The Memory Police – Yoko Ogawa

Nomeado e vencedor de vários prémios, The Memory Police é uma narrativa de ficção especulativa que parte de uma premissa simples para criar toda uma história. A leitura é pausada, o elemento surreal é constante, mas nunca é explicado deixando a sensação de que algo falta para elevar este romance ao patamar da excelência.

Numa ilha japonesa as ideias de objectos desaparecem, uma a uma. Quando tal acontece, os objectos correspondentes são queimados, o seu desaparecimento é vistoriado pela polícia da memória, e a maioria da população perde qualquer memória associada àquele objecto. Desaparecem selos, barcos ou chapéus. A população acomoda-se a mais um desaparecimento e todas as profissões associados aos objectos desaparecem com eles. Existem, no entanto, pessoas capazes de manter a memória dos objectos desaparecidos. Estas pessoas são perseguidas pela polícia da memória e levadas, ninguém sabe para onde.

A história centra-se numa jovem japonesa, romancista, que já perdeu os pais. O desaparecimento constante de novos objectos leva à perda de memórias e deixa um buraco nas recordações. Enquanto escritora torna-se amiga de um vizinho idoso que terá conduzido um barco. Desaparecido o barco, reformou-se. Quando o seu editor se revela à jovem como sendo um dos que não perde a memória dos objectos, a jovem decide-se a construir um quarto para o esconder, com a ajuda do vizinho velhote – um plano perigoso se for detectado pelas autoridades.

Paralelamente, vamos lendo passagens do mais recente livro da jovem – é, também, uma narrativa que se cruza com o surreal, mas apresenta uma jovem raptada pelo professor de dactilografia que perde a capacidade de se expressar. Esta história paralela é curiosa, podendo-se criar vários paralelismos com a vida da própria escritora.

A história é pausada. O quotidiano da jovem não é muito movimentado, sendo passado entre a escrita e a procura de bens alimentares. Os produtos escasseiam na ilha e é cada vez mais raro descobrir fruta e legumes frescos. Este dia-a-dia é quebrado pelo desaparecimento de mais um objecto ou pelas acções repressoras da polícia da memória.

O sentimento é de ditadura. As pessoas evitam falar dos objectos desaparecidos, mesmo quando a memória está em desaparecimento progressivo, e evitam chamar à atenção da polícia da memória. Quem consegue reter essas memórias foge ou esconde-se, enquanto a polícia cria novos sistemas de vigilância e leva a cabo sucessivas rusgas, entrando repentinamente pela casa das pessoas.

Neste sentido, a premissa é genial. É um sistema simples que permitir extrapolar novas variações com sucessivas consequências lógicas. É um único elemento de divergência em relação à nossa realidade, e que justifica todas as diferenças consequentes que surgem. Por sua vez, a profissão da história permite desenvolver uma história paralela, também surreal, mas com uma maior quantidade de horror e suspense.

Mas, como disse, anteriormente, falta alguma coisa à narrativa para o tornar excelente – ainda que considere que o que lhe falta será exactamente o ponto que poderá tornar a obra memorável para algumas pessoas. Falta-lhe intuito. Falta-lhe explicação. O livro fecha-se e não percebemos a origem do fenómeno. Não há qualquer explicação ou verdadeiro contexto. Mas, na verdade, estando a memória fragmentada pelos sucessivos desaparecimentos, e sendo a história centrada numa personagem que não é capaz de reter as memórias, até é lógico que não surja, nunca, uma explicação.

Este livro foi lançado em Portugal pela Relógio d’Água depois de ter lido a edição inglesa.

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