Últimas aquisições

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Há alguns meses que não fazia um post destes (tirando um para a Eurocon que tinha por objectivo destacar a realização do evento) pelo que aqui vai um pequeno apanhado de algumas das aquisições mais recentes e mais interessantes.

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Não bastasse ser um livro de Margaret Atwood (a autora de The Handmaid’s Tale ou O Ano do Dilúvio), Hag-seed aparece em quase todas as listas de melhores livros do ano, principalmente nas mais relevantes:

‘It’s got a thunderstorm in it. And revenge. Definitely revenge.’ Felix is at the top of his game as Artistic Director of the Makeshiweg Theatre Festival. His productions have amazed and confounded. Now he’s staging a Tempest like no other: not only will it boost his reputation, it will heal emotional wounds. Or that was the plan. Instead, after an act of unforeseen treachery, Felix is living in exile in a backwoods hovel, haunted by memories of his beloved lost daughter, Miranda. And also brewing revenge. After twelve years, revenge finally arrives in the shape of a theatre course at a nearby prison. Here, Felix and his inmate actors will put on his Tempest and snare the traitors who destroyed him. It’s magic! But will it remake Felix as his enemies fall? Margaret Atwood’s novel take on Shakespeare’s play of enchantment, revenge and second chances leads us on an interactive, illusion-ridden journey filled with new surprises and wonders of its own

O segundo, Counter-clock World é um dos livros de Philip K. Dick que ainda não li e para o qual fui chamada a atenção depois de ter lido um conto engraçado na Smokopolitan com uma premissa que será semelhante. Nesta realidade o tempo anda para trás. Acordamos cada vez mais novos, os idosos restabelecem a memória e as capacidades, os mortos levantam-se do cemitério e retornam às suas famílias, as pessoas que tão bem conhecemos tornam-se progressivamente estranhos:

In the counter-clock world time runs backwards. People are born in their graves, dug up when they can start speaking, and are reintroduced into society where they grow younger before returning to the womb to be unborn. The Hobart Phase has been reversing time since 1986 and nothing has quite been the same since.

The Library is the most powerful and most feared organization in the world, responsible for the eradication of records from history for events which have no longer happened. Anarch Peak, a black religious leader, is due to be old-born and the Library wants him dead. With a feud already developing in religious communities throughout the world, Seb Hermes is sent to retrieve Anarch from his captors. He must suceeed before tensions trigger an all-out religious war.

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Este clássico fantástico, Jurgen de James Branch Cabell, o mesmo autor de Hamlet tinha um tio, é um dos mais recentes lançamentos da E-Primatur, em edição ilustrada:

Jurgen é um cavaleiro que parte em busca do “amor cortês”, o amor idílico. As suas aventurtas por reinos mágicos e misteriosos encontrando pelo caminho os mais excentricos personagens e acabando, muitas vezes, nos leitos de mil damas – da Rainha Guinevere à mulher do Diabo – são uma entrincada alegoria aos tempos modernos e à América mas podem, igualmente, ser lidas como um romance de aventuras, uma fantasia, uma obra política ou um tour-de-force literário cheio de referências mais ou menos claras aos grandes clássicos da literatura universal e a obras menores mas de igual forma relevantes.

Jurgen foi alvo do primeiro e mediático processo de obscenidade que ocupou as primeiras páginas dos jornais norte americanos entre 1919 e 1922.

Ao lado encontra-se o mais recente lançamento de Carlos Ruiz Záfon, o livro que vai fechar a tetralogia O Cemitério dos Livros Esquecidos e que teve direito a grande lançamento com presença do autor na semana passada. Para quem não conhece, apesar de se tratar de uma mesma série, os livros podem ser lidos isoladamente, contendo histórias que decorrem em Barcelona, em torno de livrarias e livros, mas com especial ênfase numa enorme biblioteca que conteria as últimas cópias de qualquer livro.

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Apesar de terem sido comprados em Portugal (na FNAC Chiado e no El Cortê Inglês, respectivamente), estes dois ainda derivam da viagem de Barcelona. O primeiro é um livro curioso que tem publicação prevista em Portugal para o primeiro trimestre de 2017, um livro de Bolaño mas que toca no tema da ficção científica, e o segundo foi diversas vezes referido como sendo o melhor livro do Piñol, conhecido autor espanhol de fantástico, ainda que haja quem prefira Pandora el Congo.

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Pode parecer incrível mas não, nunca li o Memorial do Convento. Felizmente não foi leitura obrigatória (é que por mais que goste de ler, a perspectiva de ter de ler determinado livro em determinada época nunca me foi muito agradável). Com o lançamento desta edição especial da Guerra e Paz, aproveitei. Para além da capa dura a edição possui ilustrações de João Abel Manta que lhe dão muito bom aspecto. Veremos como é a leitura.

The Underground Railroad de Colson Whitehead é um dos livros mais falados deste ano, tendo-se tornado um best seller e encontra-se, também, nas principais listas de melhores livros do ano:

Cora is a slave on a cotton plantation in Georgia. All the slaves lead a hellish existence, but Cora has it worse than most; she is an outcast even among her fellow Africans and she is approaching womanhood, where it is clear even greater pain awaits. When Caesar, a slave recently arrived from Virginia, tells her about the Underground Railroad, they take the perilous decision to escape to the North. In Whitehead’s razor-sharp imagining of the antebellum South, the Underground Railroad has assumed a physical form: a dilapidated box car pulled along subterranean tracks by a steam locomotive, picking up fugitives wherever it can. Cora and Caesar’s first stop is South Carolina, in a city that initially seems like a haven. But its placid surface masks an infernal scheme designed for its unknowing black inhabitants. And even worse: Ridgeway, the relentless slave catcher sent to find Cora, is close on their heels. Forced to flee again, Cora embarks on a harrowing flight, state by state, seeking true freedom. At each stop on her journey, Cora encounters a different world. As Whitehead brilliantly recreates the unique terrors for black people in the pre-Civil War era, his narrative seamlessly weaves the saga of America, from the brutal importation of Africans to the unfulfilled promises of the present day. The Underground Railroad is at once the story of one woman’s ferocious will to escape the horrors of bondage and a shatteringly powerful meditation on history.

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Autor de obras tão conhecidas quanto Transmetropolitan, Warren Ellis lançou recentemente esta série de ficção científica:

All over the world. And they did nothing, standing on the surface of the Earth like trees, exerting their silent pressure on the world, as if there were no-one here and nothing under foot. Ten years since we learned that there is intelligent life in the universe, but that they did not recognize us as intelligent or alive. Trees, a new science fiction graphic novel by Warren Ellis (Transmetropolitan, Red) and Jason Howard (Super Dinoasaur, Astounding Wolf-Man) looks at a near-future world where life goes on in the shadows of the Trees: in China, where a young painter arrives in the “special cultural zone” of a city under a Tree; in Italy, where a young woman under the menacing protection of a fascist gang meets an old man who wants to teach her terrible skills; and in Svalbard, where a research team is discovering, by accident, that the Trees may not be dormant after all, and the awful threat they truly represent.

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Finalmente, o volume da esquerda parece uma história caricata e engraçada, sem falas, mas expressiva, que contrasta com o aspecto duro e pesado de um dos mais recentes lançamentos da Dark Horse.

Johannes Cabal The Necromancer – Jonathan L. Howard

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Conheci este autor há uns meses na amostra gratuita da revista Lightspeed Magazine e a combinação de diversão com acção num contexto macabro de steampunk foi tão engraçada que me convenceu a pegar finalmente no livro. Apesar de pertencer a uma série que tem como centro o Necromante, é  um livro que pode ser lido isoladamente, tal como o conto a que podem aceder gratuitamente.

