Presas fáceis – Miguelanxo Prado

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Durante muitos anos, e principalmente nas zonas mais rurais, as pessoas habituaram-se a ter, na figura do gestor de conta, um conselheiro e até, muitas vezes, um amigo. Quase alguém que, à semelhança do médico e da professora, teria conhecimentos aos que recorriam, com confiança, às sugestões e que os convenceria a fazer pequenos investimentos.

Não é, assim, tanto de estranhar que, na sequência das vendas, com toque de burla, de instrumentos financeiros de risco encoberto, em substituição de depósitos seguros, tantos velhotes tenham sido apanhados desprevenidos e tenham visto as suas poupanças delapidadas num esquema financeiro que pouca gente compreende totalmente.

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Ao contrário de uma burla normal, em que quem impõe o engano é pelo menos procurado e indiciado, a venda de gato por lebre resultou num encolher de ombros, num escárnio de “é o risco do mercado”, num buraco financeiro mal explicado que acaba por ser pago pelos contribuintes sem que se tente perceber o que aconteceu a tanto dinheiro (até porque todos suspeitam, mas provas…).

Neste seguimento, o clima em Espanha é de tensão. O esquema fraudulento atingiu proporções bastante maiores, delapidando as poupanças de milhares de idosos. Não é, assim tanto de estranhar, quando elementos de cada degrau da hierarquia bancária começam a cair envenenados que nem tordos – o motivo por detrás dos crimes é óbvio.

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Os casos amontoam-se e a polícia procura testemunhas e suspeitos, seguindo os passos das vítimas nos seus últimos momentos, divididos entre o cumprimento do dever e a percepção do esquema fraudulento que perpetuaram em vida e com o qual lucraram – o que pode acontecer quando as pessoas aparentam fraqueza e consequentemente são ignoradas, ridicularizadas e lançadas no desespero é o motor condutor desta história onde se denota a ausência de vencedores (os reais vencedores, esses, estão ausentes).

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Se o estilo crítico de Miguelanxo Prado funciona bastante bem nos pequenos episódios exagerados de caricatura social, aqui, sem grandes artifícios, a não ser a investigação policial que acompanhamos, torna-se progressivamente mais intenso sem que seja necessário declarar o óbvio.

Distanciando-se do esquema episódico (ou em mosaico) dos seus volumes mais típicos, Miguelanxo Prado debruça-se sobre um tema sério e actual, captando os traços mais vincados em caricaturas fidedignas, num tom bastante óbvio de crítica social que não precisa de exageros para se fazer sentir e pesar, destacando os pontos principais de uma burla a grande escala.

Presas fáceis foi publicado em Portugal pela Levoir em parceria com o Público na Colecção Novela Gráfica de 2016.

2 pensamentos sobre “Presas fáceis – Miguelanxo Prado

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