
Com várias nomeações para o prémio Locus, esta série inicia-se com uma premissa que parece fantástica, mas que vai deixando pistas de que se trata, na verdade, de uma série de ficção científica. Apesar das várias nomeações, não me recordava de ter visto esta série alguma vez referida e a IA indicou-me como obrigatória, baseando-se em dois critérios que parecem ser constantes nas minhas críticas e nas minhas preferências – a descoberta de um mundo novo e a forma como o desenvolvimento do conhecimento é essencial na história.
A série inicia-se com o volume The Steerswoman e mostra-nos um mundo aparentemente rudimentar, com tecnologias ao nível medieval, mas onde existem dois grupos que se distinguem. Um deles serão os das Steerswomen, um grupo de pessoas (sobretudo mulheres, ainda que existam alguns, poucos, homens) que têm como missão captar e distribuir conhecimento, viajando, actualizando mapas e respondendo a qualquer pergunta. O outro, é mais obscuro, tratando-se de magos que possuem magia e a usam aparentemente para a concretização de objectivos pessoais – algo que, conforme a narrativa progride, vai assumindo contornos mais complexos.
No primeiro volume conhecemos Rowan, uma jovem Steerswoman que começa a fazer perguntas sobre o aparecimento de umas estranhas pedras, que estarão incrustradas na arma de uma Outskirter chamada Bel, uma guerreira dos povos bárbaros que habitam uma espécie de deserto, onde as condições de sobrevivência são duras. Estas perguntas serão o início de dois elementos determinantes para a narrativa – os primeiros passos de uma amizade entre as duas que determinará tornarem-se companheiras de viagem, e Rowan ser alvo de tentativas de assassinato por parte de um mago de nome desconhecido. Ao invés de a afastar, claro que Rowan dedicará mais tempo e energia em saber o que se passa com as pedras.
No segundo volume, The Outskirter’s Secret, a viagem leva Rowan e Bel a explorar o local de onde as pedras serão originárias. Bel, originaria destas terras desertas vai explicando a Rowan como lutar e sobreviver. Dada a escassez de recursos as interacções entre tribos podem, muitas vezes, ser agressivas, não havendo responsabilidade em cuidar de alguém que precise. A aproximação pacífica entre tribos segue um padrão específico que deve ser seguido à risca. Mas não é só o ambiente que é inóspido e os humanos que têm comportamentos mais contidos. Os animais e a flora difere, havendo incompatibilidades com os humanos e a maioria dos restantes seres que habitam as restantes regiões.
Sem estragar a grande revelação do segundo volume, este termina com Rowan a sair da região, carregando consigo informação crítica para a continuidade da humanidade. Dirige-se então à cidade que terá as cópias dos mais importantes livros das Steerwomen, em procura de referências a acontecimentos ocorridos algumas décadas antes. Mas a steerwoman que cuidou deste arquivo não fazia o seu trabalho de forma adequada, pelo que o trabalho de Rowan se alongará muito para além do esperado. Assim terá a oportunidade de assistir a novos e alarmantes acontecimentos, onde seres das regiões inóspitas começam a avançar para outras localizações, pondo a população em perigo.
Tal como o primeiro volume, um dos elementos que se destaca é o mundo e a forma como este vai sendo revelado, pelos olhos de alguém que acumula conhecimento e que é obrigado a responder a qualquer pergunta de qualquer pessoa com quem se cruze. As descobertas que vai fazendo vão indicando, cada vez mais, que a magia será ciência (novamente, seguindo a linha de que, para quem não sabe ciência, esta parece magia) e que estamos antes perante uma série de ficção científica. Esta abordagem é interessante e intrigante, mantendo-nos em antecipação para as próximas revelações.
