Vencedor de um Nebula e de um Hugo, não é por acaso que The Dispossessed foi também nomeado para vários outros prémios, sendo considerado um dos clássicos do género da ficção científica. Tal como The Left Hand of Darkness, pertence ao ciclo Hainish, onde uma raça de seres humanóides terá colonizado vários planetas, inclusive a Terra, espalhando-se pelo Universo. Ainda que explore várias teorias científicas, é pela construção de dois sistemas políticos e económicos que se tornou mais conhecido.

Duas sociedades em dois planetas distintos, progridem lado a lado: Anarres e Urras. No primeiro planeta existe uma sociedade anárquica, sem governo ou figuras autoritárias, fundada há cerca de 150 anos, por colonos oriundos de Urras, onde existe uma sociedade extensamente capitalista. Partindo do princípio de que a linguagem moldaria o pensamento, aquando da fundação da sociedade anárquica foi inventada uma linguagem, por computador. É este mesmo computador que gera os nomes dos seres humanos, garantindo que, em determinado momento, existe um único ser humano com um determinado nome. Sem figuras autoritárias, a sociedade subsiste pela cooperação entre os seres humanos: num planeta pobre em que não existe sentido de posse, a liberdade impera.

“Anarquia significa ausência de coerção e não a ausência de ordem.”

Para que esta sociedade seja possível as crianças crescem em pequenas comunidades, onde se habituam a não possuir, apenas a utilizar temporariamente aquilo de que necessitam. Da mesma forma que não possuem um objecto, também se devem habituar a ouvir e a comunicar, sem ocupar mais do que o tempo que deve ser utilizado por cada indivíduo. Neste sentido, uma ideia científica pode-se tornar egoísta, no sentido em que nem todos a poderão perceber. Para coordenar estes indivíduos não existem chefes, mas um computador que indica a colocação de uma determinada pessoa consoante as suas qualificações e as necessidades. Os indivíduos têm a possibilidade de recusar determinada colocação mas, na verdade, ninguém o faz. A sociedade de Anarres, inicialmente anárquica e totalmente livre, avança devagar para um autoritarismo que castra as possibilidades inventivas, e pune aqueles que ousam pensar de forma diferente, através do ostracismo público.

“O comunismo é uma estrutura socioeconômica e uma ideologia política, que pretende promover o estabelecimento de uma sociedade igualitária, sem classes sociais e apátrida, baseada na propriedade comum e no controle dos meios de produção e da propriedade em geral. Karl Marx postulou que o comunismo seria a fase final na sociedade humana, o que seria alcançado através de uma revolução proletária. O “comunismo puro”, no sentido marxista refere-se a uma sociedade sem classes, sem Estado e livre de opressão, onde as decisões sobre o que produzir e quais as políticas devem prosseguir são tomadas democraticamente, permitindo que cada membro da sociedade possa participar do processo decisório, tanto na esfera política e econômica da vida. “

Shevek nasceu em Anarres, um cientista brilhante que, desde cedo revelou pensar de forma diferente dos que o rodeiam, o que lhe terá trazido alguns problemas de integração. Ainda assim, conseguiu desenvolver os seus estudos “egoístas”, tendo sido o responsável pela invenção de um rádio capaz de transmitir som a uma velocidade superior à da luz, permitindo a comunicação entre dois pontos situados a anos-luz de distância. Casado, as pressões sociais em relação à sua unicidade começam a fazer-se sentir sobre a família. Na sociedade fundada por revolucionários com o objectivo da liberdade absoluta dos indivíduos, começam a existir pequenos organismos com poder decisivo. Shevek decide-se assim a viajar até Urras, onde existirão outros físicos conceituados. A viagem não tem apenas como objectivo a troca científica, mas também a troca cultural, e talvez, a cooperação entre os povos dos dois planetas.

“O capitalismo é um sistema econômico em que os meios de produção e distribuição são de propriedade privada e com fins lucrativos; decisões sobre oferta, demanda, preço, distribuição e investimentos não são feitos pelo governo, os lucros são distribuídos para os proprietários que investem em empresas e os salários são pagos aos trabalhadores pelas empresas. “

Em Urras, Shevek é recebido com pompa, instalado numa casa luxuosa com empregados e convidado para festas desgastantes. Em Urras tudo é mais rico: um mundo verde sem desertos onde a água abunda e as formas de vida proliferam. A interacção com outras teorias científicas dão-lhe novas direcções, mas a troca cultural como a tornar-se um objectivo cada vez mais distante – os seus discursos não atingem os cidadãos ricos e mimados, mais preocupados com os bens materiais e os jogos de poder. Para se fazer ouvido, Shevek terá de procurar a classe trabalhadora, a mesma que se terá revoltado e fundado Anarres.

“O Anarquismo individualista (ou anarcoindividualismo) é uma tradição filosófica do anarquismo com ênfase na autonomia do indivíduo, argumentando que cada um é seu próprio mestre, interagindo com os outros através de uma associação voluntária. O anarquismo individualista refere-se a algumas tradições de pensamento dentro do movimento anarquista que priorizam o indivíduo sobre todo tipo de determinação externa, que ele é um fim em si mesmo e não um meio para uma causa, incluindo grupos, “bem-comum”, sociedade, tradições e sistemas ideológicos. “

Se em The Left Hand of Darkness Ursula le Guin explora as diferenças sociais provenientes da inexistência de dois géneros, masculino e feminino, em The Dispossessed constrói-se uma nova utopia, anárquica, sem centralização de poder onde, sem autoridade, os indivíduos poderiam atingir as suas capacidades em pleno. Numa sociedade onde todos podem usufruir de tudo o que os rodeia e nada é possuído, poderão os indivíduos atingir a verdade liberdade e unicidade?

A forma como Shevek chega a uma sociedade desconhecida, onde os seres humanos se revelam subtis e matreiros com acções e palavras de múltiplos significados relembra The Left Hand of Darkness.  Felizmente, cedo a história perde qualquer paralelismo, tornando-se, mais do o choque cultural de um viajante, uma crítica ao capitalismo cego onde os cidadãos andam entorpecidos por todas as comodidades a que têm acesso. A personagem principal não é apenas um câmara que regista os acontecimentos, e a história é muito mais do que a construção de uma utopia. Sem dúvida um dos melhores livros de ficção científica que já tive oportunidade de ler.