Gorel and the Pot-Bellied God – Lavie Tidhar

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As minhas primeiras leituras fantásticas terão sido as mitologias – histórias de deuses poderosos que, num único gesto, criavam mundos, moldavam humanos e erguiam fortalezas. Seres em tudo semelhantes aos humanos, com caprichos, desejos e vinganças, cujas vidas oscilavam entre tragédias gregas e novelas, mas onde as histórias eram contadas do ponto de vista minúsculo do humano, esmagado pela magnificência dos deuses.

Gorel and the Pot-Bellied God fez-me recordar algumas dessas mitologias, começando por contar a criação de uma civilização através da interacção romanceada e idealizada entre uma rapariga e um Deus. Mas pouco nessa interacção é tão inocente e belo quanto as lendas contam, antes uma versão poetizada de uma realidade tenebrosa e deprimente.

A história centra-se em Gorel, um mercenário que, antecipando-se a uma guerra, vai criando alianças onde mais lhe convém, alianças que poderão ser tão efémeras quanto as necessidades da viagem. Assim formam um pequeno grupo heterogéneo, quer em género, quer em espécies, em que cada elemento tem os seus motivos obscuros para participar na demanda, mas nem por isso deixam de partilhar carícias no frio da noite.

A demanda! O objectivo da viagem de Gorel é não mais que um objecto, um espelho, que poucos ouviram falar e muitos julgam um mito, a que Gorel desconhece a forma ou função, mas não o possível valor. Por essa razão não se contém em interrogar e matar quem possa ter qualquer informação que o levará ao destino.

O mundo descrito exala magia, mas não uma magia de magos ou fadas, antes uma magia natural e corrompida, que vai impregnando a civilização descrita. As aparentes inocência e beleza vão-se desvanecendo, mostrando uma civilização viciosa e degradada, centrada numa mitologia aparentemente ingénua, que esconde uma realidade claustrofónica. No final, o mercenário mostra-se honrado (ainda que “humano”, com as suas falhas), e o que é inicialmente mais belo, torna-se asqueroso.

Ainda que tenha gostado bastante da transfiguração dos elementos ao longo da história, faltaram, a meu ver, outras personagens ou maior conhecimento da personagem principal. A Gorel desconhecemos quase sempre os pensamentos ou sentimentos, e as suas motivações são irreconhecíveis sentindo-se uma névoa que nos separa da acção. Talvez esta névoa separadora tenha ajudado na criação do sentimento mitológico, mas não é constante – história vai intercalando momentos bastante movimentados e palpáveis, com outros melancólicos, o que dificulta a maior coesão do texto.

Mas não me interpretem mal. O que aqui refiro são detalhes – esta é uma boa história, que se destaca em tom e estilo, uma beleza corrompida num livro de aspecto gráfico coerente. De capa rígida, o design é da autoria de Pedro Marques, destacando-se a capa de entre os belos exemplares da PS Publishing, e o detalhe dos separadores no interior.

2 pensamentos sobre “Gorel and the Pot-Bellied God – Lavie Tidhar

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