A aventura começa com Cabal a entrar no Inferno para ter uma conversa com o Diabo, propondo-se a concretizar uma missão com o intuito de reaver a sua alma, necessária para umas experiências que está a realizar. Antes de se encontrar com o Diabo somos bombardeados com uma visão cómica do Inferno, onde uma das figuras é um mestre na burocracia:

Sartre said that Hell was other people. It transpires one of the other people was Thrubshaw. He had lived a life of bureaucratic exactide as a clerck out in a dusty bank in a dusty town in the dusty Old West. He crossed all the t’s and dotted all the i’s. Then he made double entries of his double entries, filed the crossed t’s, cross-referenced the dotted i’s in tabulated form against the dotted j’s barred any zeroes for reasons of disambiguation, and shaded in the relative frequencies on a pie chart he was maintaining.

Então e qual a missão a que o Necromante se compromete? A conseguir enganar 100 pessoas a entregar a sua alma ao Diabo. Para tal conta com um Circo mágico carregado de figuras sobrenaturais, de natureza assustadora, e com a ajuda do que resta do irmão, falecido há muito tempo.

Passeando por vilas e terriolas perdidas o Necromante vai conseguindo captar, a um bom ritmo, as almas de que precisa, mas como seria de esperar, acontecem alguns imprevistos. Até porque o Diabo não é um adversário justo, mas Cabal vai ter de lidar com os seus vassalos na sua maneira muito particular, pouco diplomata e pouco subtil:

Billy Butler realised he had a visitor by the knock at his door. Actually, it was more by the way the door was knocked down, torn out and lobbed into the next county that was the clue.

Apesar das situações em que a personagem vai sendo colocada serem cómicas, é sobretudo a forma como o autor as apresenta, no meio de trocadilhos, que torna o conjunto bem disposto.

Have you ever seen an army of the dead? They’re far more expensive than a living one and far less use. A shambles: they march ten miles and their legs fall off . Napoleon would have aproved – that really is an army that marches on its stomach. Until if falls out

Infelizmente, nem tudo são rosas. O autor alonga-se demasiado nalgumas partes menos interessantes e menos rocambolescas, o que fez com que parasse a leitura algumas vezes, dando lugar a outros livros pelo meio. Mesmo assim, recomenda-se, pelo humor macabro e mal disposto do Necromante, sempre demasiado sério que contrasta com o tom do próprio autor. Uma história bem disposta em cenário Steampunk, em que a magia é q.b., a par com os detalhes sobrenaturais.

Assim foi: Scifi-lX 2016

Decorreu esta fim-de-semana o Scifi-LX, um evento totalmente dedicado à ficção científica, com direito a palestras, filmes, robots, exposições, impressão 3D, banda desenhada, lançamentos… entre outros! Este ano só pude ir no Sábado e cheguei mais tarde do que pensava – o calor não perdoa.

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O átrio revela-se carregado de boas surpresas – videojogos, vários bonecos em crochet, a imaginauta (com Comandante Serralves e os pequenos livros da colecção Barbante), a Bookshop Bivar (uma loja de livros ingleses que para este evento trouxe vários livros de ficção científica), entre outras coisas.

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Na parte de cima encontramos uma exposição de banda desenhada onde encontramos pranchas de vários autores, bem como posters não oficiais de filmes marcantes no género, e alguns autores de banda desenhada a dar autógrafos:

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Carlos Pedro entre autógrafos

Era também no andar de cima que decorriam as palestras, bem como os espaços mais tecnológicos, com construções de Lego com movimento, bancas Steampunk, espaço para videojogos, RPG’s – um sem fim de actividades:

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Durante o Sábado decorreu uma palestra sobre Ficção Científica: Um Universo Transnacional com participação de Luís Filipe Silva, Teresa Botelho (da Universidade Nova de Lisboa), Adelaide Meira Serras e João Félix (ambos da Faculdade de letras da Universidade de Lisboa, do grupo Mensageiros das Estrelas).

A conversa incidiu sobretudo sobre utopias / distopias, com especial destaque para obras de Ursula Le Guin (é inevitável a referência a The Dispossessed ou The Left Hand of Darkness sem esquecer, claro, The ones that walk away from Omelas) – ainda que, para mim, não haja conto distópico mais brutal que The Lottery. Entre vários géneros da ficção científica falou-se da ficção científica ecológica com especial ênfase, claro, a The Water Knife de Paolo Bacigalupi. Por ler, ficou-me o The Machine Stops de E. M. Foster, em que a humanidade está tão dependente da máquina que uma pequena quebra informática pode por em risco a espécie (já agora, o conto encontra-se disponível gratuitamente aqui).

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A esta palestra seguiu-se uma apresentação sobre zombies com o objectivo de expor, não só a evolução da figura sobrenatural no cinema, como as raízes para o seu mito, bastante mais antigas do que o cinema:

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O dia de Sábado terminou (para mim) com o painel de convidados das exposições de banda desenhada: Miguel Montenegro, Ricardo Venâncio, Carlos Pedro e André Morgado. Este painel teve especial relevância por se ter transformado numa conversa mais informal em que foram os próprios autores (com experiências diferentes) a colocarem-se questões sobre os percursos distintos de cada um (principalmente André Morgado).

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Depois de um dia em cheio, voltei com mais dois livrinhos de banda desenhada, Altemente de Mosi e Double Helix and other stories de Ewing e Montenegro, bem como (im)prováveis destinos de viagem (da Bookshop Bívar):

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Eventos: Sci-FI LX

Robots, viagens no espaço, impressões 3D ! Um evento para qualquer geek digno desse nome – É já este fim-de-semana que decorre o maior evento em Portugal dedicado exclusivamente à ficção científica, seja sob a forma cinematográfica, sejam palestras e workshops sobre os mais diversos (e futurísticos) temas.

Contando com um espaço comercial (onde encontramos a Bookshop Bivar, a Kingpin Books, e a Imaginauta, entre outros) e exposições (sobretudo de banda desenhada) vamos ter, também oportunidade de assistir a um duelo steampunk ou a impressões 3D.

a vida oculta

Para visualizarem todas as actividades inerentes ao Sci-fi LX podem consultar a página oficial, enquanto que aqui irei falar daquelas que me despertam mais interesse. Entre elas estão, claro, as exposições de banda desenhada, com especial destaque para Carlos Pedro, Miguel Montenegro, Ricardo Venâncio ou H-alt. De realçar que estes autores estarão num painel a decorrer pelas 19h00 de Sábado e que decorrerá uma sessão de autógrafos de A Vida Oculta de Fernando Pessoa com André Morgado.

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Entre a apresentação do Projecto Mensageiros das Estrelas (que tem trazido alguns autores de ficção científica a Portugal como Geoff Ryman) , encontramos palestras sobre Viagens no tempo (a necessidade de viver além do presente), a ficção científica em videojogos, FC em Universo Transnacional (com destaque para a presença de Luís Filipe Silva e Teresa Botelho) e zombies.

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Para actividades mais interactivas temos Impressões em 3D (TIC em 3D) durante os dois dias, crochet (nada como um Yoda de crochet), pintura, duelos, jogos de tabuleiro, cosplay ou torneios de robots.

Claro que não falei de muita coisa, apenas das que mais me interessavam. Há vários eventos temporalmente sobrepostos pelo que se não vos interessar algo em particular podem aproveitar a restante programação nos outros espaços do evento.

Últimas aquisições

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As quinze primeiras vidas de Harry August por Claire North é o terceiro volume da coleção Admiráveis Mundos da Ficção científica que se encontra em lançamento conjunto da Saída de Emergência com o Jornal Público. Livro inédito desta coleção, é o volume que mais antecipava. Vencedor do prémio John W. Campbell Memorial, tinha lançamento previsto para Agosto de 2015, mas só agora chegou às bancas. Se por um lado foi uma tremenda espera, por outro o preço é bastante mais acessível (6,95€).

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A vida aventurosa de Sparrow Drinkwater por Trevor Ferguson promete uma mirabolante aventura ao género das que eram produzidas antigamente com jovens que se metiam com meliantes, despertando para a vida adulta com a descoberta de que a realidade é bem mais dura e menos transparente do que a fantasia:

A mãe de Sparrow acreditava que o filho tinha sido concebido por um corvo que desceu dos céus numa noite de estrelas e explosões. A grande desilusão da sua vida foi que Sparrow nunca tenha aprendido a voar.

