendo a sua profissão como ilustradora para outro cientista, a história destaca ainda as escassas possibilidades que uma jovem mulher tinha na época de fazer algo de forma autónoma. As mulheres tinham pouco ou nenhumas possibilidades de carreira científica, e poucas possibilidades de concretização, vendo muitas vezes as suas descobertas e feitos publicados sob o nome de algum homem.
Não sendo o melhor livro de T. Kingfisher é uma leitura que corresponde às expectativas para algo da leitora, iniciando-se de forma mais lenta, enquanto cria o ambiente e as suspeitas de que algo mais acontece, desenvolvendo detalhes horripilantes ainda que naturais e, por si só, neutros à ética humana. Não é uma leitura carregada de acção ainda que possua alguns momentos chave mais movimentados, sendo mais uma narrativa de exploração onde os insectos ocupam principal objecto de interesse.