Pássaros na Boca foi lançado recentemente em português pela Editora Cavalo de Ferro, colado a alguns comentários à autora que a comparam a Adolpho Bioy Casares, Cortázar ou, até, Borges. Uma comparação no mínimo perigosa pelas elevadas expectativas que deixa no futuro leitor. Este volume não nos apresenta uma única história,  mas sim 18 contos, na sua maioria curtos, que vão variando em qualidade e em género. Alguns possuem toques de fantástico ou horror, recordando contos tradicionais.

Irman é o nome do primeiro conto, uma história ligeiramente perturbadora de um casal que pára num restaurante à beira da estrada. Neste apenas se encontra um homem muito baixinho – demasiado para desempenhar as suas tarefas. Talvez por ser o primeiro e por ter esmagado as elevadas expectativas, este apresentou-se como um dos mais fracos do conjunto. Quase recordando uma história de duendes até ao final, revela-se uma história quase comum, relatada pela perspectiva de dois viajantes pouco agradáveis.

Segue-se Mulheres Desesperadas, uma história com grande componente fantástica onde as mulheres vão sendo abandonadas na berma da estrada, acumulando-se e lamentando-se eternamente. Na Estepe é uma história curiosa em torno de algo que um casal espera ansiosamente por conseguir há alguns anos. Nunca chegamos a descobrir o que será que aguardam e a história é interrompida abruptamente, algo que me deixou mais irritada do que curiosa.

Cabeças sobre o asfalto é um dos melhores contos do conjunto, onde um artista demasiado concentrado nas suas pinturas, tem acessos de violência sempre que se intrometem na sua arte, desde criança. Nestes acessos de violência bate com a cabeça das suas vítimas contra o chão e é este o tema dos seus quadros. Uma personagem autista que nos apresenta um ponto de vista arrepiante. Em Para a Alegre Civilização vemos tornado realidade o pesadelo de qualquer viajante: ficar retido sem possibilidade de retornar a casa. Neste caso trata-se de um homem que não consegue adquirir um bilhete de comboio por não ter dinheiro trocado. Descobre depois que, no mesmo local, se encontram há muitos anos outros como ele.

Passando a  A Medida das Coisas, um adulto endinheirado é corrido de casa pela mãe, vendo-se empregado numa loja de brinquedos. Nesta, diverte-se a dispor os objectos construindo cenários maravilhosos que atraem as crianças. Também uma das melhores histórias do conjunto, que nos deixa a pensar.  A Pesada Mala de Benavides é outra história extraordinária onde o conceito de arte é explorado de uma forma grotesca. Relembra aquilo que se diz sobre a diferença entre ser um pobre ou um rico a roubar. O primeiro é preso, o segundo quase enaltecido. Mas aqui trata-se de um homem que mata a esposa e ao procurar o médico confessando-se, vê-se indicado como um verdadeiro artista.

Os dois contos finais, apesar de curtos, também se revelam interessantes: O Pai Natal Dorme em Casa e Debaixo da Terra. No primeiro um rapaz assiste à perda de emprego do pai e à depressão da mãe, contando toda a situação com uma perspectiva inocente. No segundo conta-se uma pequena história de terror numa aldeia mineira, onde as pessoas desaparecerão misteriosamente.

Os restantes contos impressionaram-se muito pouco, apresentando situações insólitas sem grande desenvolvimento: um homem que ao chegar à casa de férias se depara com um cavador que constrói um poço, bêbados entorpecidos que sonham com a revolução, um homem que para trabalhar num gang mata atabalhoadamente um cão, uma aldeia que entra em estado de latência deixando de sentir fome, um homem que perde a mulher na viagem de lua de mel… para um estrangeiro endinheirado, ou uma grávida que decide regredir a gravidez sem matar o bebé.

No final, gostei imenso de menos de metade dos contos tendo os restantes deixado-me indiferente. Ainda que algumas das histórias apresentem uma estrutura clássica e coesa, outras são demasiado desprendidos em tom ou em conteúdo. Considerando a totalidade dos contos é interessante, mas se o volume fosse composto apenas pelos melhores contos diria excelente.