Sparrow nascido e criado num manicómio, onde a loucura da mãe e dos que o rodeiam é a sua única realidade, um dia é levado para o mundo exterior. Perde o rasto da mãe, descobre-se sozinho numa grande cidade… e a sua vida aventurosa ainda mal começou!

Esta é a fabulosa história de Sparrow Drinkwater, que atravessa o continente americano obcecado por descobrir a identidade do seu pai, reencontrar a mãe e desvendar o mistério do seu passado. No seu caminho cruzam-se sinistros criminosos, atravessa os túneis secretos sob as ruas da Montreal, vive tremendas perseguições em comboios de alta-velocidade, encontra a «feiticeira» da rua Bloomfield, leva a cabo brilhantes golpes nas altas esferas da finança internacional…

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Há já algum tempo que ando para ler O Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, mas as edições que se encontram dos livros de Saramago são tão foleiras que tenho evitado a aquisição, pensando, talvez, numa edição mais antiga em bom estado. Bem, infelizmente apenas está prevista a publicação deste volume em edição de capa dura no âmbito da colecção RTP, mas digam lá que não tem muito melhor aspecto que a edição da Porto Editora? Melhor ainda, esta, de capa dura, custa 10 euros. Aproveitando a promoção de 20% da FNAC… bem… ficou por 8.

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No seguimento do 30º aniversário do acidente de Chernobyl foi publicado pela Levoir, em parceria com o jornal Público, esta banda desenhada da autoria de Natacha Bustos e Francisco Sanchez. O livro também se encontra disponível na FNAC (com os usuais descontos) e apresenta um retrato singular do acidente.

À esquerda encontra-se o primeiro volume de Mr. Hero, uma banda desenhada escrita por James Vance e desenhada por Ted Slampyak, centrada numa personagem criada por Neil Gaiman. Claro que aqui o nome de Neil Gaiman aparece em letras garrafais ocultando os restantes intervenientes – é um nome que vende. Autómato que se move a vapor para ser uma força maléfica, torna-se um herói nobre. Claro que o nome de Neil Gaiman foi o que me levou a pegar no livro, mas o interior foi o que me convenceu a trazê-lo.

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The thrilling adventures of Lovelace and Babbage – Sydney Padua

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A filha de Lord Byron, o famoso escritor conhecido pelo seu carácter peculiar, foi propositadamente educada nas matemáticas como forma de se afastar das influências nefastas que a poesia poderia ter no seu espírito (não fosse sair ao pai). Mas segundo as crenças da época, também não poderia dedicar-se muito à ciência pois o corpo da mulher, mais frágil, não aguentaria a pressão mental de estudos muito aprofundados.

Não seguindo estas crenças, Lovelace tornou-se uma notável matemática e foi nesta capacidade que conheceu Babbage, o cientistas pioneiro que terá inventado o conceito de computador – uma máquina programável. Neste seguimento, Lovelace terá trabalhado com Babbage e, apesar de não terem chegado a construir a máquina, publicaram um artigo em que Lovelace apresenta o primeiro algoritmo, o primeiro programa para o computador de Babbage.

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Sob pequenos trechos de banda desenhada Sydney Padua conta-nos como teria acontecido o primeiro encontro destes dois génios, bem como a colaboração que daria origem ao primeiro artigo científica sobre o tema. Infelizmente, por falta de financiamento estatal e por alguns detalhes perfeccionistas que Babbage quereria impor, a grande máquina programável nunca teria sido construída.

Mas… e se estes dois obstáculos não tivessem surgido? Num pequeno Universo paralelo assim foi, Babbage e Lovelace conseguiram construir a máquina e utilizá-la, um colosso de engrenagens capaz de resolver contas máquinas e de efectuar outras tarefas de acordo com os algoritmos com que o programavam.

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É nesta realidade altenrativa que decorre a maioria das tiras cómicas de banda desenhada, que nos apresentam dois cientistas, um Babbage pouco dado a convenções sociais (de acordo com as descrições reais existentes) e pouco capaz de utilizar o charme como forma de obter financiamentos. Felizmente Lovelace é mais carismática e diplomática e estas características, junto com o seu génio matemático, contribuem para a concretização do sonho.

The chinese room imagines a closed room containing a slot leading ouside, a complete set of rote instructions on responding to a given set of chinese characters, and a person ignorant of the chinese language. Someone feeds questions in chinese throught the slot, to which the inhabitant of the Chinese room replies by consulting instructions and feeding the resulting responses back through the slot. If the questioner cannot tell the difference between someone with a really great set of instructions and someone who actually understands chinese, how can we distinguish between a human being “understanding” a communication and a computer stepping through an algorithm?

(e apesar de esta frase ser sobre programação, faz-me recordar o princípio de Turing)

Entre o ar caricato de Lovelace e a loucura de Babbage, a história desenrola-se em apaixonantes tiras a preto e branco, carregadas de engrenagens e maquinetas, onde não faltam as pequenas tiradas geek, seja a satirizar as crenças da época, seja a expor o génio pouco convencional de algumas personagens, seja pela apresentação de uma perspectiva intensamente analítica onde os acontecimentos são racionalizados.

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Carregado de notas de rodapé, artigos justificativos e explicações matemáticas, o autor não deixou os pequenos episódios ao acaso e mesmo aqueles que nunca aconteceram (porque a máquina nunca foi construída), por mais satíricos que sejam, possuem sempre pequenos trechos de verdade que o autor detalha. Não faltam, assim, contas em binário, codificações e descodificações e, até, como surgiu a lógica por detrás da programação mais simples (que a todos moi a cabeça, entre AND’s, NOT NOT’s e OR’s).

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E se algum defeito que pode ser apontado ao conjunto de episódios que constitui The Thrilling Adventures of Lovelace and Babbage é exactamente a densidade de notas adicionais que podem quebrar algum ritmo da leitura. Mas, também, são estas notas que dão a experiência peculiar à leitura e que transformam esta banda desenhada em algo educativo e interessante, muito para além do tom leve e jocoso do aspecto visual.

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Fevereiro de 2016

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Lançamentos nacionais relevantes

Para além das colecções de banda desenhada em curso (da Marvel pela Salvat, e dos Heróis DC pela Levoir em parceria com o jornal Público) eis os lançamentos nacionais que mais me interessaram:

Por sorte o leite – Neil Gaiman – Editorial Presença;

Extinção – Kazuaki Takano – Casa das Letras;

– O livro da selva – Rudyard Kipling – Bertrand Editora;

O barão trepador – Italo Calvino – Dom Quixote;

Filho Dourado – Pierce Brown – Editorial Presença;

O herói das eras – Brandon Sanderson – Saída de Emergência;

O trono dos crânios – Peter V. Brett – Edições Asa;

Críticas interessantes

Se no mês passado constatei que o número de blogues com excelentes críticas de FC era cada vez menor (citando alguns de exemplo que não dão sinal de vida há largos meses), este mês outros houve que anunciaram fecho. Mais palavras para quê? Aqui fica o apanhado das críticas que achei mais interessantes ao longo de Fevereiro.

