As cruzadas vistas pelos árabes – Amin Maalouf

 

as cruzadas vistas pelos árabes

Ao contrário de outros livros de Amin Maalouf como O Périplo de Baldassare, As cruzadas vistas pelos árabes não é um romance histórico ou ficcional – antes um relato puro e duro das várias invasões com o objectivo de conquistar Jerusalém em nome do Papa, entre os séculos XI e XIII.

Em As Cruzadas Vistas Pelos Árabes é-nos apresentada uma visão algo diferente das que estamos acostumados, a dos invadidos por um povo que consideram bárbaro quando comparado científica e culturalmente. Os europeus são descritos como bárbaros, porcos, incultos e sem honra, o que face aos relatos não se pode negar totalmente:

Thabet respondeu: “Trouxeram à minha presença um cavaleiro que tinha um abcesso na perna e uma mulher que sofria de consumpção. Pus um emplastro ao cavaleiro; o tumor abriu e melhorou. À mulher, receitei uma dieta para lhe baixar a temperatura.” Mas chegou então um médico franco e disse: “Este homem não sabe tratar deles !” E, dirigindo-se ao cavaleiro, perguntou-lhe: “O que preferes, viver com uma só perna ou morrer com as duas?” Tendo o paciente respondido que antes queria viver com uma só perna, o médico ordenou: “Tragam-me um cavaleiro robusto com um machado bem afiado”. Vi chegar logo o cavaleiro e o machado. O médico franco assentou a perna sobre um cepo de madeira, dizendo ao recém-chegado :”Dá uma boa machadada para a cortar de lado a lado!” Sob o meu olhar, o homem desferiu na perna um primeiro golpe, depois, como ela ainda estava presa, bateu-lhe uma segunda vez. A medula da perna esguichou e o ferido morreu no mesmo instante. Quanto à mulher, o médico granco examinou-a e disse: “tem em cima da cabeça um demónio que se apaixonou por ela. Cortem-lhe o cabelo!”. Cortaram-lho. A mulher recomeçou então a comer os seus alimentos com alho e mostarda, o que agravou a consumpção. “Nesse caso, é porque o diabo entrou na cabeça”, afirmou o médico deles. E, pegando numa navalha, fez-lhe uma incisão em forma de cruz, deixou à mostra o osso da cabeça e esfregou-o com sal. A mulher morreu ali mesmo.

Escandalizado com a ignorância dos ocidentais, o certo é que Ussama ainda o fica mais com os seus costumes “Os Franj, exclama ele, não têm o sentido da honra! Se um deles sai à rua com a esposa e encontra outro homem, este toma a mão da mulher, puxa-a para o lado a fim de lhe falar, enquanto o marido se afastada aguardando que ela acabe a conversa. Se a coisa dura demasiado tempo, deixa-a com o seu interlocutor e vai-se embora !” E o emir sente-se perturbado: “Reparai nesta contradição. Tal gente não tem ciúmes nem sentido de honra, quando afinal tem tanta coragem! A coragem não provém no entanto senão do sentido da honra e do desprezo que está mal!”.

Chacina após chacina, os Franj (como são conhecidos os europeus invasores) ganham terreno graças às disputas religiosas e familiares na região. Cada cidade tem o seu governador e os sultões raramente são os chefes militares o que dá azo a traições e revoltas. Ao invés de se unirem contra a ameaça comum, cada cidade acaba por lutar praticamente sozinha e nem aquelas que se entregam são por vezes poupadas ao massacre.

O sentido de honra dos Franj é realmente peculiar e facilmente se desconsidera a palavra dada a um árabe por ser de outra religião. Com uma medicina baseada em superstições e uma escassa higiene, só pelo poder dos números é que os Franj conseguem conquistar e manter os territórios – mas não eternamente.

Ainda que As Cruzadas Vistas pelos Árabes seja um ensaio e não um romance, é um livro que aconselho a todos os que apreciam história ou ficção história, em que, para além dos relatos de Amin Maalouf se encontram passagens escritas por alguns dos cronistas da época.

Editado em 2016: Ainda que tenha lido esta obra na edição da Difel, actualmente apenas se encontra disponível nas Edições 70.

Outros livros do autor

9 pensamentos sobre “As cruzadas vistas pelos árabes – Amin Maalouf

  1. li a extraordinária obra de Maalouf e, agora, não posso mais parar. Peço-lhes que me indiquem onde adquirir as ¨cronicas¨em especial a que nos relata os canibais de maara.
    Atenciosamente.

  2. Vou bloquear este post a comentários. Esta entrada é um comentario / crítica a um livro. Não pretende ser, nem deixarei que seja, ponto de entrada para discussões de teor xenófobo.

  3. Pingback: O Périplo de Baldassare – Amin Maalouf | Rascunhos

  4. Pingback: Os jardins de luz – Amin Maalouf | Rascunhos

  5. Pingback: Retrospectiva 2016 – O Rascunhos | Rascunhos

Os comentários estão fechados.