
Um dos livros mais conhecidos de Joanna Russ é Female Man, um livro controverso e desconfortável (sobretudo para os homens, ainda que curiosamente, pela descrição, não me pareça mais desconfortável do que algumas leituras tradicionais de ficção científica são para as mulheres. Este We who are about to é igualmente desconfortável, ainda que de forma bastante diferente. Pega num cenário comum, mas transforma uma narrativa previsível e esperançosa num rodopio de confrontos que expõe preconceitos religiosos, sociais e de género.
A premissa não é nova. Como em tantas outras histórias de ficção científica de aventura uma nave despenha-se num planeta isolado que é capaz de albergar vida humana. A escassa tripulação pensa em sobreviver, mas os mantimentos durarão cerca de seis meses e o céu não possui nenhuma das referências conhecidas que lhes possa dar esperança que outra nave os venha salvar. Na cabeça de alguns tripulantes, a solução estará em perpetuar a espécie humana e construir uma nova colónia – feito difícil com a escassa variedade genética dos poucos tripulantes, sobretudo se considerarmos que a maioria parece não ter exactamente capacidades que permitam a sobrevivência e a construção de uma nova civilização – mesmo que da idade da pedra.



A personagem central é peculiar. Mulher, mas sem acreditar nos ideais de expansão humana, é, opondo-se aos restantes, uma religiosa, algo que é mal visto pelos restantes. Receosos que ela se tente matar, passam a vigiá-la e tentar impor os seus planos de propagação da espécie, definindo planos de acasalamento – algo a que ela se opõe abertamente. Para a tentarem controlar retiram-lhe os medicamentos e venenos, bem como outras tecnologias. Os restantes parecem ter uma mistura de medo e repugnância dela, resultado das ideias para eles incompreensíveis.
Nada é idílico. A figura patriarcal masculina tenta impor-se, mais pela força do que por reais capacidades de liderança, pouco habituada a que as suas instruções sejam questionadas. Alguns, mais abonados, estão pouco habituados a fazer pela vida. Outros estariam a caminho de treinamento útil mas nunca o chegaram a obter. Pelo meio há quem nada faça, e há quem faça mas sem resultados práticos. Pouco a pouco, cada personagem parece desenvolver uma forma diferente de loucura, sentindo necessidade de se protegerem da perspectiva da personagem principal. É nestas condições que as tendências egocêntricas e narcisistas se agudizam, resultando num conjunto simultaneamente autoritário e moralmente decadente.



A tensão vai aumentando progressivamente, fazendo com que os ideais sejam vistos como perigosos, contrapondo autonomia individual com vontade colectiva. O confronto vai-se tornando inevitável enquanto que a protagonista se encontra cada vez mais isolada apesar de ser forçada a conviver com o grupo. Esta mistura de personalidades torna-se caótica e imprevisível, distanciando-se do usual comportamento aventureiro, positivo e até heróico que normalmente é apresentado nas histórias com estas premissas. O resultado é, ao mesmo tempo, divertido e deprimente.
Apesar de ser um livro relativamente pequeno, um pouco mais de 100 páginas, não esperem uma leitura rápida. Não é uma história fluída, e não está carregada de acção, sendo que a tensão resulta sobretudo das interacções pouco agradáveis entre os membros da tripulação – algo que há-de resultar na diminuição do pool genético. O que é peculiar e distintivo em We that are about to é a combinação de personagens e, claro, a abordagem – uma leitura aconselhável para quem procura algo diferente e irónico.