Princípio de Karenina – Afonso Cruz

Princípio de Karenina é bastante diferente dos restantes livros de Afonso Cruz que li.  E li bastantes. É o menos fantástico (ou com elementos fantásticos). É o menos deambulatório, deixando de oscilar entre personagens, curiosidades e tempos diferentes, para contar a história de uma única personagem, numa sucessão temporal sem saltos.

A personagem em si, é peculiar – e é pela voz da própria que começamos por acompanhar a sua infância, ver como faz amigos e inimigos e como se relaciona. Mas, ainda que tenha um pé lesionado, não e isto que mais o distingue. Antes a forma como o pai se relaciona com o exterior e a forma como o contamina.

O meu pai, sei disso hoje, resumia-se a uma palavra: medo. Toda a aversão ao estrangeiro, ao inusitado, à novidade, ao que está além, era apenas um pânico visceral do mundo, que ele disfarçava transformando esse medo trágico em ética conservadora, em solidez moral. Parecia seguro e inabalável, mas é assim que o medo se veste para sair à rua, para ir à missa, para comentar o tempo e as doeças das vides e o trabalho do lagar.

O exterior é, assim, imoral. Não só o estrangeiro, mas o que se encontra para além da vila. O que está fora de casa. Tudo o que é novo, estranho, diferente. Tudo o que está para além da casa familiar. É indigno. Pouco sério. Contaminante. Assim se prenuncia o pai. Assim cresce o filho, isolando-se, quebrando esse sentimento por raras vezes, com aquela curiosidade típica do crescimento que é quebrada por completo.

– Nunca saia do seu país, menino, nunca saia de casa mais do que o estritamente necessário, que é perigoso – Voltou a fechar os olhos e a levar o polegar e o indicador às pálpebras. – É muito perigoso – sublinhou, com os olhos fechados. – Se precisar de alguma coisa de fora, mande vir pelos correios. Sente-se à lareira, que não há nada melhor, nem mais importante.

Este discurso e postura há-de marcar o crescimento do homem que narra a história. Mas há-de ser, precisamente do estrangeiro, que vem a novidade e aquilo que quebra este cinzento, aquilo que irá dar outros sentimentos, menos cinzentos à sua existência. Até lá, o homem conta como se formou, como fez um grande amigo e dele se afastou, incapazes, os dois, de ultrapassar as diferenças que vão surgindo ao longo da vida. Incapazes de se entender (ou de o tentar) – um deles fixo numa paixão, ou outro cego a este sentimento.

Princípio de Karenina é, assim, um livro mais ligado à narrativa de uma história, um livro que fala do surgir do isolamento e da passividade em procurar a felicidade. Mas, também, do medo do que é diferente, do receio em conhecer e no refúgio do que é caseiro – elementos que levam ao arrastar de decisões e ao definhar das pessoas (e, neste caso, das personagens).

De leitura fluída, agradável, Princípio de Karenina fixa-se no seu fio condutor (tal como a personagem se fixa ao conhecido) para tecer uma história de arrependimento e obsessão, uma história de quebra temporária que demonstra que o que vale a pena são os fugazes momentos de fuga ao conhecido.

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