The Dream of Perpetual Motion – Dexter Palmer

Um dos mais falados livros de Steampunk deste ano (a par com Soulless de Gail Carriger, The Gaslight Dogs de Karin Lowachee), The Dream of Perpetual Motion é a primeira obra de Dexter Palmer. Ainda que se possa enquadrar neste sub-género, diria que não são os elementos tecnológico-victorianos o mais importante desta história, antes a interacção das personagens que relembra uma tragédia clássica.

Nesta história conhecemos Harold Winslow, um escritor que viaja num dirigível acompanhado apenas pela voz da namorada. O dirigível onde se encontra não é um veículo normal, mas uma máquina de movimento perpétuo, construído para uma viagem eterna, onde tudo no seu interior de renova – ar, alimentos e água.

Este dirigível terá sido construído por Prospero Taligent, um inventor, por vezes referido como mago, um génio anti-social responsável pelas mais maravilhosas e hediondas criações. Quando Prospero prepara uma festa para a filha adoptiva, Miranda, com o objectivo de a fazer conhecer outras crianças, Harold é um dos rapazes que se vê convidado após estranhos acontecimentos numa feira popular. Nesta festa, Prospero oferece a Miranda o desejo do seu coração, um unicórnio e promete a todos os meninos e meninas presentes oferecer-lhes aquilo que o seu coração mais deseje.

Após a festa, Harold é convidado, por vezes, para voltar e brincar com Miranda, no quarto sem fim cheio de brinquedos e simulações, onde são reproduzidos os mais variados cenários. Estas brincadeiras terminam na expulsão de Harold, quando entre eles começa a surgir um pouco mais do que amizade: o amor de Prospero por Miranda é doentio, centrando-se na tentativa de tornar a criança num ser imutável, sem crescimento físico ou psicológico, para sempre inocente. Para além de Miranda, Prospero tem, ainda, um outro filho, o resultado da junção de parte de vários seres humanos, um frankenstein inteligentissimo,  uma aberração de aspecto nauseabundo.

No Mundo descrito por Harold robots e outras máquinas substituem os homens em muitas tarefas: a aprendizagem é facilitada por máquinas, iguais para todos, e utilizam-se robots para representar uma realidade. Desvaneceu-se a humanidade, e enquanto alguns levam vidas sem sentido, outros tentam recuperá-lo através de actos repugnantes.

Ainda que Harold seja uma personagem algo transparente, com pouca vontade própria, que por vezes parece deixar-se arrastar ao longo da história, reflectindo o mundo desorientado em que vive, é uma personagem com a qual conseguimos simpatizar. Algumas das restantes personagens são mais fortes, mas apenas nos damos conta da sua existência através dos relatos de Harold, o contador da história, pelo que todas as suas emoções e acções são filtradas pelo narrador.

Os elementos tecnológicos são excelentes e originais, desde a descrição dos robots, à descrição dos seres humanos: alguns são quase escravos, e outros andam à deriva. A criatividade está praticamente exausta, em parte por causa de um ensino standardizado ao limite, em parte porque as histórias que poderiam ter sido contadas já o foram, restando apenas re-escreve-las, num outro cenário.

Apesar de todas estas características positivas, a história peca por ser, nalgumas partes, demasiado introspectiva, com trechos onde a história parece parar – pequenos becos narrativos que se poderiam tornar outras pequenas histórias, mas nem sempre o chegam a ser, parecendo incompletos. Para além disto o tom da história não é constante, existindo, entre os momentos de intensa surrealidade, outros quase banais que poderão alienar o leitor.

Não se entenda que estes dois pontos (que considero negativos) tenham tornado a história medíocre, mas apenas que fizeram, a meu ver, com que não tenha chegado ao patamar do excelente: é uma leitura pausada que, no final, me deixou a melhor sensação que um livro pode deixar: saudades.

3 comments

  1. Estava curioso por ver a análise deste livro 🙂 O steampunk parece estar a viver uma segunda juventude com resultados razoáveis. Fiquei curioso por espreitar o livro que pelo que vejo serve também para crítica social (o que regra geral é bom).

  2. 🙂 sim, também porque têm sido escritas algumas obras um pouco diferentes. Sim, ao contrário de outros livros de Steampunk, este é daqueles que é muito mais do que uma aventura com engenhocas e dirigíveis.

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