Antologia de ficção científica Fantasporto

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Criada no seguimento do Fantasporto de 2012, esta antologia organizada por Rogério Ribeiro inclui contos de ficção científica de vários autores conhecidos no género, bem como de alguns que terão sido escolhidos em concurso. Realidades paralelas, alienígenas no quintal, fogo vivo ou futuros distantes – criar uma antologia deste género é difícil em Portugal por conta da escassez de autores, mas ainda assim encontramos excelentes contos neste conjunto.

A antologia começa com um conto de António de Macedo, O tempo tudo cura menos velhice e loucura. E se houvesse uma forma de viajar no tempo, usando um guarda-chuva de varetas alteradas e o próprio corpo como meio? Baseados num artigo científico, um grupo de velhotes bem tenta, mas sem sucesso. Até que o manusear desvairado de uma esposa ciumenta activa o mecanismo e um velhote entravado volta a experimentar o corpo da juventude e seus amores passados. Mas por pouco tempo. Logo é transferido para outros momentos, em sucessivas viagens que não controla.

De autoria de Beatriz Pacheco Pereira, O Robot Auris é um excelente conto centrado num robot que, tendo capacidade de aprendizagem e adaptação, percebe como manipular os seres humanos. A este segue-se O Festival de Filipe Homem Fonseca, contado em vários episódios que começa por descrever festivais de silêncio, espectáculos que, numa época demasiado movimentada são valorizadas ao extremo – festivais que podem esconder algo bastante maior.

Em Virgílio Bentley e o extraterrestre de Ágata Simões, relembramos a personagem de Sr. Bentley, numa divertida aventura com um extraterrestre em missão diplomática. As mãos e as veias de Afonso Cruz é uma história que me recorda a premissa do filme Strings. Nesse seguimento, sem ter achado original, não me parece ser um conto enquadrado no género da ficção científica. Tsubaki, de Bruno Martins Soares, foi a primeira história que li do autor. Confesso que estava curiosa, mas este achei-o algo confuso, com vários episódios interligados que não me despertaram especial interesse. Infelizmente.

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Fogo, de João Ventura, foi dos contos que mais apreciei deste conjunto, centrando-se num tempo futuro em que o fogo ganha consciência e inteligência, tanto maiores quanto a dimensão do incêndio. Por sua vez, O Cão de Isabel Cristina Pires é uma história engraçada que se centra num cão que segue uma bióloga para sua casa, acabando por ser acolhido. Quando esta muda de planeta e o deixa para trás, persegue-a e acaba por conseguir fazer-se transportar para o mesmo destino. Com uma reviravolta engraçada, mas algo previsível, é um conto agradável.

Da autoria de Madalena Santos, O Mistério dos Uivos apresenta seres humanos num outro planeta, demasiado dependentes da inteligência artificial e de certos mecanismos que se tornam confortáveis, mas que também os tornam menos hábeis. Nesta realidade, a música é apresentada por uma inteligência artificial, sem a possibilidade de recriar uma orquestra viva.

Acordar o profeta de João Leal é um bom conto envolvendo extraterrestres e teorias de conspiração. Se bem que, neste caso, as teorias são verdadeiras, e através de um grande esquema se planeia a manipulação da humanidade. Já a história de Telmo Marçal, As moças do campo, é brutal e irónico como já estamos habituados com o autor. Uma série de prostitutas recebe uma vacina que as tornará imunes a todas as doenças da época, mas será que a vacina tinha o conteúdo prometido?

A inimaginável materialização de Samira de João Paulo Vaz é um dos contos seleccionados através do concurso, com menção honrosa, e o primeiro a aparecer na antologia. Na realidade descrita os seres humanos apenas têm sexo virtual – mas não pensem que se tenta simular o sexo real, tido como demasiado carnal e, até, nojento.

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António Carloto foi o vencedor do concurso, com Uma alforreca no quintal um conto simultaneamente divertido e misterioso, que retrata um homem que encontrou, no seu quintal, um extraterrestre com formato de alforreca gigante, do qual não se aproxima por receio. A presença estranha leva-o a evitar visitas, mas a verdade é que até lhe faz companhia.

De José Cardoso, outras das menções honrosas, chega-nos Expedição ao Futuro, com um projecto para construir uma máquina de viagem no tempo com recurso ao pensamento. Um conceito engraçado que achei desaproveitado. Também Déjá-vu de Luís Roberto Amabile me pareceu um conto demasiado vago e pouco corpóreo e A Besta-fera de Rodrigo Silva é uma história curta e engraçada, apesar de previsível.

de Manuel Alves explora a inteligência artificial numa premissa que não é totalmente original, e um desenvolvimento que requer ainda algum apuramento para ser um excelente conto. Não me entendam mal, é bastante melhor do que alguns dos contos escolhidos por concurso e do que, até, de alguns autores convidados, mas ao pegar numa premissa que já vi espelhada noutras histórias, a comparação é inevitável.

Apesar de ter algumas histórias mais fracas, a antologia vale bem a pena. O primeiro conto, de António de Macedo, possui uma reviravolta interessante e irónica, com espaço para interpretações finais. Dois dos contos exploram de forma inteligente e até arrepiante a inteligência artificial (O Robot Auris de Beatriz Pacheco Pereira e O Mistério dos Uivos de Madalena Santos) enquanto Fogo de João Ventura nos apresenta a inteligência de algo que para nós é inerte.

2 pensamentos sobre “Antologia de ficção científica Fantasporto

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