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Ficção científica

Analog Science Fiction and Fact – Setembro 2014 – Intergalacticrobot – A revista é uma das mais conhecidas no meio, e uma das melhores formas de se descobrir ficção em formato mais curto;

The young world – Chris Weitz – As leituras do corvo – um clássico cenário pós-apocalíptico, com todos os inevitáveis dilemas da vida adolescente;

Confessions d’un automate mangeur d’opium – Fabrice Colin & Mathieu Gaborit – Intergalacticrobot – quando a ficção steampunk tem preocupações mais estéticas do que narrativas;

12.22.63 – Stephen King – D’Magia – história de viagem no tempo com ritmo imparável apoiada numa pesquisa exaustiva sobre 22 de Novembro de 1963;

Rendez-vous com Rama – Arthur C. Clarke – Ler y Criticar – clássicao do género centra-se no primeiro contacto com vida extraterrestre;

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Fantasia

A porta no muro – H. G. Wells – A Lâmpada Mágica – Um dos livros da colecção dirigida por Jorge Luís Borges apresenta uma faceta mais fantástica do autor de A Guerra dos Mundos;

O Vento nos Salgueiros – Kenneth Grahame – Deus me Livro – um clássido da literatura juvenil, “história de amizade e mudança, de lendas e mitos”;

Monsters of Men – Patrick Ness – Floresta de Livros – último volume da trilogia com “personagens intensas, sem momentos mortos e com uma escrita veloz”;

A rainha vermelha – Victoria Aveyard – Letras sem fundo – jovens saídas da puberdade, capacidades mágicas e triângulos amorosos num esquema narrativo distópico;

The sleeper and the spindle – Neil Gaiman – Leitora de fim-de-semana – a união de dois contos, A Bela Adormecida e Branca de Neve, resulta numa história bem diferente;

A guardiã da espada – Alex 9 – Bruno Martins Soares – A Lâmpada Mágica – Romance demasiado ambicioso de frenética sucessão de cenas, com várias descrições de combates e batalhas;

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Banda desenhada

A louca do Sacré-Coeur – Moebius & Jodorowsky – A Lãmpada Mágica – gozo ao intelectualismo oco, às crises masculinas de meia-idade e ao misticismo new age;

Tony Chu: Enfarda-Brutos – Layman & Guillory – As leituras do Pedro – “original e “nojentamente divertido””

A agência de viagens Lemming – José Carlos Fernandes – aCalopsia | As leituras do Pedro;

Cruelle – Florence Dupré La Tour – As leituras do Pedro;

– Foi assim a guerra das trincheiras – Tardi – A Lâmpada Mágica – retrato revoltante e comovente da guerra, com exposição das grandezas e misérias da espécie humana;

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Outros

Connections – James Burke – Intergalacticrobot – livro não ficcional de divulgação científica, que possuirá uma abordagem pouco usual para explicar a evolução tecnológica;

O poço e o pêndulo – Edgar Allan Poe – Nuno Ferreira – conto de horror de escrita envolvente onde se destaca a capacidade de subtilmente transmitir sensações;

As horas invisíveis – David Mitchell – Ler y Criticar – o último livro do autor publicado em Portugal tem um ritmo lento, mas é original e ambicioso;

Oriente, Ocidente – Salman Rushdie – Pedro Cipriano – depois de ter lido um livro do autor, fiquei curiosa com este, um livro de contos;

Frankenstein – Mary Shelley – Virtual Illusion – “um rasgo de pura criatividade que se veio a tornar num ícone dos mundos de ficção”;

Outros artigos

Literatura de ficção

– O umbigo do Mundo de Umberto Eco era em Portugal – Observador;

– Franz Kafka: A obra em chamas – Deus me Livro;

– As fantasias irrealistas de David Mitchell – Observador;

– Umberto Eco: A insuportabilidade do silêncio – aCalopsia;

– Eternamente Tom Sawyer – Revista Estante;

– O bibliotecário e o nome da rosa – Observador;

– O homem que inventou Dan Brown – Observador – apesar do título (infeliz, a meu ver, que quase dá maior importância a Brown) tem alguns parágrafos interessantes;

Banda desenhada

– Os heróis também usam BI – Mafalda – Deus me Livro;

– Hermann: Um grande clássico – aCalopsia;

– Príncipe Valiente: 1957 – 1960 – As leituras do Pedro;

– Artigos sobre BD, Os meus – cuto “O Mosquito” – Divulgando Banda Desenhada;

– Crítica e divulgação de BD: Antes e depois da Internet – aCalopsia;

– 2016: Arranque em grande para os autores portugueses no estrangeiro – As leituras do Pedro;

– Super-heróis à francesa II: O Universo fantástico da Lug – Leituras de BD;

– A mansão assombrada da Disney por Joshua Williamson e Jorge Coelho – aCalopsia;

Eventos

– Correntes d’Escritas – Deus me Livro (23, 24, 25, 26, 27);

Sustos às sextas;

– Reportagem – 380º encontro da Tertúlia BD de Lisboa – Kuentro 2;

Recordar os Esquecidos;

– Exposição comemorativa do 80º Aniversário d’O Mosquito – Kuentro 2;

A ficção especulativa em Portugal – 2015

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Talvez por ter voltado a ter alguma disponibilidade, a sensação que fica deste ano é que houve um aumento nos eventos associados ao horror, à ficção científica ou à fantasia. Foi o primeiro ano de Sustos às Sextas (que irão ser retomados agora em Janeiro de 2016), foi o ano em que David Brin veio a Portugal (para quem não conhece é um prolífero autor de FC), e foi o ano em que houve espaço na Gulbenkian para FC e Banda desenhada, com painéis que nos trouxeram Lauren Beukes, Fábio Fernandes, Joe Dog, Marcelo D’Salete ou Posy Simmonds.

Claro que estou apenas a referir aqueles em que pude comparecer, mas houve muito mais – iniciativas Steampunk pela Corte do Norte e pela Liga Steampunk de Lisboa e Provínvicas Ultramarinas, o Scifi LX (no qual apenas passei rapidamente), vários lançamentos de bandas desenhadas ou o evento The Padawan Wars.

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Foi, também, um ano marcado por vários lançamentos de antologias nacionais como Insonho, MotelX Histórias de Horror, ou Nos Limites do Infinito. Infelizmente não ocorreu o Fórum Fantástico, mas as Conversas Imaginárias vieram compensar, com a apresentação de vários projectos nacionais, e lançamentos futuros de João Barreiros, António de Macedo, Luís Filipe Silva, David Soares ou da Imaginauta.

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Os lançamentos de ficção especulativa por editoras de maior dimensão continuam escassos. Continuamos sem nenhuma colecção de publicação constante mas vão sendo lançados alguns livros no género, ainda que, muitos, camuflados. Abaixo, uma lista dos que achei mais relevantes:

Na área da banda desenhada não sou uma perita, mas captaram-me sobretudo a colecção de Novelas Gráficas da Levoir com o Público,  os excelentes lançamentos de preço acessível da G. Floy (como Saga ou Tony Chu) e alguns dos lançamentos da Kingpin (como Kong ,the King, O poema morre ou Fósseis das Almas Belas).

O que podemos esperar para 2016? Na área dos eventos, já está disponível o programa para Sustos às Sextas, e decerto irá retornar o Fórum Fantástico. Nos lançamentos nacionais é previsto termos uma nova edição do Terrarium (de João Barreiros e Luís Filipe Silva), um novo livro de António de Macedo, a publicação do vencedor do prémio Divergência (Anjos de Carlos Silva), novas edições de livros de David Soares (O Pequeno Deus Cego e A Última Grande Sala de Cinema), um segundo volume de Comandante Serralves e uma Antologia Erótica de Literatura Fantástica.

Assim foi: Conversas Imaginárias 2015 – As Leituras do ano

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Esta foi a última conversa do dia, uma conversa que já tem sido habitual nos anos anteriores do Fórum Fantástico e que reúne João Barreiros e seus sobrinhos Artur Coelho, João Campos e eu. Abaixo eis a apresentação dos livros citados, bem como indicação de quem o citou.

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Estando do lado da mesa, existem menos hipóteses para tirar notas de pontos interessantes, mas mesmo assim, houve alguns detalhes que gostaria de realçar. Um dos livros indicados por João Barreiros, The Explorer’s Guide de John Baird é um bom exemplo da interacção que permite o formato físico, com páginas amareladas a simular o antigo, e contendo não só texto como banda desenhada e outras imagens. Um livro que foi directo para a minha lista de aquisições futuras.

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Outra das referências de João Barreiros que achei curiosa foi o La Casa de Daniel Torres, um volume que apresentará a casa ao longo dos milénios, desde os primórdios da humanidade aos tempos modernos, mostrando não só o interior das habitações mas representando um pouco do quotidiano e da mentalidade.

