O conceito de mistérios de crime em contexto de ficção científica não é novo. Já tinha sido desenvolvido, por exemplo, com sucesso, por Adam Roberts, que nos leva a considerar diferentes contextos tecnológicos para tecer enigmas curiosos (com Real-Town Murders e By the Pricking of Her Thumb), ou por Ben H. Winters que apresenta crimes numa sociedade em declínio com o aproximar de um apocalipse (The Last Policeman). Olivia Waite aproveita um contexto futurista para intercalar tecnologia inexistente, mas destaca-se por apresentar estes crimes numa nave fechada, onde os colonos viajam para o próximo planeta, ao longo de séculos.

Murder by memory, o primeiro livro que decorre nesta realidade, destacando-se por nos mostrar como a autora contornou o tempo da viagem, criando uma biblioteca de memórias. Os futuros colonos vivem e revivem em novos corpos clonados, transferindo as suas memórias, se assim o quiserem, tendo a hipótese de permanecerem na biblioteca, numa existência que parece consciente, mas separada da restante sociedade.

Se neste primeiro volume percebemos que a morte pode assumir contornos bastante diferentes nesta realidade, este segundo volume resolve centrar-se na investigação de um evento que parecia impossível na nave – a geração de um bebé pelos meios tradicionais. Dorothy Gentleman é novamente chamada a investigar um caso, neste caso, tentar perceber quem serão os pais do bebé e as circunstâncias pelas quais foi gerado – uma missão que será mais difícil de concretizar do que é óbvio, até porque a mãe parece ter perdido a memória do que aconteceu.

Também neste volume se joga com a forma como as memórias são guardadas e geridas – neste caso, explora-se uma forma de cinema, onde as pessoas podem projectar (e transformar) as memórias que transportam, recriando filmes, séries ou criando novas narrativas a partir de momentos da sua vida. É neste jogo de espelhos, entre recordações e invenções que Dorothy terá de reconstruir a história do bebé que é deixado à porta do sobrinho.

Para além deste jogo de memórias, a história explora a percepção de um bebé, um ser novo em desenvolvimento, numa nave espacial, sabendo-se que os adultos que a habitam não coexistem com um ser tão novo há largas décadas. O contraste é curioso, havendo quem deseje envolver-se para ganhar notoriedade, ou quem mal se recorde de como é estar com um bebé.

Tal como no primeiro volume, a narrativa apresenta uma investigação criminal num contexto onde a tecnologia modifica perspectivas e abordagens – não só na execução do evento propriamente dito, mas também na investigação e na solução que se encontra para o bebé que se encontra a bordo. Até porque não sendo um tripulante, de que forma poderá ser este bebé imortal como os restantes? Apesar das problemáticas apresentadas, é uma história relativamente curta que se resolve de forma bastante satisfatória, deixando um sentimento de leitura confortável com toques de originalidade curiosa.