Entre O Baile, Zahna, ou mais recentemente Bestiário da Isa, o estilo visual de Joana Afonso é facilmente reconhecível, quer pelo desenho, quer pela aplicação de cores, havendo uma aura de narrativa aconchegante na maioria dos seus trabalhos. Já este Um quadrado de céu é bastante diferente em temática e sentimento.

De episódio em episódio, focando-se em diferentes testemunhos, o livro leva-nos a explorar, nas suas escassas páginas, a realidade do pré 25 de Abril, com destaque para o que se passava dentro dos muros de Caxias. Os sobreviventes vão relatando as suas experiências e os traumas que carregam consigo, reportando uma realidade que, por demasiadas vezes, parece estar esquecida – ou forçar-se a estar esquecida.

É exactamente esta a perspectiva da investigadora, que entrevista os sobreviventes e que se apercebe que, também ela, redescobre o espanto pelos tempos passados, pelas torturas suportadas, pelos pormenores de malvadez, mas também pela coragem em fugir, falar e recordar estes episódios – tratam-se de tempos que ainda assombram a actualidade, de formas mais subtis do que muitos querem fazer querer.

Apesar da continuidade narrativa concedida pelo fluxo da investigação, é uma leitura algo saltitante, entre diferentes testemunhos que se interligam para demonstrar uma dura realidade passada – uma realidade que parece ecoar do passado para tentar reactivar um futuro menos livre e menos positivo.