Iraq +100 – Vários autores

Não se tratando de um país com tradição em ficção científica, os organizadores desta antologia convidaram uma série de escritores a apresentarem contos que se passassem no futuro. De perspectivas diversas, na sua maioria bem escritas e de boa direcção narrativa, as histórias deste volume não formam uma excelente compilação de ficção científica, ainda que algumas das histórias sejam excelentes.

Depois de uma introdução que pretende enquadrar, quer a origem da antologia, quer a cultura de onde estes contos surgem, a primeira história, Kahramana de Anoud, apresenta as reviravoltas dos refugiados. A época futura tem apenas como intuito alienar do contexto actual, mas apresenta os altos e baixos de situações semelhantes, que oscilam por conta da mediatização dada pelos meios de comunicação.

Enquanto o próximo conto, The Gardens of Babylon de Hassan Blasim cruza trabalhos literários com uma realidade futura do país sob domínio dos chineses, The Corporal de Ali Bader centra-se num soldado que regressa da morte para ver a cidade 100 anos depois da sua morte. A cidade prosperou bem como a civilização do país – a religião desapareceu e é uma sede mundial de evolução tecnológica. A reviravolta? São os EUA, sob forte domínio religioso, que se apresentam como sub-desenvolvidos, não respeitando os direitos dos seres humanos que lá habitam. Uma excelente perspectiva que parodia a religião e a figura divina.

Em Baghdad Syndrome de Zhraa Alhaboby, um homem explora a origem de uma praça em Baghdad para poder estabelecer um plano de reconstrução. Durante a sua investigação descobre que, nesta praça, já existiu uma estátua de dois amantes, uma estátua que foi desaparecendo progressivamente. Entre a progressão da doença genética que o deixará incapaz, a investigação prossegue revelando o passado de dezenas de famílias da região e dando significado a cada pedaço desaparecido da estátua.

Se Operation Daniel de Khalid Kaki nos apresenta um país governando pelos chineses em que qualquer expressão que corresponda à antiga cultura resulta na erradicação das pessoas envolvidas, Kuszib, de Hassan Abdulrazzak apresenta um planeta governado por alienígenas. O casal que acompanhamos destes alienígenas encontra-se num evento social, experimentando pela primeira vez vinho conforme era produzido antigamente, com uvas. Então de que é feito o vinho que conhecem? Sangue. De humanos. Um conto extraordinário com reviravoltas viscerais. Finalmente, em Najufa de Ibrahim Al-Marashi os antepassados continuam vivos em equipamentos informáticos, mostrando as suas memórias e pensamentos.

Entre várias perspectivas diferentes futuras do país encontramos a postura neutra dos robots que teria permitido um controlo mais correcto das fronteiras (baseada em factos concretos ao invés de etnias) as vantagens de deixar para trás a religião numa reviravolta irónica do Mundo e a exploração do passado por motivos artísticos. Esta é uma compilação com perspectivas diferentes do que usual na ficção especulativa resultando numa combinação de histórias de tom bastante díspar, mas com excelentes contos.

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