Periferia foi o vencedor do Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal – prémio organizado pela Associação Internacional de Lions Clubes e pela editora Guerra e Paz, que visa a premiar e publicar uma obra inédita de autor português. A autora, Catarina Costa, tem vários outros livros publicados, sobretudo pela Companhia das Ilhas. Entre eles encontramos pelo menos dois de temática de ficção especulativa (pelo menos de acordo com a sinopse): Vale de Estranheza e Periferia.

A história

Numa cidade de nome desconhecido, a população vive segundo regras muito rígidas de comportamento e interacção. Qualquer sinal de humanidade ou de sentimento é escondido, sendo que as pessoas usam véus para não verem os rostos uns dos outros. A única altura em que é permitido retirar este véu é durante a refeição, actividade que é realizada com constrangimento e pressa.

É nesta cidade que uma Paciente deambula, escondendo-se entre os verdadeiros habitantes, mostrando-se sempre ocupada e sem parar para apreciar o que a rodeia. Mas afinal o que é uma paciente? Desde sempre que a população da cidade foi separada em pacientes e não pacientes. Esta diferença não tinha, inicialmente, consequência alguma no estar em sociedade. Até as autoridades terem informados que esta diferença se devia a uma experiência global que teria ajudado a progressão da ciência, mas também tornados mais frágeis os pulmões dos pacientes. Estes teriam, então, de ser mudados para uma nova localização. A nossa paciente não seguiu as instruções, retirou o localizador e arranjou refúgio na cidade, com uma senhora idosa – situação que é perigosa para ambas.

Crítica

Periferia é uma distopia. Apresenta-nos um mundo autoritário, onde todos têm receio de ser fiscalizados pelas rusgas aleatórias ou de ser alvo de agentes à paisana. Quem tem algo a esconder mais receio tem. Mas neste caso, a autoridade parece ser uma coisa curiosa – se por um lado, todos possuem localizadores (uns anéis presos aos dedos) estes parecem não ser realmente usados; por outro, existem comunicações oficiais que deixam mais perguntas do que respostas, tendo que ser recebidas como verdades absolutas.

A narrativa centra-se numa única personagem – uma jovem mulher, solteira e sem filhos, já sem pais e poucos familiares. De forma a não ser retirada da cidade, encontra refúgio com uma idosa, e deambula durante o dia para escapar às rusgas recorrentes. Esta única perspectiva consegue ser, nas primeiras páginas algo repetitiva e cansativa. A personagem anda, simulando um destino diário, sendo esta percurso usado para explicar alguns detalhes da sociedade em causa e demonstrar o ambiente opressivo.

Felizmente, existem alguns acontecimentos que irão provocar uma mudança, e introduzir os elementos inovadores necessários para que a narrativa se desenrole de melhor forma. Infelizmente, e apesar de ter apreciado estes desenvolvimentos, o final diria que é a parte mais fraca da narrativa, conseguindo desiludir, depois de alguns episódios mais interessantes.

Então, mas afinal, o que traz este livro de novo? Em relação a distopias ou ficção especulativa, pouco. Está bem escrito, mas teria cortado alguns episódios para tornar a história mais objectiva – senti o interesse esmorecer devido a este arranque algo lento. Mas Periferia destaca-se por ser um livro de ficção especulativa (não só pela premissa distópica, mas também por alguns detalhes explicativos mais científicos) que é destacado por um prémio de carácter mais generalista ou dito de literatura mais séria.

Conclusão

Periferia é uma boa leitura que poderia ter sido alvo de alguns afinamentos narrativos, principalmente nos primeiros capítulos. Existem momentos que se tornam algo repetitivos e por isso, menos interessantes. Existe, no entanto, uma progressão narrativa que permite descobrir algo mais sobre esta sociedade, fazendo retornar o envolvimento com a história.