Smokopolitan n.º7

img_0935

Ao longo da Eurocon foram sendo distribuídas vários zines em papel, mas entre elas destacou-se a Smokopolitan, por um lado pelo formato, esteticamente mais apresentável do que um folhetim, por outro lado por se apresentar em inglês e apresentar, desta forma legível, contos dos seus autores.

Entre entrevistas e artigos sobre ficção científica e fantástico encontramos seis histórias de temática e autoria diversa, alguns marcados por uma herança mitológica curiosa com figuras sobrenaturais e rituais que me são, de todo, desconhecidos.

O  primeiro conto da revista, Dragon and Capricorn, é também o primeiro da autora, Magdalena Kucenty, agora traduzido para esta edição em inglesa, e encontra-se dentro da ficção científica apresentando crianças com capacidades extraordinárias que lhes conferem um carácter tenebroso e assustador.

A primeira criança, Capricorn, é tão inteligente que é capaz de correr simulações de todas as possibilidades no decorrer de uma acção, na sua mente. É com base nestes simulações que toma decisões. A irmã, que o acompanha quase sempre, Pisces, possui uma dupla personalidade, sendo que a que está escondida além de sanguinária é bastante poderosa e desinibida.

Oriundas de experiências genéticas, os nomes das crianças são uma alusão às suas capacidades, capacidades que serão postas à prova quando um homem usa o laço entre os dois para forçar Capri a um torneio mortal com um invencível lutador.

Demonstrando, sem revelar directamente, as capacidades de ambos, Dragon e Capricorn é um conto movimentado e interessante, que vai optando por caminhos viáveis no mundo relatado e despertando a curiosidade necessária para a continuidade da leitura.

img_1044

Em I Give Life de Marta Krajewska o cenário é rural e pouco evoluído, carregado de superstições e rituais que se revelam, não só habituais como necessários. No seguimento de um parto difícil uma mãe morre deixando o bebé a cargo da filha mais velha e do pai, destroçado. Quando o tempo finalmente aquece e a filha, ainda criança, é convencida pelo pai a desfrutar da tarde, um ser semelhante à mãe aparece.

Uma história de construção clássica que usa o ser sobrenatural como figura matreira que se quer imiscuir entre os humanos para os seus próprios objectivos, de clima pesado e melancólico, é um conto agradável que não traz nada de novo ao género.

O conto seguinte, A Silent Blue de Karolina Fydek, decorre num futuro apocalíptico onde os aparelhos electrónicos desapareceram e as espécies animais extinguiram-se, salvo pelas que foram recolhidas em domos isolados. Neste mundo os meios de transporte escasseiam e poucos saem das suas terras para estudar ou trabalhar.

Salvo Farid, que regressa de uma longa ausência da faculdade onde estuda a tecnologia que já não funciona. Depois de muitos amuos entre irmãos, um deles mostra-lhe algo impensável – algumas espécies animais estão a apresentar comportamentos pouco típicos e demonstradores de algo mais.

Interessante pelo mundo apresentado e pela ideia que o originou, acaba por não ter um fecho conclusivo para as personagens ou para o desenvolvimento dos animais, deixando em aberto uma série de questões importantes. Excepto pelo aspecto não conclusivo, é um bom conto.

img_1042

Em Beginning / end of a Century de Pawel Majka, explora-se um conceito semelhante ao do livro de Philip K. Dick, Counter-clock world. A história aqui apresentada centra-se um pouco mas nas consequências civilizacionais de uma realidade em que o relógio anda ao contrário, destacando o desaparecimento da memória e na transformação de entes queridos em desconhecidos com o avanço para a infância.

Apesar da premissa interessante, este conto resolve avançar para a resolução de mistérios com a integração de um investigador ficcional famoso que se revela fulcral para o fenómeno temporal em que se encontram.

Partindo da mesma ideia que o livro de Philip K. Dick e dando-lhe um desenvolvimento interessante ao colocar a personagem principal como um assassino curioso que tenta perceber as consequências da morte indevida no fluxo temporal, fecha a história de uma forma confusa e banal, desviando o foco de todas as acções que decorreram ao longo da história para um enredo paralelo, introduzido precipitadamente no final.

The Alarm Clock de Andrzej Pilopiuk é uma curta e mirabolante sucessão de acções, divertida mas com pouco conteúdo, passada num cemitério que termina totalmente revolto.

img_1041

O último conto, Science in the service de Michal Cholewa, introduz bombas capazes de aniquilar todos os mecanismos consumidores de derivados de petróleo e todos os mecanismos eléctricos. Depois de testarem a primeira bomba no Afeganistão, contra os Taliban, atingem, sem querer, uma parte do território da Rússia que, afinal, revela ter bombas semelhantes. De bomba em bomba, o Mundo inteiro é atingido, deixando-nos com carruagens como meio de transporte e pombos como meio de comunicação. Um conto engraçado que, sem explorar personagens, apresenta uma hipótese e desenvolve-a de forma interessante.

Caso pretendam ler a revista, a mesma encontra-se disponível gratuitamente em formato digital, no site.

3 pensamentos sobre “Smokopolitan n.º7

  1. Pingback: Smokopolitan n.º7 — Rascunhos | O LADO ESCURO DA LUA

  2. Pingback: Smokopolitan n.º7 — Rascunhos – www.jgbsproducoes.com

  3. Pingback: #6 – Devaneios com URL – Imaginauta

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s