Cornos é o segundo livro que leio de Joe Hill, também o segundo publicado no mercado português, desta vez pela Gailivro.  A Caixa em forma de coração (lançado pela Civilização Editora) tinha sido uma experiência interessante mas com falhas na exposição no enredo, que fizeram com que a história não tivesse resultado totalmente comigo.

Em Cornos a premissa é bastante diferente, e ainda que existam vários elementos que catalogam a história no género do horror, existem outros que o aproximam de livros mais humorísticos de Christopher Moore, ou que relembram a história de uma Banda Desenhada pela mistura de ridículo com super-poderes: Ig acorda um dia com cornos, descobrindo que todos os seres humanos com que se depara lhe confessam os desejos mais ridículos ou os pecados mais negros. Na realidade, nem precisa que estes contem, basta tocar-lhes e conhecerá os seus sentimentos mais obscuros.

Antes do aparecimento dos cornos, Ig tem vivido num inferno desde que a namorada apareceu, violada e de miolos estoirados, tendo-lhe sido atribuída a culpa do assassinato. Ainda que inocente, quase todos os que o rodeiam acreditam na sua culpa. Com o aparecimento dos cornos e dos poderes mentais, Ig descobre que a avô complacente o odeia, que a mãe sempre solícita na verdade arrepende-se de cada uma das suas visitas, e que o pai não acredita na sua inocência e terá ajudado a ocultar as provas que o teriam ilibado. Resta-lhe o irmão que sempre o defendeu, mas quando se aproxima, este revela saber mais sobre a namorada do que seria suposto: o assassino é o melhor amigo, aquele que o acompanhou desde infância, Lee.

Após a revelação acompanhamos alguns episódios da infância de Ig: como se terá tornado amigo de Lee depois de quase se ter afogado no rio, como conheceu a namorada, e como os acontecimentos se foram entrelaçando para terminar no assassinato da namorada, com a qual pensava ter um relacionamento perfeito.

Com os cornos, Ig torna-se o herói perfeito: um jovem honrado a quem todos apontam o dedo de um crime que não cometeu, que a força das circunstâncias transforma pouco a pouco num diabrete tecendo um plano para levar Lee a pagar pelos crimes que cometeu. Afinal, será o diabo ou deus o mau desta história?

Bastante mais coeso que o primeiro livro de Joe Hill, esta é uma história bem contada onde todos os detalhes farão sentido e não existem pontas soltas. Esta não é uma grande história, mas sim uma que promete envolver e distrair o leitor, enquanto assistimos aos episódios ridículos e inocente de Ig. A violência é rara, mas existe, sem o intuito de chocar o leitor, sendo apenas uma consequência dos acontecimentos. Não esperem algo com a densidade de uma história de Clive Barker ou Peter Straub, nem algo especialmente marcante: antes um livro de fácil leitura com algumas pitadas irónicas, que encontrando-se bem construído se torna envolvente e se lê num trago.