O nome Mafalda Santos destacou-se o ano passado com o lançamento de uma colectânea de contos de horror, Conta-me Escuridão. Este livro foi lançado durante a Pandemia, mas ainda assim, a autora foi convidada para o Festival Contacto que decorreu online. Mais recentemente, a autora publicou novo livro, desta vez, um livro de ficção científica.

A história

Gabriel e Sara conheceram-se e apaixonaram-se no início de uma pandemia. Tudo parecia perfeito entre eles. Até ao dia em que se separam. Gabriel não consegue encontrar a rua, nem a casa de Sara e pensa ter vivido um episódio psicótico. Para Sara, Gabriel desapareceu no nada, deixando-a sozinha no meio de uma cidade em declínio.

A história avança em paralelo, alternando entre Gabriel e Sara, mostrando as situações em que se encontram. Gabriel está num mundo aparentemente normal, onde Sara não existe. Entre visitas à psicóloga e medicamentos para psicose, Gabriel retoma lentamente à normalidade. Por sua vez, o mundo de Sara cai no caos, com um governo ausente, e o estabelecimento de uniões entre os moradores da cidade, para se defenderem do que existe fora do seu espaço.

Crítica

Do Outro Lado apresenta-nos uma história que parece oscilar entre romance e ficção apocalíptica. Digo parece porque, ao contrário dos tradicionais romances, esta história segue caminhos mais realistas na progressão dos relacionamentos amorosos das personagens, que se distanciam dos usuais percursos obsessivos e unidimensionais.

A história encaixa nos requisitos de uma história de ficção científica – a existência de duas realidades paralelas com desenvolvimentos semelhantes mas suficientemente diferentes, e o facto de uma das realidades estar a sofrer uma doença de elevada mortalidade que ameaça a humanidade (e o sentimento de humanidade); ainda que, em termos de explicações científicas existam detalhes que precisavam de ser aprimorados – viroses que se curam com antibióticos, vírus visíveis em microscópios comuns e alguns confusões entre doenças adquiridas por agentes patógicos e doenças auto-imunes. Detalhes que não serão apanhados por todos os leitores, bem sei, e que na realidade não têm impacto na progressão narrativa.

Do Outro Lado é, essencialmente, pouco optimista em relação à humanidade. Em tempos de sufoco de recursos, com uma pandemia em vigor e a ausência de entidades oficiais, os humanos tornam-se desconfiados e egoístas, pouco cooperantes ou, sempre que possível, autoritários, escravizando outros para proveito próprio. Mas não precisamos de um apocalipse pandémico. De uma forma muito diferente, fora da necessidade de sobreviver, existem pessoas de pensamento frio e calculista que causam mais dano do que todas as formas de sobrevivência descritas anteriormente. Para balancear, também existem pessoas altruístas e desprendidas, revolucionárias ou simplesmente protectoras.

O desenvolvimento de Do Outro Lado surpreendeu. Iniciou-se como um romance, revelando alguns clichés deste género, mas conseguiu desprender-se e prosseguir por caminhos insuspeitos, afastando-se das inevitabilidades dos destinos, das atracções perpétuas e dos heroísmos clássicos. Para além do duo principal, a história vai apresentando outras personagens, algumas de forma tangencial, que caracteriza sucintamente com eficiência.

Todas, ou quase todas, as interacções têm uma função narrativa, permitindo descobrir / evoluir algo mais do enredo ou caracterizar determinada personagem. Ainda assim, não é uma escrita totalmente desprovida de enfeites, existindo alguns diálogos ou pensamentos de personagens que se alongam, suspendendo um pouco a sucessão de episódios de acção. Este é, aliás, um ponto em que se destaca Do Outro Lado – a cadência narrativa é acelerada, oscilando entre as duas personagens principais e garantindo conflitos emocionais e tensões relacionais de ambos os lados.

Existe um nítido acumular de tensão. Ou de expectativa. Mas este acumular é quebrado nalguns momentos e nem sempre tem o desenvolvimento esperado, criando-se episódios anticlimax que, ao se afastarem dos clichés, também criam falta de concretização narrativa – um sentimento de pontas soltas no leitor. Lá está, os clichés, sendo clichés, existem porque normalmente funcionam e devem ser usados q.b., com mestria ponderada. Apesar de criarem momentos que o leitor consegue antecipar, também proporcionam um sentimento de complitetude.

Conclusão

Então, mas no final disto tudo, gostei ou não gostei? Gostei. Bastante até. Por um lado, existem algumas surpresas no desenvolvimento que não esperava, e a história consegue ter momentos de originalidade, o que não é fácil num género não explorado. Por outro, consegue caracterizar personagens (q.b., sem grandes detalhes, mas conferindo uma personalidade suficientemente coerente a cada uma) e desenvolvê-las no contexto em que se encontram.