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Outro volume referido por João Barreiros foi Slade House de David Mitchell, continuação de The Bone Clocks, onde alguns seres humanos são chamados a uma misteriosa casa para serem enclausurados e comidos de forma estranha. A descrição da história foi bastante vísceral.

luna

Luna foi referido tanto por João Barreiros como por João Campos, mas de formas bastante diferentes. João Barreiros irritou-se bastante com as referências brasileiras mal efectuadas que demonstram pouco trabalho de pesquisa, e com as traduções mal feitas de frases para português (brasileiro) que pareceriam saídas do google translator. Já a João Campos estas referências não estragaram o livro, do qual gostou bastante.

O que achei engraçado nesta diferente percepção do mesmo livro, está relacionado com um texto que li algures numa revista americana de ficção sobre os erros dos romances, e até que ponto está o leitor disposto a acumulá-los até se desgostar com o texto. Claro que tal nível de tolerância está relacionado com o quanto esteja a gostar da história.

the wolf among us

Se ainda não leram John Brunner (como eu) decerto que depois das múltiplas referências de João Campos ficam decididos a ler. Claro que terei de iniciar com Stand on zanzibar que já repousa há algum tempo na prateleira. Outro dos escolhidos de João Campos que me chamou à atenção foi The Wolf Among Us por estar relacionado com a série de banda desenhada Fables. Para além da relação com a banda desenhada, captou-me a forma como o final fará repensar todas as fases do jogo.

Leviathan Wakes, James SA Corey

Já tinha reparado nas várias críticas do Artur Coelho aos livros de James SA Corey, longas space-operas, mas que terão alguns pontos repetitivos ao longo dos vários volumes. Fica a referência ao primeiro, que poderá ser uma boa obra para recordar o estilo. Ficou-me, também, a referência a Os Marcianos somos nós de Nuno Galopim, bem como do mais recente Almanaque Steampunk. Mas sobre as escolhas de Artur Coelho não falo mais – podem encontrar detalhe sobre as mesmas no seu blog.

stories ted chiang

Eis então as minhas escolhas e os motivos que me levaram a selecioná-los. A maioria dos volumes que referi são colectâneas, volumes que reúnem as melhores histórias de alguns autores – já que contos não vendem, este ano foi o que mais li.

O primeiro volume escolhido foi Stories of Your Life and Others de Ted Chiang. Esta foi uma das grandes descobertas do ano. O autor possui contos excepcionais, bem escritos, de premissas desenvolvidas de forma concisa, mas sem sacrificar a empatia das personagens, e dando espaço para o desenrolar dos acontecimentos. A maioria dos contos têm uma de duas premissas: inteligência ou religião.

Os contos de premissa centrada na inteligência desenvolvem-se utilizando ora a inteligência artificial, ora a inteligência humana artificialmente aumentada. Temos assim manipulação de genes que leva a uma nova raça de seres humanos, intelectualmente incompátiveis com os restantes, ou grandes duelos entre dois seres humanos que, de tão inteligentes jogam xadrez com a realidade. Do lado da inteligência artificial temos o conto que dá nome ao conjunto, onde se codificam várias entidades, uma espécie de bonecos virtuais com capacidade de aprendizagem e desenvolvimento, que ao revelarem pensamentos e sentimentos, levam a várias questões sobre onde começará a identidade e os direitos e deveres associados.

Os contos de premissa religiosa não possuem uma perspectiva muito positiva. Ora existem anjos que transformam os humanos, mas nem sempre de forma positiva, fazendo com que percam um braço ou uma perna, sem qualquer explicação; ora apresentam uma nova versão da construção da Torre de Babel onde os homens a terminam, chegando à cúpula celeste.

Mas a colectânea possui, também, várias histórias fora destas premissas. Uma delas apresenta-nos seres inteligentes e humanóides, uma espécie de robots que vivem num mundo quase hermeticamente fechado. A pouca perda de energia fã-los viver cada vez mais lentamente.

the bees

The Bees de Laline Paull não tem uma das premissas mais originais nem é, formalmente, dos melhores livros do último ano. Demasiado centrado numa única personagem demasiado multifacetada,é, no entanto, uma leitura que me entreteve bastante e que tive de referir. Capaz de nos fazer simpatizar com a personagem, possui descrições de como as abelhas se fascinam perante a abelha rainha, e apresenta-nos uma rígida hierarquia na colmeia. Ainda que não ocorra nenhum acontecimento político é um género de distopia animal em que a rigidez social é uma constante já esperada.

deathbird

Se as leituras anteriores se apresentam bastante simpáticas, criando empatia com o leitor, este Deathbird Stories de Harlan Ellison é brutal, visceral e simultaneamente fascinante. O leitor assiste mesmerizado a cenas horrendas, que, são descritas de tal forma, que despertam o lado animal do ser humano. Assim começa a colectânea com um conto brutal, onde todo o bairro assiste, estático, ao homicídio de uma mulher. Um crime sangrento e ruidoso, quase teatral, em que a vítima agonia impotente.

Os restantes contos apresentam ecos deste misto de fascínio e aversão, como que transformando o leitor num dos habitantes do tal bairro, descrevendo de forma controlada mas quase sádica, episódios horrendos com pitadas de ironia que fazem o leitor assistir quase estático.

mesa com kafka

Aqui está um livro que se destaca bastante dos anteriores, nem que seja por poder ser encontrado na secção de culinária. E se calhar esta caracterização nem estará assim tão errada porque o livro, na verdade, até apresenta receitas. À mesa com Kafka apresenta ingredientes e modos de preparo, mas dentro do contexto de uma história que é contada ao estilo de algum escritor conhecido.

E que bem é esse estilo simulado. Sopa rápida de miso a la Franz Kafka recorda na perfeição o livro O Processo, descrevendo um episódio que facilmente poderia ser encaixado no livro sem problema algum. Outro dos contos que achei peculiar é Ovos com estragão a la Jane Austen que se centra numa senhora que pretende apresentar os seus belos ovos à sociedade. De origem menos elevada do que a daqueles a quem pretende apresentar os ovos, procura uma forma de os enaltecer sem cair no ridículo. Já Passarinhas desossadas e recheadas a la Marquês de Sade foi o conto lido no Recordar os Esquecidos e que me fez adquirir o livro.

trigger warnings 2

Das colectâneas apresentadas, esta, Trigger Warning, é decerto a menos coesa, quer em conteúdo, quer em formato das histórias. Apresentando ora poemas curtos e estranhos (como uma ode a uma cadeira), ora descrições de fotos mórbidas, ora longas histórias que já foram publicadas isoladamente, destaca-se sobretudo por algumas histórias excelentes que fazem valer a pena o livro.

Para além de apresentar o conto The Sleeper and the Spindle (que ganha maior dimensão na versão ilustrada), destacam-se dois contos centrados em personagens bastante conhecidas de todos: Dr. Who e Sherlock Holmes. O primeiro é uma aventura engraçada e caricata que reconstrói de forma impecável o ambiente da série. O segundo apresenta-nos o detective já idoso, explicando parte do seu fascínio por abelhas.

pump six

A maioria das histórias de Paolo Bacigalupi em Pump Six and other stories apresentam um mundo ecologicamente destruído. O nível das águas sobe de tal forma que grande parte do território está inundado gerando milhões de refugiados e a maioria das espécies animais e vegetais foi extinta. Gera-se fome quer pela indisponibilidade de terreno, quer pela extinção em massa. Para compensar, existem fortes investimentos na biologia molecular que produzem várias espécies artificiais, mais adaptadas à nova realidade.

