Neste terceiro volume de A Adopção apresenta-se uma história independente, mas também centrada no acto de acolher uma criança numa família – neste caso, mais concretamente, três crianças (uma delas, de forma especial). Como seria de esperar de Zidrou, trata-se de uma história que consegue captar episódios do quotidiano conferindo-lhe proximidade do leitor, ao mesmo tempo que joga com as emoções – das personagens e do leitor.
A história começa com a morte do pai, figura sólida, sempre presente na vida das três filhas, de idades muito próximas, passando então estas a recordar vários episódios marcantes que demonstram como as três são tratadas de igual forma, a tal ponto que há quem diga “já nem sei bem quais são as adoptadas”. Não havendo fome que não dê em fartura, um casal com dificuldades em conceber, regista-se para o processo de adopção em Espanha e em França, usando as diferentes nacionalidades. Mas por acaso do destino, a gravidez improvável é confirmada ao mesmo tempo que ambos os processos de adopção avançam (e apesar de uma ser filha biológica, existe efectivamente uma razão para ter referido a adopção de três crianças).



Mas as memórias apresentam perspectivas mais complexas do que parecem – histórias que não são contadas directamente mas que dão a entender circunstâncias mais duras, no seguimento da morte da mãe, demonstrando como o pai esteve se desdobrou para ajudar na concretização dos sonhos das filhas. Percebemos também que é nos momentos mais mirabolantes que se formam as mais mercantes memórias, que demonstram o espírito de família que existe neste conjunto de pessoas.
Enquanto que o primeiro ciclo da série se centra numa adopção ilegal, e a segunda nas dificuldades de adaptação de um jovem rapaz que perdeu a família, este ciclo apresenta uma história mais suave, mais feliz, mais aconchegante, apesar das circunstâncias a partir da qual é contada. As jovens foram criadas lado a lado, adaptando-se bem, apresentando diferenças, mas também pontos em comum, sobretudo os derivados do quotidiano familiar. A adopção não é tratada como diferente do nascimento natural, sendo “apenas” uma forma como as crianças aparecem na família – sem diferenças, sem preconceitos, apenas com carinho e envolvência.



A história é construída a partir de memórias, saltitantes, nem sempre seguidas do ponto de vista cronológico, mas que se vão encaixando, e compondo em algo mais complexo e perceptível. Esta ordem de apresentação é importante para se perceberem melhor alguns detalhes, dando por vezes pistas sobre acontecimentos que vamos perceber em maior detalhe noutras passagens.
Apesar da morte inicial é um volume menos trágico do que as histórias anteriores da série, um conjunto de recordações felizes e divertidas, que recordam alguém que, falecendo, deixa um legado enorme nas filhas que educou. O resultado é um relato envolvente e fabuloso, aconselhável a quem gosta de histórias mais próximas e, até, aconchegantes.
