Assim foi: Recordar os Esquecidos – Novembro, Dezembro de 2015

Ainda que esteja disponível, em locais como o facebook, alguma informação sobre os convidados ou os temas falados em cada sessão, já conclui que é uma tarefa desgastante tentar pesquisar informação neste tipo de plataformas, decorridos alguns meses. Eis a principal razão pela qual gosto de compilar a experiência e as informações de cada evento.

Das sessões de Novembro e Dezembro ainda não tinha falado. Apesar de já terem decorrido há algum tempo, os dias foram passando e não cheguei a colocar em texto as anotações que fui tirando. Quanto a fotos, são poucas. Na primeira a bateria impossibilitou-me, na segunda, não compareci por conta da sobreposição com o Fórum Fantástico, mas deixo aqui pelo menos a lista dos livros referidos. Ainda para mais porque era uma sessão especial.

IMG_9650

Sessão de Novembro com Gonçalo M. Tavares e Jaime Rocha

Após a usual introdução de João Morales, a conversa iniciou-se com a referência a O Jantar Chinês e outros contos de Maria Ondina Braga por Jaime Rocha. Contista, terá sido uma autora amarguarada pela pouca divulgação da sua obra, que se encontra sobretudo no formato que é considerado um género menor.

o jantar chines

Estátua de sal, outro livro de Maria Ondina Braga, é também um conjunto de contos com bastante componente biográfica, contendo uma fusão entre a realidade do dia-a-dia e memórias.

est

Rapidamente, referiu-se, ainda, da mesma autora, Casa Suspensa, cujo título remete logo para o fantástico.

casa suspensa 2

A autora escreveu, também, Vidas Vencidas, um livro de contos de grande ironia, onde se denota a ligação à comunidade. Nestes contos conseguiu transcrever para a literatura alguns arquétipos, com sentido irónico. É engraçado destacar que o livro apresentado por Jaime Rocha se encontra anotado e corrigido pela própria autora.

vidas vencidas

A primeira referência de Gonçalo M. Tavares foi ao escritor Carlos de Oliveira, um autor mal lembrado e conotado ao Neo Realismo. Entre as suas obras destaca-se Finisterra, onde se nota a escolha cuidada de cada palavra – o que é importante é a forma como se relata. De realçar, também, a importância da questão sonora, em que ao se descrever a fala, se descreve por onde a voz passa, dando desta forma uma ideia do ambiente.

carlos de oliveira finisterra

Após passagem por Trabalho Poético, também de Carlos Oliveira, Jaime Rocha fala de Luíza Neto Jorge, mais especificamente de Os Dezanove Recantos. Poetisa com luminosidade, não tem, neste conjunto, poemas soltos e consegue usar palavras que não criam fosso entre o leitor e a leitura.

dezanove recantos

Vergílio Ferreira é recordado por Gonçalo M. Tavares com Em Nome da Terra. Encarando a ideia do romance como pensamento, uma aproximação ao existencialismo de Sartre, não considera uma narrativa como um contar de uma história, e suspende-a para colocar pensamentos, o interior das personagens, desmarcando-se assim da novela dita televisiva. Esta característica, a de suspender a história para incluir pensamentos, é considerada por Gonçalo M. Tavares como muito importante e distintiva.

em nome da  terra

Jaime Rocha prossegue a sessão recordando Bernardo Santareno que teve grande projecção durante a censura, com O crime da aldeia velha. Na sessão, Jaime Rocha dá especial ênfase a O Lugre, realçando a capacidade de pôr em teatro a realidade. A peça em questão passa-se na pesca do bacalhau, incidindo sobre a repressão e censura dos pescadores em que as 20h de trabalho diário e a convivência por seis meses seguidos, levam a que os sentimentos se encontrem à flor da pele, surgindo sentimentos de ódio entre os trabalhadores.

lugre 2

Alguns destes pescadores teriam escolhido esta profissão para escapar à tropa, mas têm seis anos de trabalho como imposição. O trabalho perigoso fá-los criar uma especial relação com o mar – uma relação de diálogo interior, sem segredos. Para o pescador, o mar é como se fosse uma pessoa. Esta aura de tragédia, morte e suicídio alude ao teatro grego, em que alguém tem de ser culpabilizado, para expiar e personificar o mal.

incuraveis

A última referência de Gonçalo M. Tavares é Agustina Bessa-Luis com Os incuráveis. Quase o oposto de Carlos de Oliveira, tem histórias em que os nomes das personagens mudam, apesar da notável caracterização. Apesar de possuir uma narrativa natural, os diálogos das personagens são artificiais. Os vários livros da autora podem ser lidos quase como um acaso, abrindo em qualquer página. O estilo será um grande obstáculo à sua leitura – os livros quase que não se diferenciam uns dos outros.

uma fenda na muralha

Jaime Rocha termina com referência a duas obras de Alves Redol: Uma Fenda na Muralha e Glória. Alves Redol quereria escrever um livro sobre os pescadores, tendo por esse motivo ido para a Nazaré. Embarcou conjuntamente com os pescadores num bote grande e assistiu a uma tempestade, tendo escrito de seguida o que chamou de episódio de história trágico-marítima. Além da narrativa muito fiel incorporou a língua dos pescadores. Incorporou a personagem do Diabo Negro que cria uma aura de estranheza e perigosidade e intercalou-a com os relatos do bacalhau onde a Morte está iminente, escrevendo sobre a coragem, o medo e os sentimentos destes momentos.

Relatou, também, o espírito de entre-ajuda dos vários barcos, e a expectativa criada pelo (des)aparecimento dos barcos na ondulação, ao qual assistem, também, as famílias, na praia. Nesses momentos de aflição e incerteza, os pescadores não se olham para não mostrarem o medo e a fraqueza por forma a manterem a sua imagem perante os outros e a família.

Sessão de Dezembro com Luís Ricardo Duarte e Mário Rufino

recordar dezzembro 2015

A sessão de Dezembro teve como convidados Luís Ricardo Duarte e Mário Rufino e uma pequena alteração de temática, recordando-se os esquecidos do ano de 2015 – aqueles que facilmente caíram no esquecimento ou que passaram despercebidos. Deixo-vos as listas de cada um dos convidados e do moderador, de onde já conhecia O Último Europeu de Miguel Real, bem como as escolha de João Morales, Isto anda tudo ligado e Tormenta.

Escolhas de Luís Ricardo Duarte

O Último Europeu; Miguel Real; Dom Quixote
Portugal e Espanha – Amores e Desamores; Artur Teodoro de Matos, João Paulo Oliveira e Costa e Roberto Carneiro; Círculo de Leitores
Uma Admiração Pastoril pelo Diabo; António M. Feijó; INCM
70% Acrílico 30 % Lã; Viola di Grado; Sextante
Reprodução; Bernardo Carvalho; Quetzal

Escolhas de Mário Rufino

Thérèse Desqueyroux; François Mauriac; Cavalo de Ferro
Psicopolítica; Byung-Chul Han; Relógio d`Água
Meursault, contra-investigação; Kamel Daoud; Teodolito
Imunidade; Eula Biss; Elsinore
Amores de Família; Carla Maia de Almeida; Caminho
Dicionário Sentimental de futebol; Rui Miguel Tovar; Quetzal

Escolhas de João Morales

Tormenta; André Oliveira e João Caetano; Polvo
Isto Anda Tudo Ligado; Eduardo Guerra Carneiro; Ulmeiro

Sessões anteriores

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s