Um dos melhores contos foge, no entanto, deste contexto. Pump six, a história que deu origem ao conjunto foi o conto que me deu a conhecer o autor, e um exemplo extraordinário de uma história apocalíptica contada ironicamente. A história começa com um homem a entrar na cozinha, e a encontrar a esposa com a cabeça dentro do fogão, com um fósforo acesso, procurando a origem de uma fuga de gás. Depois de a retirar, explica-lhe a estupidez do cenário, relembrando um outro episódio onde teria tentado limpar uma tomada com um garfo. Percebemos dentro de pouco tempo o que se passa: a água cada vez mais contaminada das canalizações está a embrutecer e a transformar os seres humanos de tal maneira que alguns já são autênticos animais, restringindo-se a três actividades, copular, comer e pregar partidas.

stranger in olondria

Melancólico e estranho, A Stranger in Olondria, centra-se numa personagem que tem tudo para ser um herói típico de aventuras fantásticas. Enganem-se. O fascínio que nutre por outra civilização onde espera encontrar livros sem fim e viver descansadamente, torna-se um pesadelo de perseguições religiosas, febres constantes em que não sabe se está a ser assombrado ou se terá sucessivos pesadelos desgastantes.

city of blades

As próximas referências são livros que se encontram no meu radar para aquisições futuras. City of Blades será o segundo de uma trilogia de volumes independentes. O primeiro, City of Stairs, foi uma das melhores leituras do ano passado e é com curiosidade que aguardo este. O mundo onde decorre possui duas civilizações concorrentes, uma de tecnologia evoluída e outra de grandiosos edifícios construídos por Deuses. Quando os Deuses são assassinados, os edifícios desaparecem, mas persistem as escadas construídas pelos humanos. A cidade fica, assim, carregada de escadas, escadarias, pequenos degraus e caracóis que levam a lado nenhum – pedaços que recordam os milhões de pessoas que desapareceram com os edifícios.

the flicker men

The Flicker Men parece ser uma das grandes promessas dos próximos tempos. Não foi a sinopse que me captou, mas várias críticas que o descrevem como uma espécie de cruzamento entre Stephen Hawking e Stephen King, ou seja, contendo grande detalhe científico num excelente thriller.

A última referência não tem, ainda, capa. Big Book of SF será o grande projecto de Ann e Jeff Vandermeer para o próximo ano, onde pretendem reunir ficção científica exemplificativa de todo o século XX, com os mais variados temas, origens e desenvolvimentos.

Outros resumos das sessões de Conversas Imaginárias 2015

Assim foi: Conversas Imaginárias 2015 – Iniciativas em comunidade

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Com formato e intuito um pouco diferente das conversas anteriores, esta teve como objectivo divulgar uma série de projectos portugueses que têm dinamizado a ficção científica e o fantástico em Portugal.

A conversa começou com Sérgio Santos a apresentar a H-Alt,  uma revista gratuita de banda desenhada de ficção especulativa (ficção científica e fantasia). Prevê-se que será uma revista anual em formato digital, mas encontra-se em campanha de angariação para a produção de um número físico.

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O segundo projecto a ser apresentado foi a Colecção Barbante, um projecto do colectivo Imaginauta, que tem por objectivo dar a conhecer novos autores publicando contos curtos num formato de baixo custo. No dia do evento foram lançados os cinco primeiro volumes dos quais já conhecia dois dos autores. A colecção encontra-se aberta a submissões e irá remunerar os escritores conforme a venda dos exemplares.

De seguida, apresentou-se a Colecção Génesis, uma colecção do projecto Adamastor que pretende reunir obras de ficção especulativa portuguesa sem edições recentes e que têm sido esquecidas. De momento a colecção ainda só reúne dois volumes, Lisboa no ano 2000 de Melo de Matos e Lisboa no ano três mil de Cândido Figueiredo. Os volumes encontram-se disponíveis gratuitamente em formato digital.

Durante a apresentação da Colecção Génesis, por intervenção do João Barreiros, foram relembrados vários volumes de temática semelhante aos já lançados, livros que terão belíssimas imagens e que poderão ser considerados como futuros volumes da colecção.

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Por último, apresentou-se a Liga Steampunk de Lisboa e Províncias Ultramarinas, que tem organizado eventos, participando com outros colectivos como A Corte do Norte, ou com estabelecimentos como o bar Steampunk O Arranca-Corações.

Outros resumos das sessões de Conversas Imaginárias 2015

 

À espera de … (lançamentos internacionais)

fireman

Filho de Stephen King, Joe Hill tem-se destacado com obras como Horns, NOS4R2, ou a série de banda desenhada Locke & Key. Programado para Maio de 2016, o próximo livro, The Fireman, parece apresentar-nos um cenário apocalíptico por doença:

In a world overtaken by a deadly and dramatic new virus, Harper is determined to live long enough to deliver her baby. But when all it takes is a spark to start a deadly blaze, she’s going to need some help from the mysterious fireman.

the people in the house

De visual pouco atractivo (pelo menos na imagem), esta colectânea de histórias parece ser um conjunto interessante de uma autora que desconheço:

Here is the whisper in the night, the dog whose loyalty outlasted death, the creak upstairs, that half-remembered ghost story that won’t let you sleep, the sound that raises gooseflesh, the wish you’d checked the lock on the door before dark fell. Here are tales of suspense and the supernatural that will chill, amuse, and exhilarate. Features a new introduction by the late author’s daughter, Lizza Aiken.

Best known for The Wolves of Willoughby Chase, Joan Aiken (1924–2004) wrote over a hundred books and won the Guardian and Edgar Allan Poe awards. After her first husband’s death, she supported her family by copyediting at Argosy magazine and an advertising agency before turning to fiction. She went on to write for Vogue, Good Housekeeping, Vanity Fair, Argosy, Women’s Own, and many others.

the flicker men

Os melhores comentários a este livro comparam o autor a uma união de dois conhecidos nomes, Stephen King e Stephen Hawking. pela forma como apresenta um thriller com fundamentos científicos. Depois desta comparação improvável (mas que cria curiosidade), eis a sinopse:

Eric Argus is a washout. His prodigious early work clouded his reputation and strained his sanity. But an old friend gives him another chance, an opportunity to step back into the light.

With three months to produce new research, Eric replicates the paradoxical double-slit experiment to see for himself the mysterious dual nature of light and matter. A simple but unprecedented inference blooms into a staggering discovery about human consciousness and the structure of the universe.

His findings are celebrated and condemned in equal measure. But no one can predict where the truth will lead. And as Eric seeks to understand the unfolding revelations, he must evade shadowy pursuers who believe he knows entirely too much already.

The sea is ours

Mais curiosa que uma antologia Steampunk, é ter origem asiática. The Sea is Ours promete contos um pouco diferentes do que estamos habituados:

Steampunk takes on Southeast Asia in this anthology The stories in this collection merge technological wonder with the everyday. Children upgrade their fighting spiders with armor, and toymakers create punchcard-driven marionettes. Large fish lumber across the skies, while boat people find a new home on the edge of a different dimension. Technology and tradition meld as the people adapt to the changing forces of their world. The Sea Is Ours is an exciting new anthology that features stories infused with the spirits of Southeast Asia’s diverse peoples, legends, and geography.

Os Favoritos (parte II)

(Os Favoritos – Parte I)

E voltemos à rubrica que está a desarrumar catastroficamente as minhas estantes, dado que ao percorrê-las vou retirando cada vez mais livros. A indecisão reina, mas eis dois autores fantásticos:

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3. China Miéville

Perdido Street Station é um dos poucos livros de que me lembro sempre que me perguntam por aqueles de que gostei mais. Entre investigação científica e criminal, com detalhes de steampunk e estranhas quimeras humanóides, apresenta uma história complexa conta por vários pontos de vista.

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Para além da trilogia de New Crubozon (constituída por Perdido Street Station, The Scar e Iron Council) o autor escreveu muitos mais livros fantásticos. Um dos temas mais inspiradores e fascinantes são decerto as cidades. Dentro desta temática China Miéville escreveu dois livros:  UnLunDun e The City & The City. O primeiro, mais juvenil, apresenta-nos uma cidade numa realidade paralela, um reflexo distorcido da cidade de Londres. Já o segundo centra-se em duas cidades sobrepostas, simultaneamente visíveis e invisíveis entre os habitantes de cada um dos lados, onde ocorre um crime. A investigação leva o polícia a deslocar-se entre as duas cidades numa história que intercala o Suspense com o Fantástico mas que possui também detalhes distópicos.

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4. Umberto Eco

Sim. Tenho a confessar que gostei do livro mais conhecido do autor O Nome da Rosa. Sim, achei que a discussão sobre o riso de Deus se estendeu para além do agradável mas achei que, no conjunto, este era apenas um detalhe. Misturando crime com ficção histórica, possui várias discussões filosóficas interessantes que conferem ao conjunto algo especial.