Como ponto menos positivo, tinha indicado, no primeiro livro, que a personagem era pouco explorada e desenvolvida na perspectiva pessoal, sabendo-se pouco sobre ela, o que sente realmente e o seu passado. Estes elementos vão sendo mais desenvolvidos, sobretudo no terceiro volume. Ainda não são apresentados de forma totalmente natural e cadenciada, mas nota-se que é algo que a autora tem vindo a mudar com sucesso, o que ajuda a explicar algumas interacções e comportamentos, numa personagem que, no primeiro volume, era mais arrastada pelas circunstâncias do que um elemento propulsionador da acção.
O primeiro livro foca-se sobretudo no conflito que a busca de conhecimento parece causar entre Steerwomen e magos, mostrando-nos como agem as Steerwomen, e os relacionamentos que desenvolvem com os que a rodeiam. As situações de perigo existem, mas não parecem tão envolventes quanto as apresentadas no segundo ou terceiro volume. Provavelmente porque, não tendo as personagens sido tão desenvolvidas, ainda não se criou o nível de empatia necessário. O primeiro livro é mais interessante pelo mundo e pela forma como é apresentado do que pelas personagens, e por aquilo que lhes acontece.
O segundo volume foca-se em desenvolver os hábitos e costumes das tribos denominadas bárbaras. E, na verdade, assim poderão parecer, mas com o detalhe percebemos que estas rotinas foram criadas para garantir a sua sobrevivência, havendo uma curiosa e complexa tradição oral que garante a passagem do conhecimento histórico por todas as tribos da região. Assim vamos percebendo as grandes diferenças entre Rowan e Bel, duas mulheres que cresceram em realidades bastante diferentes mas que, sendo ambas curiosas, aprendem a respeitar-se e a transmitir conhecimento uma à outra.
Já o terceiro volume poderia ser dividido em dois, tendo dois momentos bastante distintos. Numa primeira parte explora uma cidade que possuía uma Steerwoman residente bastante peculiar (e até, negligente), chocando com a perspectiva de Rowan e levando-a a prolongar a sua estadia. A pequena cidade tem uma dinâmica bastante peculiar, havendo os mais ricos que tomam as decisões, e os restantes que têm ocupações úteis, funcionando numa comunidade fechada, onde alguém pode ser facilmente idolatrado ou demonizado.
Na segunda parte do terceiro volume explora-se a civilização criada por criaturas que, sendo bastante diferentes das espécies animais que conhecemos, são inteligentes. Rowan percebe que possuem capacidade de escrita, aglomerações familiares, construções e hábitos. Uma constatação que a irá fazer confrontar-se com acontecimentos anteriores, sendo mais uma pista a juntar ao grande mistério que se desenrola.
Em todos os volumes, destaca-se a procura do conhecimento, e a forma sistemática como Rowan, enquanto Steerswoman, analisa e questiona de forma metódica, quer no desenvolvimento de fórmulas matemáticas para explicar a aceleração de alguma coisa, quer na dissecação de estranhos animais, onde deve desenhar as suas estruturas e inferir a sua função. Esta forma de recolher e distribuir conhecimento é, de forma geral, respeitada, e, até contagiadora.
Até agora, esta série não é perfeita – e dado o tamanho do quarto volume, até desconfio que até poderá não fechar. Inicialmente é um pouco tosca no desenvolvimento de personagens (faltando-lhe criar personalidade e estabelecer empatia para com o leitor) mas torna-se fascinante pela forma como progressivamente nos vai dando a conhecer aquele mundo e como vamos percebendo, estando de fora, que estaremos perante uma história de ficção científica vista por pessoas sem conhecimento científico. A abordagem é sobretudo racional e metódica, apresentando ecossistemas complexos, hábitos culturais lógicos e novos seres com particularidades curiosas.
o terceiro livro quase que poderia ser dois, havendo dois momentos bastante diferentes – é também aquele que parece menos inocente. Normalmente, as interacções são positivas ou construtivas, com pessoas que podem ser capazes de acções negativas, mas que, mesmo assim, têm intenções neutras ou positivas ou justificaveis. Tal parece ser contornado aqui, com uma personagem que se vai revelando cada vez mais confusa, afastada do caminho construtivo, perigosa, egoista e, até destrutiva sem um verdadeiro objectivo maior