Depois de ter visto bastante burburinho com a edição francesa, eis que chega final (e, para mim, inesperadamente) a versão portuguesa a Portugal, pela Asa. Tal como esperado, tornou-se uma das leituras favoritas dos últimos tempos, sobretudo pela história que conta, ainda que tenha os seus clichés e uma progressão com algumas reviravoltas espectáveis.
A história centra-se em Ulysse, um rapaz de boas famílias dos anos 50, a quem é exigida uma postura irrepreensível. Está, sem dúvida, a ser preparado para vir a gerir a empresa da família, não lhe sendo dado descanso ou margem para ter hobbies. O quotidiano segue-se, expectável e cinzento, até ao dia em que a empresa é acusada de ter feito negócios com o lado errado da guerra. O pai, desejando manter Ulysse focado nos exames, e proteger a família, envia o jovem e a mãe para uma casa de campo onde poderá ter explicações detalhadas para as exigentes provas de matemática.



Aqui, Ulysse descobre todo um mundo novo. Por um lado, deixa-se fascinar pela filha da governanta. Por outro, cruza caminho com Cyrano, um chefe de cozinha de topo. Pretendendo, inicialmente, arranjar comida que seja mais apetecível para a mãe que recusa alimentar-se, Ulysse descobre a paixão pela culinária, começando a agir como cozinheiro numa pensão, ao mesmo tempo que finge fechar-se no quarto para estudar e foge de casa durante o dia.
A história apresenta a passagem para a perspectiva adulta da personagem Ulysse. Se, inicialmente, não tem maturidade para assumir o ambiente austero que o rodeia (e que toda a vida conheceu), o contacto com outras pessoas de objectivos diferentes, e a descoberta de uma paixão levam-no a ganhar forças para se centrar no que quer e a quebrar com as expectativas familiares. Ulysse, tal como outras personagens desta narrativa, não é, portanto, uma personagem perfeita, apesar das boas intenções que vai demonstrando nas suas decisões e acções. Denota-se que outras personagens carregam histórias passadas que as influenciam e transtornam as interacções deste presente narrativo, vertente que é mais explorada para Cyrano e tangencialmente para os pais de Ulysse.



Nesta quebra com o que é esperado, e na perseguição da paixão, o percurso de Ulysse vai apresentar alguns elementos cliché que são conhecidos. Mas como se diz, os clichés existem porque funcionam, e a descoberta de uma paixão que o retira do cinzento quotidiano vai criar empatia e motivação no leitor para torcermos pela personagem. Também o relacionamento que se estabelece entre Cyrano e Ulysse, de mentor, é, também expectável, mas funciona bem como pedra central na história para criar envolvência e empatia.
Apesar de usar clichés de forma competente, a narrativa consegue ultrapassá-los, dando algumas reviravoltas mais inesperadas (mas coerentes), fazendo com que a personagem não se torne um herói imediato, mas seguindo um caminho difícil, mas escolhido. Neste seguimento, o final não é totalmente conclusivo ou explícito, havendo um epílogo que se foca mais no fortalecimento dos relacionamentos familiares, no que nos detalhes da progressão de Ulysse.



Para além da linha narrativa principal que apresenta o crescimento de Ulysse, com o abandonar de um caminho que lhe era esperado, e a construção de um caminho próprio (deixando as pesadas expectativas familiares), a história vai apresentar, tangencialmente, questões de conflito social e classe, crítica às mais recentes tendências culinárias e distúrbios alimentares. Até se mudar para a casa no campo, Ulysse é um típico jovem de famílias ricas (ainda que orientado e bom rapaz) que convive apenas com outros do mesmo estrato económico. A mudança para o campo dá-lhe liberdade e possibilidade de desenvolver outros relacionamentos onde as regras sociais conhecidas não se aplicam da mesma forma.
Relativamente às tendências culinárias, Cyrano, sendo um renomeado chefe de cozinha, mantém-se ligado aos métodos e sabores tradicionais, dando grande valor à frescura e origem dos alimentos, e sabendo tirar o melhor sabor de cada ingrediente. Esta forma de cozinhar contrasta com os métodos daquilo que poderá ser o início da nouvelle cuisine, onde se dá primazia à apresentação e às técnicas inovadoras, um fogo de vista que é necessário para os chefes modernos.



Ulysse & Cyrano não deverá ser a melhor leitura deste ano (Rever Comanche e o primeiro volume de Blast ainda estarão acima) mas é um bom candidato para estar entre as melhores – ainda que existam episódios expectáveis e “apenas” um bom desenho (não ao nível extraordinário) gostei bastante da empatia criada e da forma como as personagens foram desenvolvidas.