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Em Baudolino a história torna-se mirabolante, um misto entre ficção histórica e fantástico que se centra num burlão ou mentiroso compulsivo que convence o rei a patrocinar uma expedição até ao Reino de Prestes João a fim de verem pessoalmente as bestas maravilhosas e as riquezas descritas numa suspeita carta. Invenção sobre invenção, tudo parece ir-se encaixando numa ilusão cada vez maior.

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Bastante diferente dos anteriores é A Misteriosa Chama da Rainha Loana, um livro que se debate com a perda da memória depois de um AVC, pelo ponto de vista de um velhote que recorda todas as páginas dos livros que leu, mas nada que se relacione com a sua própria vida. Lentamente estas memórias irão surgir entre as linhas das histórias que leu.

(continua…)

The Singular and Extraordinary Tale of Mirror and Goliath – Ishbelle Bee

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Eis uma daquelas capas que me fez temer o conteúdo – um clássico ouro sobre azul, mostrando uma criança acompanhada por um adulto, debaixo de um título sonhador e enquadrado em detalhes mecânicos que auspiciam um Steampunk juvenil e inocente. E depois de toda esta sensação, porque peguei no livro? Por causa da editora – a impressão que me ficou é que a Angry Robot costuma publicar histórias estranhas e alternativas, que, apesar de nem sempre atingirem o patamar do excelente, costumam deixar marca. E assim foi com este livro que, ultrapassando as primeiras perspectivas, de inocente tem muito pouco.

Mirror e Goliath são dois companheiros de viagem que retornam do Egipto num navio. O que os une e o motivo da sua viagem é tudo menos uma relação familiar tradicional – Goliath terá sido o polícia que salvou Mirror de morrer às mãos do avô que terá assassinado as outras duas netas, encarcerando-as vivas num caixão. Mirror, por sua vez, terá ficado presa num relógio de estranhos poderes mágicos. Apesar de salva não sobreviveu incólume, julgando-se agora possuída por algo que não a deixa cair na liberdade desprendida de uma criança normal.

Mas se a criança não é a mesma, também o seu salvador mudou – Goliath tornou-se uma espécie de transmorfo, activado apenas quando necessário. Assumindo a guarda da menina leva-a ao Egipto, onde o pai estará responsável pelas escavações arqueológicas do túmulo de uma princesa que terá tido fortes poderes mágicos. Regressados a Inglaterra, Goliath investe tempo e dinheiro a consultar todos os mediums charlatães a fim de perceber o que de errado se passa com Mirror. Assim atravessa o caminho de perigosos seres que pretendem usar Mirror.

Não julguem que a história vai rodar em torno desta perseguição, resumindo-se a duelos entre o protector Goliath e estes estranhos seres humanóides. Muito pelo contrário. Devagar vão-se desenrolando outras histórias que envolvem as restantes personagens, histórias de horror em que os espíritos de crianças são usadas para habitar belos e valiosos relógios, ou são raptadas por seres psicóticos para as educarem como monstros.

De pesadelo em pesadelo vão-se seguindo as histórias entrelaçadas de crianças que, incautas, cruzam o caminho de adultos mal intencionados e sofrem transformações mágicas – por vezes boas, mas na sua maioria, desoladoras. Apesar de existir quem tente impedir o uso das crianças a verdade é que são poucos e de escassos recursos.

Se, por um lado, o que destaca a história é não se centrar apenas no duo principal e entrelaçar histórias, julgo que este entrelaçar poderia ter sido melhor conseguido trocando a ordem de alguns capítulos. A história do duo principal quase se resume ao primeiro quarto do livro, sendo que apenas é retomada no final para encerrar o círculo e ainda que as restantes personagens sejam interessantes provoca alguma quebra na leitura. Ainda assim, é uma leitura bastante interessante e invulgar, que, não atingindo o patamar do excelente, consegue ser muito boa.

(cópia digital fornecida gratuitamente pela editora)

Resumo de Leituras – Maio (1)

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61 – Locke & Key Vol. 4 – Joe Hill – O mistério em torno das chavas adensa-se, com novas capacidades descobertas e exploradas mas, agora, o vilão principal retira a máscara àqueles que persegue, em cenários de grande violência sádica. Este volume é caracterizado por alguns episódios que se centram no irmão mais pequeno, e por isso, de desenho mais infantil e inocente, que contrastam com as acções que se desenrolam;

62 – A Música do Silêncio – Patrick Rothfuss – Uma estranha e pouco movimentada história em torno de uma pequena rapariga que vive em harmonia com os subterrâneos onde habita. Oscilando entre o fascinante e o irritante, suscitou algum interesse pelo mundo relatado.

63 – Lusitânia N.º 2 – Vários autores – apesar de algo oscilante em qualidade, apresenta boas histórias – João Barreiros, autor convidado, presenteia-nos com uma negra história Steampunk, Pedro Cipriano apresenta-nos um Portugal distópico num conto bem escrito, e João Franco deambula pelo interior português numa história de horror.

64 – The Singular and Extraordinary Tale of Mirror and Goliath – Ishbelle Bee – História Steampunk bastante menos inocente do que faria esperar pela capa, onde as crianças são recorrentemente usadas para fins obscuros e macabros. Entre mediums charlatões, bruxas poderosas e raptores sobre-humanos, algumas crianças emprestam a sua alma para belíssimos e valiosos relógios. O sentido de tudo isto é desenvolvido numa história negra e de pouca esperança. Tratando-se de um exemplar fornecido pela editora, o comentário mais completo ao livro apenas será lançado no início de Junho.

Curta: The Alchemist’s Letter

Financiado através do Kickstarter é uma excelente, apesar de simples em história, curta de animação que se pode enquadrar no género Steampunk. De realçar o aspecto gráfico. Para saberem mais do projecto por detrás do pequeno filme podem consultar o artigo no Sfsignal ou o site oficial

 

 

Série de links interessantes

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Bar steampunk – Romania

E existe alguma razão para que estas compilações se iniciem por diversas vezes com o tema Steampunk – o cruzamento das engenhocas com qualquer estilo originam belíssimos espaços e peças de arte. Neste caso trata-se de um bar na Romania. No artigo podemos ver que, entre mesas toscas e quadros de cavaleiros com goggles, se encontram zeppelins a servir de candeeiro, transportes aquáticos semelhantes a polvos, e máscaras robóticas com engenhocas de roldanas.

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Esculturas surrealistas de Ellen Jewett – clicar na imagem para visualizar artigo e outras esculturas

Mudando totalmente de estilo,esta delicada escultura é apenas uma das muitas que podem visualizar no artigo sobre a arte de Ellen Jewett. Surrealistas e pouco densas, como que recordando um sonho ou uma mistura do essencial dos corpos com a imaginação, a maioria das esculturas junta partes de mais de um animal ou objecto, resultando em fantásticas peças mesmerizantes. Caso estejam curiosos, as peças estão à venda na galeria oficial da artista, desde preços acessíveis (65€) a proibitivos (2 500€).

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Menos naturais e mais metálicas, mas igualmente fantásticas, são as esculturas de Richard Stainthorp. Explorando principalmente a figura humana em transfigurações fantasiosas de imensa fluidez, as peças conseguem ser fabulosas. Apesar da uniformidade em material e cor possuem uma estranha vivacidade.

Eis, outros artigos sobre arte fantástica, bastante interessantes:

Fantast in Focus: Daniel Merriam – imagens espectaculares carregadas de arabescos que transformam qualquer estrutura banal em algo espectacular;

Salvador Dali illustrates Alice in Wonderland – em 1969 o artista terá realizado 12 gravuras para uma versão ilustrada do livro, cada uma mais espectacular do que a anterior.

