Emphyrio – Jack Vance

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Viagens interplanetárias num vasto Império Intergaláctico, evoluída engenharia genética e cenário distópico, esta história de ficção científica consegue englobar, ainda, outros elementos que a tornam numa das grandes histórias do género – a história de uma infância feliz e despreocupada que se torna uma obsessão pela verdade, a história de um herói destruído por um bem maior ou a história de uma austera distopia que revela uma farsa económica a nível planetário.

A história começa num cenário quase medieval, numa sociedade em que se conhecem tecnologias mais avançadas mas que são proibidas por desvirtuarem o produto resultante – o meio tradicional é o melhor e ai de quem questione esta afirmação infundada. A família em que se centra a acção é atípica. Não por ser constituída apenas por pai e filho, mas porque o pai, carpinteiro, resiste silenciosamente ao sistema de ditadura camuflada, ocultando um comportando subversivo – tarda em impor ao filho as normas de religião e trabalho, louvando a livre e inocente exploração tipica da idade. Nada de que possa ser acusado formalmente, mas que cria suspeitas na mente dos fiscais.

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capa de Nicolas Bouvier – podem clicar na imagem para acederem a mais trabalhos excepcionais do artista

Para Ghys, o filho do carpinteiro, a vida é aparentemente calma e liberta – a criança deambula com um amigo pela cidade, explorando ruas e ruelas, sem ter assumido ainda responsabilidades nem definido futuro profissional. É num espectáculo de marionetas que Ghys percebe que algo de oculto existe – a história de um herói que terá ajudado a fundar a sociedade é um mito incompleto ao qual falta um verdadeiro final.

Fascinando pela sombra que o espectáculo desperta, o rapaz volta dias depois ao teatro, escalanod uma coluna. Nesse mesmo dia são visitados por um fiscal por conta do seu comportamento desapropriado e o pai é pressionado a ocupá-lo devidamente, no templo, com os rituais divinos obrigatórios, ou em casa, numa profissão. Para além de se sentir desenquadrado no templo (Ghys conhece pouco dos rituais), é desencorajado a questionar o que o rodeia. É assim que começam os problemas, com o rapaz a crescer à margem da normalidade cega que o rodeia.

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Da mesma forma que o rapaz vai deixando a inocência, também o leitor começa a perceber que, naquela sociedade, é imposta uma normalidade agressiva, quase obsessiva, onde qualquer comportamento divergente (mesmo que legal) é visto com desconfiança e antecessor de problemas sociais. A obsessão não se restringe aos comportamentos, e abrange todo o trabalho automático, sendo proibida a cópia de qualquer tipo, dando-se especial ênfase aos produtos manufacturados e aos manuscritos.

Esta proibição revela-se uma forma de manter os habitantes como escravos – não existindo qualquer automatismo nos processos de produção, e desvalorizando-se o produto do trabalho, qualquer família tem de se dedicar exclusivamente à profissão para se poder manter. Os poucos tempos livros devem ser dedicados ao culto religioso.

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Freedom, privileges, options must constantly be exercised, even at the risk of inconvenience. Otherwise they fall into desuetude and become unfashionable, unorthodox – finally irregulationary. Sometimes the person who insists upon this prerogatives seems shrill and contentious – but actually he performs a service for all. Freedom naturally should never become license; but regulation should never become restriction.

Sacudindo os fiscais com meias promessas e frases vazias de concordância, o pai de Ghys mantém-se na fronteira da subversão, o que levanta suspeitas. A confirmação de um comportamente divergente é obtida quando Ghys apanha o pai a copiar, por meio de mecanismos proibidos e à média luz, uma série de textos em páginas impressas – uma forma de se manter são. Finalmente, apesar de se manter dentro da lei formal, é a crença de que os direitos devem ser exercidos que desgraça o pai e o atira Ghys para a busca da verdade.

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O que Ghys descobre é uma farsa a nível planetário, onde o trabalho manual mal pago é uma forma de alguém lucrar, vendendo, a preços abismais, o resultado do trabalho manual. Quem lucra e como se montou este sistema de controlo extremo, num ambiente tipicamente distópico de vigilância personalizada, é o que o nosso herói vai descobrindo dolorosamente.

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Eis um exemplo de que entre os clássicos existem bons livros a explorar. Excelente história do ponto de vista conceptual, em Emphyrio consigo apontar apenas como defeito a demasiada coincidência de determinados factos rodeando a história que a revestem de uma aura determinista, a existência de um destino heróico onde o protagonista é quebrado em proveito de um objectivo maior que um homem.

Numa história onde são vários os paralelismos metafóricos em vários episódios de interpretação maior, perceptível na globalidade da história, são exactamente os detalhes que contribuem para criar o ambiente e levar o leitor, concedendo relevância a alguns episódios que, de outra forma, poderiam ser banais – até a marioneta do espectáculo inicial tem um importante papel, ao ganhar uma consciência perversa que a leva a ser descartada.

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3 pensamentos sobre “Emphyrio – Jack Vance

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