Estando a tentar treinar a IA para me fazer boas recomendações de livros, eis que a primeira, pegando nos livros que já tenho, foi esta leitura. Infelizmente, estando em viagem peguei na versão digital e agora não encontro a versão física para fotografar. Foi efectivamente uma boa recomendação. O livro pode ser lido isoladamente, ainda que existam mais no mesmo Universo, centrados noutra personagem. Este volume foi nomeado para alguns dos prémios mais sonantes do género fantástico – World Fantasy Award, Hugo e Nebula.

A história centra-se num jovem que, sendo filho do Imperador com uma esposa indesejada, é exilado. Apesar da sua condição nobre (meio goblin, meio elfo), Maia sofre alguns mal tratos no seu crescimento, o que irá originar uma personalidade empática e, até, por vezes, humilde. Quando um acidente elimina o pai e todos os descendentes directos, o jovem é levado à capital para assumir o lugar de Imperador. Pouco habituado a mordomias e políticas, terá de se adaptar à realidade da cidade e, mais propriamente, às intrigas da corte.

Claro que a sua existência não irá ser pacífica. Enquanto alguns o aceitam, outros testam limites achando-se capazes de o manipular, existindo ainda aqueles que tecem planos para o destronar. Em paralelo, decorre uma investigação para determinar quem provocou o acidente do Imperador anterior, uma conspiração que irá permitir apresentar várias camadas sociais deste mundo.

Dada a sua educação peculiar, Maia distingue-se dos anteriores Imperadores. Para além da postura diferente, apresenta-se curioso e, até, disruptivo, aceitando que se ponham em causa alguns procedimentos estabelecidos e que possam ser desenvolvidas novas estruturas inovadoras. Lentamente, este novo Imperador vai construindo uma rede de aliados fiéis, e consolidando a sua posição, apesar de alguns contratempos violentos.

Em The Goblin Emperor, tudo é apresentado pela perspectiva de Maia. O leitor entra no mundo pelos seus olhos e percepções, enquanto ele própria explora a nova realidade onde se enquadra. O conflito advém mais das movimentações políticas na corte, do que das batalhas ou confrontos directos. As interacções possuem conteúdos subentendidos, derivações e consequências que são entregues subtilmente, entre as palavras não ditas e as expressões escondidas.

Apesar de curioso e inseguro, Maia é uma personagem que começa como vazia, traumatizado pelos maus tratos que sofreu, com dificuldades em se afirmar, mas aceitando o suporte dos que o acompanham. Lentamente, vai ganhando expressão, usando uma intensa capacidade para captar informação e a sua curiosidade para fazer a diferença – por vezes, até demais. Nesta forma de governar, Maia vai sendo confrontado com as atitudes dos seus antecessores. Enquanto o seu pai governava pelo medo e pela força, Maia opta pela bondade e empatia, reflectindo nos outros as suas próprias experiências (novamente, os maus tratos e o próprio preconceito por a sua mãe ser uma nobre Goblin).

Mas apesar destas características, o Imperador está relegado à solidão. Sem poder confiar na maioria dos que se aproximam, sem poder agir como amigo para com os que o servem, Maia vai demonstrando como o papel que vários ambicionam seria algo que abdicaria de bom grado, existindo uma alterativa viável para a sua sobrevivência e progressão do Império. Maia é, acima de tudo, responsável, e percebe que as decisões que toma têm consequências em larga escala.

The Goblin Emperor não é um livro com muita acção. No entanto, consegue interessar e envolver, descrevendo uma realidade diferente com um funcionamento peculiar, o que me levou a uma progressão mais rápida do que esperava. Grande parte da narrativa apresenta audiências, reuniões, cerimónias e decisões administrativas, tornando-se fascinante pela forma como desenvolve a abordagem política e as intrigas da corte, conseguindo surpreender pelas camadas de interpretação que apresenta. Não será, portanto, uma leitura aconselhável a todos os leitores, mas sem dúvida uma que gostei bastante e que recomendo a quem gosta de fantasia com menos episódios épicos e mais construção de mundo.