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Agora para um tema mais literário – alguém recorda o fantástico Baudolino de Umberto Eco? Um livro passado em terras imaginárias com animais míticos, tudo envolto em tropelias de mentiroso? Bem, eis a razão pela qual me recordei desta obra – Legendary Lands, também de Umberto Eco, explora mapas de sítios imaginários e apresenta dissertações sobre a nossa atracção por estes temas. Neste artigo podem ver um pouco mais do que nos espera com a leitura. Continuando com terras inventadas baseadas na realidade, aconselho a leitura deste artigo – Fantasy Worlds that break history’s back. Aqui encontram uma pequena dissertação sobre a transfiguração da história e da realidade.

E entre os artigos que mais gosto de manter, encontram-se sempre algumas listagens de livros, por títulos curiosos:

13 Fantasies Inspired by Mythology from the British Isles – esta pequena lista possui alguns livros óbvios como Mythago Wood de Robert Holdstock, mas também obras menos conhecidas que valerá a pena explorar para quem gosta deste género;

Five books that are also labyrinths – novamente pela TOR.com, um curtíssimo conjunto que possui alguns dos meus livros favoritos e outros que, neste seguimento, foram logo adicionados à lista de aquisições futuras;

Five books about weird metropolises – outra lista que contem obras favoritas, mas à qual, sem pensar muito, juntava muitos mais! Como The Other City de Michal Ajvaz;

16 Ecologically-minded speculative fictions – e se o conceito vos repele ou vos desinteressa, basta olhar para o início da listagem para perceber que talvez estejam a passar à frente de boas obras: Annihilation de Jeff Vandermeer, Oryx and Crake de Margaret Atwood, ou Stand on Zanzibar de John Brunner.

OK, Where do I start with that – a lista das listas – Jo Walton fez um grande índice alfabético explorando a cada letra um conjunto de autores e sugerindo livros para iniciar a leitura. Concordando-se ou não com algumas das escolhas, contem excelentes sugestões, que ainda não tive tempo de explorar para além da letra C. Sim, o conjunto é assim tão grande!

Finalmente, sem qualquer categoria específica eis mais quatro artigos:

Origins of the ghoul – figura explorada raramente nas recentes obras de fantástico negro ou horror, apresenta-se como uma transfiguração da espécie humana;

Jessamy Taylor’s top 10 castles in fiction – castelos que inspiraram ou serviram de palco para grandes obras;

11 Facts about Shirley’s Jackson The Lottery – o excelente conto distópico deu que falar e incomodou muita gente;

9 Great songs about libraris, librarians and books – e porque não ouvirmos, também, algo relacionado com livros?

Série de links interessantes (2015-03)

steampunk

Expandindo-se muito para além da literatura, o género Steampunk tem dado origem a belíssimas peças de decoração ou de arte como esta acima. Entrelançando elementos naturais com tecnologia a vapor, madeiras e cobres, surgem várias galerias excepcionais para quem gosta do género (Galeria 1 | Galeria 2).

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Igor Verniy

 

Continuando no género Steampunk, deixo-vos um link para o festival de Steampunk em Tóquio que cruza elementos deste género de ficção especulativa, com elementos orientais. Mas já agora, porque não, também, Steampunk na Rússia? Desta vez não sob a forma de arte, mas de objectos de decoração. Igor Verniy cria esculturas steampunk de animais recorrendo a peças antigas seja de automóveis ou de relógios. O resultado é fantástico.

Artigos interessantes

Baddies in books: Steerpike, the great manipulator – O papel dos mauzões na literatura, mais concretamente na trilogia Gormenghast (publicada em português pela Saída de Emergência, sem grande furor, apesar de ser uma excelente trilogia fantástica);

6 SF / F Novels with non-white protagonists that aren’t by Octavia Butler – Depois de alguma polémica na net relativamente a artigos que desaconselham a leitura de obras centradas em homens brancos, eis que surge uma lista com sugestões para seis obras onde se inclui o Stranger In Olondria (que achei muito bom). Questões de género ou de raça à parte, a pequena lista tem boas sugestões de leitura;

Nebula Awards – Estão publicados os nomeados deste ano. Dos listados apenas li Annhilation de Jeff Vandermeer, mas estou curiosa em relação a Three-Body Problem de Cixin Liu e Ancillary Sword de Ann Leckie;

Throwback Thursday: The Tartar Steppe and the Birth of Magical Realism – publicado nos últimos anos em duas edições distintas, O Deserto dos Tártaros de Dino Buzzati é uma das obras que marca o Realismo Mágico. Ainda assim deixo a nota de que, mais do que este, O Segredo do Bosque Velho é-me muito mais querido;

 

Resumo de Leituras – Março de 2015

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29 – Wastelands – Stories of the Apocalypse – Vários autores – um bom conjunto de histórias apocalípticas que surpreendeu com os autores menos conhecidos, mas que ficou aquém nos autores mais relevantes. Com diferentes abordagens ao tema, algumas muito interessantes, um conjunto aconselhável.

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30 – O Manuscrito Durruti – Rafael Gouveia – pequena história de encontros e desencontros ao longo de várias cidades europeia, que culmina de forma abrupta. Exercício interessante em torno de Durrutti, mas que do ponto de vista da história contada tem pouco para retirar.

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31 – Jacaranda – Cherie Priest – História de horror decorrendo no mesmo Universo que a série steampunk ClockWork Century, onde se cria um ambiente apropriado dentro de um hotel mais habitado do que parece à primeira vista. Engraçada, sem ser excelente, a história possui algumas falhas na concretização, em que a autora parece não saber o que fazer com tanta personagem.

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32 – The Dark Issue I – Vários autores – A primeira edição desta revista possui quatro contos fantástico com detalhes de horror de Nnedi Okorafor (conhecida por Who Fears Death), Rachel Swirsky, Angela Slatter e Lisa L. Hannett. Gostei bastante de dois dos contos, o que é excelente considerando que é uma revista que, até agora, tem sido distribuída gratuitamente.

Últimas aquisições digitais (algumas gratuitas)

the situation

Publicado em 2008 é uma pequena e espectacular história de um ambiente de trabalho surreal em todos os aspectos, um ambiente de trabalho que se vai tornando cada vez mais hostil e distante enquanto se aprofundam as intrigas entre colegas. Mas sendo uma história de Jeff Vandermeer, claro que não poderia ser assim tão simples. Lentamente percebemos que fora daquela empresa a cidade sofreu alguma catástrofe e os trabalhadores têm muito pouco de humano. The Situation encontra-se disponível gratuitamente. Caso gostem, podem também encontrar uma pequena banda desenhada no site TOR.com.

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A Subterranean Press costuma ser responsável por excelentes edições de ficção científica e fantástica, de conhecidos autores dos géneros. Em parceria com a Humble Bundle estão a lançar um “paga o que quiseres” por um excelente conjunto de sete edições digitais: Brayan’s Gold de Peter V. Brett ou Jacaranda de Cherie Priest (conhecida pela série Steampunk iniciada com Boneshaker). Quem pagar mais do que a média tem direito a mais 12 livros de entre os quais destaco os livros de Clive Barker, Ted Chiang, John Scalzi, ou Elizabeth Bear . E quem pagar mais do que 15 dólares recebe ainda a mais 3 livros. Resumindo: por 15 dólares podemos receber 22 livros.

Pedindo submissões

Eis algumas novas oportunidades para quem escreve !

call to arms

Planeado o Clockwork para 2015, claro que seria de esperar a edição de um novo Almanaque Steampunk. O formato dos anteriores é bastante interessante (podem ver o de 2012 aqui) pelo que o de 2015 não deve ficar atrás. Para o Almanaque não se procuram apenas histórias, mas também banda desenhada, ilustrações e poesia. Podem ver instruções mais detalhadas no site oficial.

concurso de contos de terror

Já divulgado anteriormente aqui, mas cá fica novamente a nota. A iniciativa enquadra-se dentro do evento Sustos às sextas e procura contos de terror. Através do e-mail ou da página de facebook podem encontrar mais informação.

divergencia

Enquanto nos anteriores se aceitam contos, aqui aceitam-se manuscritos, dentro do género ficção especulativa: fantasia, ficção científica e terror. Fica a nota de que não pretendem trilogias nem séries, mas histórias de um volume apenas. Aqui ficam mais detalhes.