O primeiro volume da série Clockwork Century, Boneshaker, destacou-se no género Steampunk pela inclusão de zombines no enredo. O conceito era novo e a capa fascinou bastantes leitores – os zombies teriam origem num gás tóxico existente nos terrenos de Seattle, libertado pela passagem da primeira escavadora. Esta terá sido inventada por um cientista ganancioso que pretendia utilizá-la para roubar bancos. Com a libertação do gás parte da população vai-se transformando lentamente, e os seres humanos que restam decidem isolar o centro da cidade com um muro. No interior teriam ficado todos os zombies, assim como alguns seres humanos que conseguem manter-se seguros, bombeando ar saudável para as profundezas onde vivem.

Dreadnought ocorre no mesmo Universo de Boneshaker, apesar de constituir uma história independente. Seguimos agora uma enfermeira, Mercy, que trabalha num hospital de soldados, durante a guerra civil americana. A notícia da morte do marido chega-lhe quase ao mesmo tempo que um telegrama informando a doença grave do pai biológico, desaparecido há vários anos. Relutante, Mercy decide-se a empreender sozinha a viagem que a fará atravessar os Estados Unidos da América, utilizando para tal todos os meios de transporte disponíveis: balão, barco e comboio.

O balão onde viaja cai no meio de uma batalha, e parte da bagagem perde-se. É assim que Mercy toma conhecimento de algumas temíveis e pouco humanas armas de guerra, que conseguem mover uma linha de batalha vários quilómetros em pouco tempo. Com alguns (poucos) acidentes, Mercy prossegue viagem disponibilizando-se para utilizar os dotes de enfermeira sempre que necessário e é assim que toma conhecimento de uma droga amarela, utilizada por alguns soldados. Esta droga transforma-lhes a cor da pele e o comportamento. Como soldados, os utilizadores desta droga não sobrevivem muito tempo, mas quando esta droga começa a afectar outros homens, começam a aparecer doentes que têm de ser amarrados… ou então irão morder os restantes seres humanos.

Demasiado centrado em Mercy e nas suas capacidades como enfermeira, a história torna-se um relato de viagem bastante calmo, considerando a guerra em curso. Os momentos emocionantes concentram-se principalmente no final do livro, com perseguição de comboios, artilharia pesada e exércitos de zombies. Ainda que tenha a coragem de tentar acalmar um homem nos últimos momentos de vida, Mercy revela-se por vezes mais espectadora do que participante. Para além de Mercy algumas das restantes personagens nem sempre agem de forma congruente, tomando decisões necessárias ao enredo, mas não adequadas à sua postura.

A história vale sobretudo pelo último terço, mais movimentado e, até, divertido, que nos estimula a imaginação: invenções a vapar (que mereciam um pouco mais de descrição técnica), perseguições e tiroteios com espionagem e traição. Em suma, gostei mais da componente acção em Dreadnought do que em Boneshaker, mas Dreadnought apresenta-nos alguns momentos mais parados sem grande importância e falha por vezes na exploração das personagens.