Eis um dos mais recentes lançamentos pela Ala dos Livros. Trata-se de uma banda desenhada de visual atractivo que nos leva à América do Norte do século XVIII durante o período conturbado das guerras entre colonos franceses, britânicos e várias tribos indígenas. A partir da capa, a expectativa visual para este volume era grande, e não desiludiu.

Benjamin Dorne é a personagem central da história, um jovem francês que vive obcecado em matar um urso selvagem. Quando, a meio de um conflito entre britânicos e franceses, o urso é avistado, Benjamin não tem dúvidas sobre o percurso a seguir, mesmo que isso o faça ser considerado um desertor, deixando para trás a esposa índia.

A premissa fá-lo explorar as florestas das montanhas, onde se cruza com vários soldados, indígenas e espiões. Mas não só. A natureza também parece ter um papel fulcral no que vai acontecendo às várias personagens, ainda que existam outras forças em acção no território – não só das potências europeias, mas interesses individuais e egoístas.

Ainda que a personagem se encontre na floresta, os encontros que vai tendo, e os acontecimentos paralelos a que vamos assistindo permitem-nos perceber uma dinâmica de corrupção e segredos sombrios onde autoridades militares, civis e religiosas usam a pouca estruturação (e distância da Europa) para explorar e desenvolver os seus próprios interesses e objectivos.

A premissa apresenta-se inicialmente simples e directa. No meio de um conflito, um homem toma como prioridade ir caçar um urso. No entanto, as revelações e consequentes reviravoltas, tornam a narrativa mais complexa do que parece inicialmente e serão estes segredos que determinarão o desfecho da história.

Não há propriamente heróis. Os franceses e os britânicos enfrentam-se em nome de uma autoridade distante que os torna inimigos. Já os povos indígenas encontram-se divididos entre si e apresentam uma dinâmica complexa que é mais percebida do que explorada na narrativa. E no meio destas facções, as personagens possuem a sua própria história e motivação.

A narrativa mistura ficção com factos históricos, aproveitando para explorar os conflitos entre as duas nações que decorrem em território americano, mas também os confrontos paralelos com os índios que criam uma sucessão de episódios violentos. Esta exploração é, no entanto, limitada, havendo um maior foco no ambiente natural e no barulho que a invasão ocidental traz à floresta.

É exactamente neste ambiente natural que decorre a maioria da acção principal, existindo a exploração de silêncios que permitem desenvolver belíssimas paisagens em aquarelas – algumas retratando o inverno gélido e governadas pelo azul, outras oscilando entre os tons acastanhados e verdes das florestas.

Enquanto leitura, Tomahwak é agradável, revelando-se mais complexo do que se previa no início, e explorando algumas temáticas mais profundas do que a (afinal nada simples) obsessão de um homem por um urso. O destaque da obra vai para a componente visual, onde o desenho, para além de expressivo na apresentação de personagens, explora as paisagens do continente americano com sucesso.