Pyongyang – Guy Delisle

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O ambiente fechado, a vigilância constante, a presença de um inimigo oculto que infiltra espiões culpado de todas os problemas, a figura divina de uma autoridade distante – já estamos habituados a todos estes elementos, presentes em distopias militarizadas, ficções fortes que se tornam clássicos do género da ficção científica como 1984 de George Orwell, Nós de Zamyatin, ou Kallocaína de Boye.

O que não estou habituada é a considerar que existe um país onde todos estes elementos são reais e onde a sociedade apresenta vincadamente as características de uma distopia. Não é por acaso que a personagem principal leva consigo uma cópia de 1984 para ler durante a sua estadia em Pyongyang.

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O que encontra na cidade coreana é a materialização da distopia militarizada onde, entre treinos militares obrigatórios para todos e os trabalhos voluntários (a realizar tarefas que ocupam totalmente os habitantes mas não são necessárias, como pintar pedras) pouco tempo resta para espaço pessoal ou deambulações de pensamento.

Sendo um estrangeiro na cidade coreana, a interação está limitada a outros estrangeiros, em locais próprios para convívio, e aos tradutores com os quais tem contidas conversas. Claro que tenta colocar questões mais matreiras, mas as respostas que obtem demonstram sempre uma total dedicação ao regime e ao grande líder.

 

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São vários os detalhes que denotam um enorme isolamento cultural – museus que tentam demonstrar o reconhecimento mundial da grandiosidade do líder, salas de cinema que apenas funcionam em épocas específicas com filmes publicitários do regime.

Simultaneamente, percebe-se que existem uma encenação propositada para estrangeiros. Todos são forçados (sob a perspectiva de passeio) a visitar a grande estátua do grande líder, todos andam uma (e apenas uma) paragem no metro de proporções abismais, mas só alguns percebem, em estadias mais longas, que existe uma maior oferta nos hóteis aquando da presença de delegações internacionais.

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É apenas através do cinismo de alguém que conhece outras realidades que nos é permitido visualizar para além do cenário e perceber que, quando algo não funciona correctamente, se escondem razões menos enaltecedoras por detrás das grandiosas, oficiais – o mundo norte-coreano revela a sua decadência por detrás da frágil fachada.

Apresentando-nos a visão de alguém que teve de trabalhar alguns meses no país e que explorou dentro dos limites permitidos, Pyongyang é uma leitura que se torna simultaneamente caricata (pela fragilidade dos argumentos) e arrepiante (pela dependência mental e inocência que os habitantes aparentam).

Em Portugal Pyongyang foi publicado pela Biblioteca da Alice.

2 pensamentos sobre “Pyongyang – Guy Delisle

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